A fracassada contratação do ex-jogador Andrea Pirlo para comandar a seleção italiana de futebol aprofunda a necessidade de reflexão sobre os novos rumos do esporte profissional. Já não bastam competência e resultados para ocupar cargos relevantes e de grande visibilidade. Credibilidade e impacto passaram a ser fundamentais.
Pirlo, um dos maiores jogadores do futebol italiano de todos os tempos, tem os predicados técnicos para comandar uma renovação da Squadra Azzurra. A Itália não participa da Copa do Mundo desde o torneio de 2014, no Brasil. Outro referente do calcio, Paolo Maldini, assumiu a tarefa de comandar o processo como executivo. Ele foi buscar o brasileiro Leonardo, campeão do mundo em 1994 e com grande carreira no futebol italiano, para ser seu braço-direito. Pirlo completaria esse triunvirato composto por ex-atletas de excelência. Mas, no meio do caminho, havia uma bet.
Imprensa e opinião pública da Itália torceram o nariz para o fato de Pirlo ser embaixador da empresa de apostas russa Fontbet. Assim que o nome de Pirlo foi apresentado como potencial candidato ao cargo de treinador da Itália, imagens de sua presença em um evento da Fontbet, em Moscou, ressurgiram e viralizaram. A repercussão negativa se espalhou.
Além da polêmica em relação às casas de apostas, o fato de Pirlo participar de um evento público na Rússia, em meio à guerra do país de Vladimir Putin com a Ucrânia, gerou duras críticas de parlamentares italianos e europeus. Uma das principais vozes contrárias ao acordo de Pirlo com a Federazione Italiana Giuoco Calcio foi a da vice-presidente do Parlamento Europeu, Pina Picierno. Segundo ela, o vínculo de Pirlo com a casa de apostas russa enviaria uma mensagem errada no momento em que a Europa aplica sanções contra empresas da Rússia por causa da invasão da Ucrânia.
Pirlo se defendeu emitindo um longo comunicado. “Lamento que uma decisão de caráter esportivo tenha sido rapidamente transformada em um debate público que acabou atribuindo à minha pessoa significados e intenções que não me pertencem. Meu amor pela Itália não depende de um cargo. Ele faz parte da minha história, da minha identidade e continuará a me acompanhar, para sempre”, escreveu em um trecho.
A decisão da Federação Italiana pode provocar o pedido de demissão de Maldini. O diretor esportivo ficou decepcionado com o recuo dos dirigentes, porque entendia ter recebido carta branca para contratar o novo treinador da Azzurra.
Fato é que o esporte deixou de ser uma bolha em que atos e atitudes não repercutiam fora de seu ambiente. Pelo impacto econômico e social gerado por um esporte da magnitude do futebol, toda contratação provoca um movimento imediato de vasculhar o passado dos envolvidos.
A péssima imagem deixada por alguns jogadores da Argentina após a derrota para a Espanha na final da Copa do Mundo gerou impacto negativo para o futebol argentino. A ida de Neymar a um jogo de pôquer no período em que o Santos se preparava e jogava pela Copa Sul-Americana provocou uma onda de críticas ao jogador.
O fator político e econômico também entra em campo e nas quadras. Basta recordar as críticas sofridas pelo tenista sérvio Novak Djokovic durante a pandemia. Ele organizou torneios, festas e se posicionou contra a vacinação, sendo, inclusive, vetado em algumas competições.
No caso de Pirlo, que, em campo, representou com garbo as cores da Itália, sua associação a uma casa de apostas de um país europeu que invadiu outro foi fator decisivo para que os dirigentes italianos recuassem. A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, é uma crítica ferrenha de Vladimir Putin e da invasão da Ucrânia.
Em 2023, após revelações escabrosas de seu envolvimento em um caso de estupro na Itália, o Santos Futebol Clube rompeu o contrato com o atacante Robinho. No mesmo ano, após apenas dois jogos, o treinador Cuca deixou o Corinthians em virtude da repercussão negativa de sua contratação junto às torcedoras e ao time de futebol feminino do clube. Cuca havia sido condenado por agressão sexual na Suíça, em 1989. A sentença foi anulada, e o caso foi extinto após prescrever.
Esses casos demonstram que grandes nomes do esporte precisam estar cientes do que representam como ídolos e formadores de opinião. Não precisam abandonar suas convicções, mas devem saber que qualquer passo ou posicionamento gera repercussão imediata.
O caso de Pirlo é ótimo para estudo de branding e gestão de imagem para pessoas públicas, concorde-se ou não com seu posicionamento. Estar associado a uma casa de apostas foi o menor dos problemas. Vários dos maiores nomes e clubes do futebol mundial são patrocinados por casas de apostas. A Copa do Mundo também é. O Campeonato Brasileiro de Futebol leva o nome de uma bet.
O que pegou para os dirigentes do futebol italiano foi o fato de Pirlo estar associado a uma casa de apostas de um país agressor de outro país europeu em um momento de grave tensão geopolítica no planeta. A partir do instante em que estivesse imbuído das funções de treinador de uma das maiores marcas do futebol mundial, ele seria automaticamente o representante da Itália e de sua cultura. O futebol italiano tem, no passado, a lembrança de ter sido campeão mundial em 1934 e 1938 fazendo propaganda para o fascismo de Benito Mussolini. A visão retrospectiva, em um mundo totalmente diferente, certamente pesou na decisão sobre Pirlo.