Na noite da última sexta-feira (25), São Paulo tornou-se um pedaço do Saara. No palco do Sesc Pompeia, homens vestidos com túnicas azuladas e turbantes fizeram guitarras elétricas repetirem riffs hipnóticos enquanto uma plateia lotada dançava ao som de palavras que, em sua maioria, não conseguia compreender. O Tinariwen canta em tamasheq, língua dos tuaregues, mas bastaram poucos minutos para perceber que tradução não seria exatamente um problema.
“A música também é uma língua”, disse Abdallah Ag Alhousseyni, um dos vocalistas da banda à Forbes Brasil, pouco antes da apresentação. “Ela faz com que as pessoas se conectem através de sentimentos e sensações. Mesmo não entendendo a língua, a fruição da música provoca conexão.”
É uma boa chave para compreender como uma banda nascida há quase cinco décadas entre comunidades tuaregues deslocadas pelo Saara conseguiu chegar aos grandes festivais do mundo, conquistar um Grammy e transformar duas apresentações em São Paulo em shows disputados com ingressos que esgotaram em minutos. Dez anos depois de sua última passagem pelo Brasil, o Tinariwen retornou ao país para uma série de apresentações que passou também por Olinda, Rio de Janeiro e Franca.
A história começa com Ibrahim Ag Alhabib. Filho de um rebelde tuaregue, ele tinha quatro anos quando seu pai foi morto durante a revolta de 1963 no Mali. Cresceu entre o deserto e campos de refugiados na Argélia e, depois de assistir em um cinema improvisado a um cowboy tocando guitarra em um faroeste, construiu seu próprio instrumento com uma lata de óleo, um pedaço de madeira e um fio de freio de bicicleta.
Em 1979, no oásis de Tamanrasset, no sul da Argélia, encontrou outros jovens tuaregues que, como ele, haviam deixado suas casas em consequência de secas, conflitos e pobreza. Começaram tocando em casamentos e festas das comunidades exiladas. As músicas falavam de saudade, deslocamento e da terra que haviam deixado para trás. O grupo nem sequer tinha nome: passou a ser chamado de Kel Tinariwen, expressão em tamasheq que pode ser traduzida como “povo dos desertos”.

A política nunca esteve distante dessa história. Nos anos 1980, integrantes passaram por treinamento militar na Líbia e conviveram com movimentos ligados à luta tuaregue por educação, autonomia e liberdade política. Suas músicas começaram a circular pelo Saara em fitas cassete copiadas inúmeras vezes e distribuídas entre acampamentos e comunidades. Antes de chegar às gravadoras, aos palcos europeus ou ao Grammy, o Tinariwen já era uma espécie de trilha sonora de um povo espalhado por territórios cortados pelas fronteiras modernas.
“A música foi construída no sentido de ajudar as pessoas a melhorar o ânimo, trazer alegria e, sobretudo, preservar a memória”, explicou o vocalista. Ela também, segundo ele, estimula os jovens a estudar, conhecer outros lugares e se conectar com outras culturas.”
O deserto, nesse universo, não funciona apenas como cenário. É matéria-prima. “O músico, quando vai criar, está influenciado pela vida cotidiana, pelo lugar onde está”, diz. “Se uma pessoa cria aqui em São Paulo, a forma como ela experiencia esse ambiente vai aparecer na música. A mesma coisa acontece com uma pessoa que nasceu e vive no deserto.”
Ao longo das décadas, essa identidade encontrou novos sons sem perder o ponto de partida. Segundo o músico, a banda nunca buscou simplesmente incorporar influências externas, mas passou a pesquisar elementos capazes de estabelecer pontes com ouvintes de outras culturas, sobretudo aqueles que não compreendem tamasheq. A estratégia funcionou. O Tinariwen chegou a Glastonbury, colaborou com nomes como Herbie Hancock e, com “Tassili”, venceu o Grammy de melhor álbum de world music em 2012.

Agora, o grupo volta às origens com “Hoggar”, seu décimo álbum, gravado em Tamanrasset e construído em diálogo com uma nova geração de músicos tuaregues. Mais de 45 anos depois, no entanto, a ideia que sustenta sua música parece continuar a mesma.
Quando perguntado se o sentimento ao criar mudou com o tempo, o vocalista demorou a responder e só então abriu um sorriso. Disse que era uma questão filosófica. Depois chegou a uma palavra: esperança.
“O músico tem uma coisa básica no coração, que é a esperança. É ela que faz com que a música permaneça genuína durante todo o tempo.” Para ele, é também o que permite continuar criando, dialogando com a contemporaneidade e chegando a novas pessoas. “O músico vai sempre acordar no dia seguinte e falar: ‘Tem esperança. Ainda tem coisa para fazer’.”
Na sexta-feira, diante de uma plateia paulistana que provavelmente não entendia a maior parte das palavras cantadas, a teoria ganhou sua melhor demonstração prática. Por algumas horas, entre guitarras, palmas e corpos em movimento, não pareceu haver tanta distância entre o Sesc Pompeia e o Saara.