A fabricante britânica de supercarros McLaren Automotive anunciou nesta semana um programa de investimentos de £ 500 milhões (US$ 668 milhões) para ampliar a produção no Reino Unido e acelerar o desenvolvimento de novos carros.
Isso levará a uma nova geração de veículos McLaren — e essa nova família incluirá mais do que apenas os modelos de motor central e dois lugares que definiram a marca até agora.
O dinheiro será investido em novas instalações de produção tanto para novos veículos quanto para seus motores — que serão fabricados internamente pela primeira vez, em vez de fornecidos pela também britânica Ricardo.
A McLaren Automotive afirma que as novas instalações criarão 1.000 novos empregos até 2032. O investimento faz parte de um compromisso maior do acionista L’IMAD, um investidor soberano do governo de Abu Dhabi. O dinheiro será destinado a dois novos conjuntos motrizes híbridos — incluindo motores e suas respectivas transmissões —, além de ampliar a produção de fibra de carbono e as instalações de pesquisa da McLaren em Sheffield, no norte da Inglaterra.
Essa é, inegavelmente, uma boa notícia e, embora os puristas possam se sentir desconfortáveis com a ideia de um SUV da McLaren, não há como escapar do poder transformador que um SUV com fortes vendas pode ter sobre o balanço financeiro de uma empresa de carros esportivos ou supercarros.
O Porsche Cayenne causou choque quando chegou, há mais de duas décadas, aparentemente colando a frente de um 911 em um desajeitado veículo fora de estrada. Mas foi um enorme sucesso e é justamente elogiado por transformar a situação financeira da empresa, ao mesmo tempo em que gerou o dinheiro necessário para que a divisão GT da Porsche produzisse alguns dos maiores carros esportivos de todos os tempos.
A Lamborghini vende mais unidades de seu SUV Urus do que de qualquer supercarro, enquanto o Bentayga, relacionado a ele, ajudou o balanço da Bentley de maneira semelhante. A Ferrari tem o Purosangue, a Aston Martin tem o DBX, mostrado abaixo, e a Lotus tem o Eletre. Embora não seja uma empresa de carros esportivos, a Rolls-Royce também teve sucesso ao aumentar de tamanho, com o Cullinan. Na verdade, é até uma surpresa que a McLaren tenha demorado tanto para entrar nessa.
A empresa afirma que seu “SUV de alto desempenho” chegará antes de 2030 e, curiosamente, ele poderá ter uma célula estrutural de carbono, como a usada nos supercarros da McLaren. Em entrevista à Autocar nesta semana, o diretor de operações Michael Straughan afirmou: “É uma das discussões que estamos tendo no momento, porque ninguém jamais fez isso antes. Todos os outros SUVs foram de alumínio, e temos várias opções neste momento para definir qual será a estrutura da carroceria no futuro.”
Ele acrescentou: “Se seguirmos por esse caminho, seria o primeiro. Seria incrivelmente especial.”
Embora as células estruturais de carbono façam muito sentido em supercarros — acrescentando leveza e rigidez exatamente onde elas são necessárias e sendo um elemento fundamental para diferenciar os McLaren de seus principais rivais —, os benefícios são, por enquanto, menos óbvios quando aplicados a um SUV. Se a McLaren realmente optar pelo caminho do carbono, será fascinante ver como utilizará isso para se diferenciar dos concorrentes.
E a próxima geração da McLaren não ficará limitada a um SUV. Essa plataforma de motor dianteiro será modificada para outros modelos, potencialmente incluindo um grand tourer — outra respeitada categoria de carros de luxo que a McLaren evitou até agora.
Embora um SUV seja a fonte de receita mais óbvia, um grand tourer poderia colocar a McLaren contra Bentley Continental GT, Aston Martin DB12 e Ferrari Amalfi. Aumente o nível de desempenho da mesma plataforma, e um segundo grand tourer da McLaren poderia enfrentar Ferrari 12Cilindri e Aston Martin Vanquish. Ou, reduza a distância entre-eixos e a McLaren passa a ter um rival para o Aston Martin Vantage.
Seguindo em uma direção diferente, a McLaren poderia manter a distância entre-eixos de seu SUV, mas baixar a linha do teto e oferecer um rival para Porsche Panamera e Bentley Flying Spur.
Tudo isso é, claro, mais fácil de falar do que fazer, mas demonstra o que poderia ser possível para uma McLaren com mais recursos financeiros. Em vez de ficar presa apresentando pequenas reestilizações de sua principal linha de supercarros como novos modelos, a empresa poderia enfrentar os maiores nomes da indústria em várias frentes.
Fundamentalmente, uma garagem com vários McLaren poderia se tornar a norma entre clientes ricos — deixando de ser uma prática de nicho entre fanáticos pela marca; um supercarro de dois lugares para os fins de semana, acompanhado por um SUV para levar as crianças à escola e um grand tourer para viagens de estrada. Compre os três e talvez você se coloque em uma posição mais favorável para o próximo hipercarro — ou para uma edição especial de produção limitada, como o novo McL 6GT, com câmbio manual — alguns anos mais adiante.
Nada disso acontecerá da noite para o dia, mas é um grande passo na direção certa para uma marca que merece seu lugar ao lado dos maiores nomes do setor automotivo de luxo — e que deveria ser muito mais do que “apenas” uma fabricante de supercarros.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com