Levou 18 anos. Mas, depois de extensas obras, restauros minuciosos e descobertas arqueológicas pelo caminho, o Four Seasons Cartagena abriu as portas em abril deste ano – para o passado. Não se preocupe: o serviço é moderno, as instalações são de primeira e o conforto segue como uma das prioridades. O grande diferencial do terceiro hotel da marca na Colômbia é justamente a capacidade de transportar o hóspede para outras épocas. Uma espécie de portal do tempo.
Isso porque ele agrega cinco séculos de Cartagena em seis prédios históricos, costurados em um só complexo, localizado no bairro mais efervescente da cidade, o Getsemaní. Cada ala dos 32 mil metros quadrados do hotel guarda um detalhe fascinante. Pisar ali, na prática, significa transitar por diferentes eras de uma cidade que já foi o porto mais importante do império espanhol no Caribe e hoje é um caldeirão de culturas e influências – espanholas, caribenhas, africanas e indígenas.
Se na década de 1920 o Club Cartagena era o símbolo máximo da alta sociedade local – onde cavalheiros se reuniam para dividir charutos em noites de negócios ou debutantes eram apresentadas oficialmente como adultas à elite -, hoje sua fachada neoclássica, inspirada na Ópera Garnier, em Paris, e as monumentais escadarias funcionam como cartão de visita aos hóspedes, logo no lobby.

Ao lado, um monastério franciscano do século 16 (que, ao longo do tempo, serviu de hospital, prisão, universidade e até fábrica de sombreros) virou a ala mais sossegada do hotel, com quartos coloniais e um belo jardim. Outras estruturas que foram transformadas: a antiga igreja virou uma pizzaria napolitana; a cisterna, um charmoso speakeasy; e o Teatro Colón renasceu como salão de baile para grandes eventos.
No processo de construção, algumas surpresas pelo caminho. Durante as obras, a equipe descobriu uma cripta sob a área do antigo claustro contendo cerca de mil esqueletos datados do ano 1600. O achado arqueológico foi tão grandioso que paralisou os trabalhos por 13 meses para estudos. A poucos metros dali, o antigo teatro guardava o próprio segredo: afrescos originais do século 16 com passagens bíblicas, os quais passaram as últimas décadas completamente esquecidos atrás de uma velha tela de cinema. Essas descobertas – como uma antiga pia de água benta ou a horta onde os frades costumavam plantar suas frutas e verduras (hoje um pátio de leitura) – ficam à vista pelos corredores, como bons e pequenos lembretes de que esse hotel não poderia existir em nenhum lugar do mundo senão ali.

Erguer tudo isso, no entanto, exigiu uma dose monumental de paciência e recursos. O principal responsável pela empreitada é a família Santo Domingo (hoje o maior grupo patrimonial da Colômbia, com negócios em aviação, meios de comunicação, transportes e vinícola). Naturais de Barranquilla, o clã bilionário tem um amor extra por Cartagena. “Aqui sempre foi o ‘lugar feliz’ deles”, conta uma das funcionárias do hotel. “Então, virou um projeto de amor, um presente para a cidade.”
Um quintal de Gabriel García Márquez
Se o projeto nasceu de uma relação afetiva com Cartagena, o hotel foi pensado para fazer parte da vida da cidade. Deixando o calor implacável e o burburinho de Getsemaní do lado de fora, o antigo átrio do Club Cartagena – com teto de vidro altíssimo e piso de mármore preto e branco – continua sendo um dos centros da cena social da cidade.
O lobby tem vida própria e agitada. Moradores e hóspedes se reúnem por ali para tomar um ótimo café colombiano ou apreciar um almoço leve no Café Rialto; e para um chá com petits fours nas poltronas no fim da tarde ou drinks pré-jantar no intimista Bar Lelarge, com clima tropical dos anos 1950.

A energia muda totalmente na ala do monastério. No jardim calmo e contemplativo, a estrela é o conjunto de quatro figueiras-bengalas centenárias, enormes, com raízes grossas que saem da terra e se assemelham a troncos pendurados no ar. Parece um quintal dos livros de Gabriel García Márquez, o lar de um Buendía (família de Cem anos de solidão), uma locação perfeita para uma ascensão aos céus para jamais retornar, como é normal no realismo mágico do escritor.

Dos 131 quartos do hotel, 27 ficam nas galerias em frente às árvores. São os antigos alojamentos dos franciscanos, de estilo colonial e sóbrio, transformados em suítes com muita madeira maciça e janelas arqueadas. Quem quiser uma experiência mais moderna pode escolher as acomodações nos prédios baixos ao lado, com estética clean.
O design de interiores ficou a cargo do lendário François Catroux (1936-2020), em um de seus últimos projetos de vida (e rara incursão na hotelaria). A visão purista do francês apostou na simetria e na paleta neutra de branco, preto e bege, deixando o protagonismo para o verde do exuberante paisagismo interno, só com espécies caribenhas.
Calor, margaritas e boa mesa
Quando a temperatura não dá trégua, todos os caminhos levam ao rooftop. Lá, duas piscinas oferecem vista panorâmica privilegiada para Cartagena e suas muralhas históricas. É o lugar para alternar entre um mergulho, um drink (uma margarita ou paloma, por favor!) e o pôr do sol, que costuma tingir o céu de rosa e lilás. Guarde tempo para esse desfrute.

Nos outros horários não faltam opções. Você pode desacelerar em uma das seis salas de tratamento do spa com botânicos colombianos e tradições ancestrais. Ou gabaritar todos os oito bares e restaurantes do Four Seasons. Na gastronomia, o hotel assumiu de vez a vocação cosmopolita de Cartagena. Entre os destaques, o The Grand Grill, desenvolvido com o Major Food Group (de Nova York, dono de marcas badaladas, como o Carbone), ocupa salões suntuosos para servir clássicos de uma steakhouse americana com uma seleção de cortes premium – o porterhouse chega macio, no ponto perfeito.
Já a Pizzeria Della Chiesa, instalada sob as abóbadas da antiga igreja, leva a tradição a sério com um menu de pizzas napolitanas muito bem-feitas e assadas a lenha. A coquetelaria ganha ares charmosos no El Aljibe, o primeiro speakeasy cartagenense, dentro da cisterna do século 16, focado em destilados locais e criações autorais.
E, ainda que o Four Seasons ofereça motivos suficientes para passar o dia entre piscinas, boa mesa e jardins, a localização convida a sair. Getsemaní concentra uma das faces mais vivas da cidade, entre restaurantes, galerias, lojas, praças e vielas cobertas de arte urbana – descubra em um dos tours organizados pelo hotel pelos grafites do bairro. Para uma dolce vita tropical, pegue uma lancha rumo às Ilhas do Rosário, com mergulhos e piqueniques regados a champanhe nas águas do Caribe.
Sem se esquecer, claro, de caminhar pelas fortificações da Cidade Amuralhada, o símbolo máximo de Cartagena, a passos de distância do hotel. Ali, em uma olhada mais demorada, talvez se façam entender as palavras de Gabo: “Bastou-me dar um passo para dentro da muralha para vê-la em toda a sua grandeza, sob a luz lilás das 6 da tarde, e não consegui conter a sensação de ter nascido de novo”.

*Reportagem publicada na edição 145 da Forbes Brasil, disponível nos aplicativos na App Store e na Play Store.