A Embraer, a Saab e a Força Aérea Brasileira apresentaram na última quarta-feira (25), em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, o primeiro caça supersônico produzido no Brasil: o F-39E Gripen. A aeronave integra o contrato firmado em 2014 com o governo brasileiro, que prevê o desenvolvimento e a produção de 36 caças Gripen — 28 Gripen E monoposto e 8 Gripen F biposto.
O avião foi montado na planta da Embraer em Gavião Peixoto, estrutura que concentra a linha de produção do Gripen E no país e também abriga o Centro de Ensaios em Voo do Gripen e o Centro de Projetos e Desenvolvimento do Gripen. Segundo as empresas envolvidas, esse marco coloca o Brasil em um grupo de nações com capacidade de desenvolver e produzir aeronaves de combate de alta complexidade, em um feito inédito na América Latina.
Antes da entrega final à Força Aérea Brasileira, a aeronave ainda passará por testes funcionais e voos de ensaio. Depois dessa etapa, o caça se juntará às outras dez unidades já entregues ao Primeiro Grupo de Defesa Aérea, o 1º GDA, na Base Aérea de Anápolis, em Goiás. Desde fevereiro deste ano, o Gripen já está a serviço do Alerta de Defesa Aérea para garantir a proteção do espaço aéreo sobre o Distrito Federal.
“A apresentação do primeiro Gripen produzido no Brasil representa mais um marco relevante na colaboração estratégica entre Brasil e Suécia. Temos plena confiança de que essa parceria gera valor para ambos os países e possui grande potencial para abrir novas oportunidades de negócios”, afirma Bosco da Costa Junior, CEO da Embraer Defesa & Segurança.
O Gripen foi projetado para atuar em missões de defesa aérea, reconhecimento e ataque, reunindo aviônicos modernos, sensores, armamentos e sistemas de missão voltados a operar em ambientes complexos. Sua arquitetura centrada em rede e a capacidade de fusão de sensores permitem o compartilhamento de informações em toda a formação tática, ampliando a consciência situacional e apoiando decisões coordenadas diante de ameaças.
Na prática, trata-se de uma aeronave de 15,2 metros de comprimento e 8,6 metros de largura, com peso máximo de decolagem de 16.500 quilos. O caça pode atingir velocidades de até 2,4 mil km/h, o equivalente a cerca de duas vezes a velocidade do som, e tem autonomia de até duas horas e meia de voo. Em velocidade máxima, seu alcance é de 3.250 quilômetros, o que, segundo a fabricante, permitiria uma viagem entre São Paulo e Boa Vista em 1h35. A aeronave também conta com capacidade de reabastecimento em voo, ampliando ainda mais o alcance operacional.
O pacote tecnológico é um dos pontos centrais do programa. O Gripen E incorpora guerra eletrônica avançada com cobertura esférica e tecnologia AESA para alta sobrevivência em combate. A cabine foi desenhada para facilitar a tomada de decisão do piloto em missões complexas. Um dos destaques é o Wide Area Display, que organiza as informações de forma intuitiva e auxilia na seleção, lançamento e guiagem de armamentos em coordenação com outros integrantes de uma unidade aérea tática. O modelo também incorpora capacidade embarcada de inteligência artificial.
Outro diferencial apontado pelas fabricantes é a prontidão operacional. O Gripen E foi projetado para facilitar a manutenção e garantir alta disponibilidade. Pode operar em climas extremos e também a partir de bases dispersas, estradas ou pistas não preparadas. Segundo as especificações do programa, o tempo de reabastecimento e rearmamento para uma missão ar-ar varia de 15 a 25 minutos, com número limitado de equipes de solo e equipamentos. A proposta é reduzir tempo no solo e manter a aeronave mais tempo em operação.
Entre os sistemas de armamento citados está o míssil WVR IRIS-T, descrito como o mais avançado de sua categoria em alcance visual, especialmente em engajamentos fora da linha de visada da aeronave. Seu emprego é complementado pelo uso do HMD, que permite ao piloto fazer a mira contra o alvo.
A produção local do Gripen é resultado de um amplo processo de transferência de tecnologia. Segundo a Saab, mais de 350 profissionais brasileiros — entre técnicos, engenheiros e pilotos — foram treinados para que o Brasil esteja apto a desenvolver, produzir e manter caças supersônicos no país ao longo de toda a vida útil das aeronaves, estimada entre 30 e 40 anos. Empresas como Embraer, Akaer, Atech, AEL Sistemas e subsidiárias da Saab no Brasil participaram do processo.
A Saab também investiu em uma planta própria em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, inaugurada em 2018, responsável pela produção de cones de cauda, freios aerodinâmicos e fuselagens traseira e dianteira do Gripen E. A unidade ainda conta com um laboratório especializado na manutenção do radar AESA e de sensores de guerra eletrônica.
A linha de produção do Gripen no Brasil foi inaugurada em 9 de maio de 2023, em Gavião Peixoto, de onde serão produzidas 15 aeronaves. A planta industrial da Embraer utiliza uma cadeia de suprimentos brasileira e internacional, incluindo aerostruturas fabricadas na unidade da Saab em São Bernardo do Campo. Outros 14 caças previstos no contrato atual com a FAB seguirão esse mesmo modelo de produção.
“A Saab permanece totalmente comprometida em ampliar e aprofundar sua presença no Brasil, fortalecendo o país industrial e tecnologicamente, além de consolidá-lo como um polo exportador para o mundo”, afirma Micael Johansson, CEO da Saab.
O primeiro Gripen E brasileiro chegou ao país em 2020 e, desde então, vem executando ensaios em voo na Embraer, em Gavião Peixoto. As primeiras aeronaves operacionais desembarcaram no Brasil em abril de 2022. Em novembro do mesmo ano, começaram as operações do Gripen no 1º Grupo de Defesa Aérea, em Anápolis.