“Aqui é o meu escritório”, brinca o maestro Thierry Fischer diante da plataforma elevada na frente do palco da Sala São Paulo. É nesse pódio de 1,44 metro quadrado, a 30 centímetros de altura, que o regente conduz a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. De batuta em punho ou não, dependendo do sentimento do dia. “Procuro não ter uma rotina preestabelecida”, diz. “Existe uma tendência a repetir algo que deu certo. Aprendi que isso quase sempre é um erro: o que funcionou antes normalmente não funciona de novo.”
Com esse espírito, Fischer estendeu até 2031 seu contrato como diretor musical e regente titular da Osesp, iniciado em 2020. Segue na busca por se aproximar da excelência, que faz questão de distinguir da perfeição. “É fazer o melhor possível naquele momento, e isso muda todos os dias.” Também lembra que um regente não existe sem a orquestra. “Preciso dos músicos, e eles precisam de mim.”
Foi a vontade de compreender “o que significa subir diante de uma orquestra e compartilhar uma visão de beleza” que o levou à transição da flauta para a regência, por volta dos 40 anos (hoje tem 66). Assumiu a posição pela primeira vez substituindo o regente de um coro que não pôde comparecer a um ensaio – e não quis mais sair dali. “Fui tomado por uma determinação absoluta”, conta.

Desde então, dirigiu orquestras ao redor do mundo – da Sinfônica de Utah, da qual é diretor artístico emérito, à Filarmônica de Nagoya. Hoje, acumula a direção na Osesp com o mesmo cargo na Orquestra Sinfônica de Castilla y León, na Espanha.
Nascido na Zâmbia, filho de suíços, tem entre suas lembranças mais antigas os sons dos pássaros de lá. Quando pensa em um som brasileiro, vem à cabeça o canto do uirapuru, que inspirou composições de Heitor Villa-Lobos e Mozart Camargo Guarnieri. Sua história com a Osesp começou como regente convidado, em 2016. “Quando entrei na Sala São Paulo, tive a sensação de que era um lugar onde eu queria dar o meu melhor”, diz.
“Como flautista, eu observava grandes maestros e tentava entender como transmitiam ideias sobre beleza, som, equilíbrio e harmonia.”
— Thierry Fischer
Sob sua direção, a instituição tem desenvolvido programas com atenção à música contemporânea e sul-americana e em diálogo com outras formas de arte, como a dança. Ele busca também criar uma identidade sonora que se adapte com agilidade a diferentes repertórios. “O verdadeiro desafio de um artista e regente não é fazer as coisas acontecer: é permitir que aconteçam. Mas, para conseguir, precisamos trabalhar tanto que chega um momento em que podemos abandonar a própria técnica.”
Nos quatro meses e meio por ano que fica em São Paulo, Fischer diz que vive a música desde que acorda. “Enquanto coloco as meias, já estou pensando no andamento da sinfonia. Tudo o que faço está relacionado ao que vou pedir, horas depois, para cem músicos extraordinários”, afirma ele, que comanda os ensaios em português, embora se sinta mais à vontade para dar entrevistas em inglês.
Ele falou à Forbes Brasil em julho, em meio aos ensaios para o espetáculo A Flor Azul, do suíço Frank Martin.

Forbes Brasil: Como aconteceu sua passagem da flauta para a regência?
Thierry Fischer: Como flautista, observava grandes maestros e tentava entender como eles transmitiam ideias sobre beleza, som, equilíbrio e harmonia. Alguns artistas apenas entram em cena e, antes de tocar uma nota, tudo já parece belo. Outros fazem enorme esforço e, ainda assim, essa beleza nunca acontece. Para mim, beleza nunca foi sinônimo de perfeição. Pelo contrário. Acho a perfeição desinteressante. A autenticidade da beleza aparece quando revelamos nossas fragilidades: quando estamos prestes a cair, a chorar, a cometer um erro, a perder algo essencial, a perder o fôlego. É aí que a beleza atravessa o palco e alcança o público.
FB: Hoje você interrompeu o ensaio antes do previsto. O que motivou essa decisão?
TF: Percebi que a orquestra começava a perder o envolvimento emocional com o trabalho. Meu papel é fazer com que os músicos estejam no auge nos concertos. Para manter esse desejo vivo, é preciso desenvolver uma estratégia intuitiva. Pensei: preciso fazer algo que eles não esperam. Então disse: “Vamos tocar mais uma vez e depois quero que todos vão para casa”. O efeito foi imediato. Todos voltaram a estar presentes. Se você insiste demais, nunca funciona. É preciso ensaiar para todos – inclusive para você. Estou ali, sozinho, diante de toda a orquestra. A maneira como respiro, olho ou deixo de olhar, me movo ou escolho não me mover, se estou um pouco irritado, insatisfeito ou excessivamente feliz… tudo isso influencia o som.
FB: Como é sua relação com a música fora do trabalho? Você consegue simplesmente ouvir música para relaxar?
TF: Procuro não pensar na música em termos profissionais. Penso musicalmente. Respiro musicalmente. Ser profissional significa estar totalmente comprometido. As pessoas não imaginam quantas horas um regente passa sozinho estudando partituras. É preciso conhecer a história, o contexto, o estilo, entender como aquela música era interpretada na época…

FB: O que você espera que o público sinta ao assistir a um concerto?
TF: Espero que viva uma suspensão. Ela dura pouco. Quando o concerto termina, todos voltam à realidade. Mas essa realidade já não é a mesma, porque a experiência artística muda a maneira como percebemos o mundo. Esse é um dos grandes objetivos da arte. É como terminar um livro que nos marcou profundamente. Você fecha a última página e, de repente, olha para a própria sala de estar de outro jeito. Está habitado por aquela história.
FB: Há comparações possíveis entre a regência e a liderança nas empresas?
TF: Sem dúvida. Se o presidente de um conselho entra na sala dizendo apenas “bom dia” e começa imediatamente a reunião, cria um ambiente. Mas, se entra tranquilo, observa as pessoas, faz uma pausa antes de falar e cria expectativa, o clima já é diferente. Liderar é direcionar a atenção para aquilo que realmente importa. O essencial é criar possibilidades.
FB: Existe uma identidade sonora que você gostaria de construir na Osesp?
TF: Sim, a identidade sonora a que quero chegar, e fizemos muitos progressos, é sermos capazes de identificar imediatamente o estilo de música que estamos tocando. Se interpretamos Haydn, Bach ou Mozart, a velocidade do vibrato e a maneira de respirar nas madeiras e nos metais não podem ser as mesmas de quando tocamos Rachmaninoff, Stravinsky, Bartók, Guarnieri, Villa-Lobos ou contemporâneos como Pierre Boulez. Cada compositor tem seu jeito de ampliar nossos limites, nós estando atentos aos conceitos históricos. Então vamos ser uma orquestra com essa agilidade. Faço uma comparação com o futebol. O melhor jogador é aquele capaz de atuar em diferentes posições, adaptar-se ao jogo e fazer o que a equipe precisa em cada momento.

FB: O que o fez aceitar o convite da Osesp? E por que decidiu renovar seu contrato?
TF: A Osesp é uma organização única. Tem uma equipe experiente, uma academia de formação, coro profissional, uma estrutura sólida e, ao mesmo tempo, paira nela um espírito sul-americano. Como europeu, sabia que aprenderia muito aqui. Ao mesmo tempo, senti que poderia contribuir com ideias que ajudassem a buscar um nível cada vez maior de excelência. Assumi o cargo em 2020. A pandemia tornou aquele início particular, então agora estamos vivendo nossa quarta temporada completa. Percebi que havia espaço para pensar novas formas de construir essa excelência. Gosto da complexidade. As grandes possibilidades só aparecem quando temos coragem de imaginar grandes projetos. Na abertura desta temporada, por exemplo, apresentamos Gruppen, de Karlheinz Stockhausen, uma obra escrita para três orquestras e três regentes, e montamos três palcos dentro da Sala São Paulo. A preparação começou seis meses antes, envolvendo as equipes de produção e técnica, de modo que todo o edifício vivia essa fraternidade para fazer o projeto acontecer. Esta é a responsabilidade de um diretor musical: não apenas fazer a si mesmo feliz e orgulhoso, mas fazer com que toda a organização respire possibilidades todos os dias.
FB: Como você enxerga o futuro das orquestras?
TF: Vivemos em uma sociedade marcada pelas redes sociais, pela busca de resultados imediatos e por conteúdos cada vez mais curtos. Nós, artistas, temos uma grande responsabilidade: fazer com que as pessoas compreendam – e desejem – a música ao vivo. Você pode ter em casa a tecnologia mais sofisticada, os melhores fones de ouvido, ouvir música sozinho, completamente imerso na própria experiência. Isso também tem valor. Mas esse não é o futuro da música. O futuro está na experiência ao vivo: sentar-se em uma sala de concertos ao lado de centenas de pessoas que você não conhece, compartilhar o silêncio e viver, juntos, o risco inerente à criação artística. O coração da música continua no palco, compartilhado entre artistas e público.
*Reportagem publicada na edição 143 da Forbes Brasil, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store.