Quando as luzes se acenderam na Sala Grande do Festival de Veneza, John Malkovich parecia não saber muito bem o que fazer com o que acontecia à sua volta. O público estava de pé, os aplausos não diminuíam e, conforme os minutos passavam, o ator de 72 anos deixou escapar a emoção. Em determinado momento, levou as mãos ao rosto e tentou conter as lágrimas. Sam Rockwell, ao seu lado, abraçou o ator e levantou um de seus braços, celebrando a performance.
Foram quase 14 minutos de ovação. Mais do que uma dessas longas celebrações que fazem parte do ritual veneziano, a reação dava a dimensão do que acabara de acontecer dentro da sala: Wild Horse Nine, novo filme de Martin McDonagh, havia encontrado seu grande protagonista e, possivelmente, colocado John Malkovich de volta na corrida pelo Oscar.
Não demorou para que essa impressão atravessasse as portas do cinema. A imprensa especializada começou a apontar Malkovich como um dos primeiros nomes fortes da temporada de melhor ator. Não é difícil entender por quê.
Em Wild Horse Nine, McDonagh volta a um terreno que conhece bem: homens moralmente comprometidos, uma amizade atravessada pela violência e diálogos capazes de saltar do riso absurdo para a melancolia em poucos segundos. Desta vez, porém, troca a Irlanda de Os Banshees de Inisherin pelo Chile de 1973.
Malkovich interpreta um veterano da CIA que participou de algumas das operações mais sombrias da política externa americana e está no país nos meses que antecedem o golpe que derrubaria Salvador Allende. Envelhecido, com a saúde deteriorada e cada vez menos cuidadoso com os segredos que acumulou ao longo da carreira, ele começa a fazer algo especialmente perigoso para alguém com seu currículo: falar.

Chris relembra operações secretas, grava suas memórias e deixa escapar informações que jamais deveriam sair dos corredores da agência. Ao lado de Lee, personagem de Sam Rockwell, parte então para a Ilha de Páscoa, viagem cujas verdadeiras motivações vão se revelando aos poucos.
É nessa fronteira entre o homem que participou de uma longa história de violência e aquele que, diante da própria mortalidade, começa a olhar para o que fez da vida que Malkovich constrói o personagem.
Com um equilíbrio que só alguém que acumula anos de atuação nas costas ele constrói um personagem em que doçura, instabilidade e veneno convivem sem que uma característica anule a outra. O filme explora nuances de culpa, amizade masculina, violência, redenção e a possibilidade, ou não, de um homem escapar daquilo que fez.

Três décadas longe do Oscar
John Malkovich foi indicado ao Oscar duas vezes: por Um Lugar no Coração, em 1985, e por Na Linha de Fogo, em 1994. Nunca venceu. Sua última indicação aconteceu há mais de três décadas.
Wild Horse Nine é o filme capaz de encerrar esse longo intervalo. Depois das primeiras exibições, a crítica especializada já aponta a possibilidade de uma terceira indicação.
O próprio ator prefere não alimentar a campanha. Questionado em Veneza sobre a repercussão em torno de uma possível vaga na preiação, desviou a atenção para o filme. Disse considerar o reconhecimento algo positivo, mas ressaltou que o mais importante é que o longa receba atenção e que o trabalho do elenco, do roteiro e da direção seja reconhecido.

É cedo para saber até onde Wild Horse Nine chegará. A temporada ainda atravessará outros festivais e os principais lançamentos do outono americano antes de a disputa pelo Oscar assumir uma forma mais definitiva. Mas Veneza costuma ser um dos lugares onde essas narrativas começam.
E, dentro da Sala Grande, uma delas pareceu nascer diante do público. Depois de mais de três décadas longe da lista de indicados, talvez tenha encontrado o personagem capaz de levá-lo de volta até lá.