Vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais? O inesquecível comercial da Tostines, criação do grande Ênio Mainardi, serve de ponto de partida para um debate urgente sobre o esporte de alto rendimento. Os atletas jogam demais porque ganham muito, ou ganham muito porque jogam demais? Parece a mesma pergunta, mas não é.
O desabafo do tenista espanhol Carlos Alcaraz, durante o US Open, trouxe a discussão novamente à tona. Ao retornar de uma ausência de quatro meses por causa de lesão, Alcaraz disse que o calendário do tênis está muito apertado e que pretende, no futuro, fazer paradas de um ou dois meses durante o circuito.
Há dois caminhos para analisar o alerta de um dos maiores esportistas do mundo. Com uma fortuna de US$ 64 milhões somente em premiação, Alcaraz pode se dar ao luxo de alterar seu calendário e cuidar melhor do corpo e da mente. O duplista brasileiro Marcelo Demoliner não pode. Ele entrou em quadra no US Open com uma lesão no peitoral somente para garantir a premiação destinada a quem joga a primeira rodada. Ele só jogou porque uma regra de premiação da Federação Internacional de Tênis proíbe atletas que fiquem 21 dias sem entrar em quadra de receber a premiação, caso não joguem a primeira rodada do Grand Slam.
No caso do brasileiro, dividindo a premiação de US$ 35 mil com o parceiro taiwanês Ray Ho, ele teria direito a cerca de US$ 15 mil. Por isso jogou mais de duas horas à base de anti-inflamatórios, sendo eliminado.
Claro que a posição de Alcaraz não deve ser diminuída somente porque ele é um atleta milionário. O recado é justo. Não existe esporte sem atletas, e este recurso pode estar sendo exaurido.
Como fechar a conta? É a pergunta de quem paga a conta. Por exemplo, o alemão Karl-Heinz Rummenigge, craque do passado e atual dirigente do poderoso Bayern de Munique. Ao comentar os protestos de jogadores e treinadores de futebol sobre o excesso de jogos.
Rummenigge disse que toparia discutir o calendário se jogadores e seus agentes concordassem em reduzir seus salários e comissões. “Minha previsão é que, se as coisas continuarem assim, o futebol será a única indústria do mundo que não produz lucro, apenas prejuízos. Estamos indo em direção à parede, e ninguém quer tirar o pé do acelerador.”.
É a lógica de Tostines.
Para pagar mais prêmios e salários, clubes e atletas precisam jogar mais, para públicos maiores, que pagam preços mais altos para vê-los ao vivo e pelas telas. O US Open pagará um total de US$ 108 milhões em premiação neste ano. A Copa do Mundo distribuiu US$ 871 milhões entre as 48 seleções participantes da edição de 2026.
A concentração da riqueza gerada em torno dos grandes clubes e atletas gera uma enorme discrepância. Para pagar os salários e prêmios das grandes estrelas, o esporte gera uma distância astronômica daqueles que formam a base da pirâmide. É o caso do duplista brasileiro Demoliner. No caso da modalidade escolhida por ele, a diferença fica evidente. Um perdedor da primeira rodada de simples do US Open ganha US$ 32 mil. Os perdedores nas duplas dividem US$ 35 mil.
A mesma lógica se aplica a praticamente todos os esportes que geram grande interesse. Os custos de direitos de transmissão contribuem para que a planilha fique cada vez mais pesada. A rede americana de TV NBC pagou US$ 7,75 bilhões por dez anos de contrato para transmitir os Jogos Olímpicos. O retorno desse investimento envolve mais transmissões, mais jogos, mais intervalos comerciais.
Não existe almoço grátis, prega uma máxima do mundo dos negócios.
Mas para que a comida não esfrie no prato ou que não falte, é preciso pensar seriamente no tema.
Esporte de alto rendimento não se faz somente entrando em campo, em quadra ou nas pistas.
É preciso planejamento, treinamento, descanso, alimentação adequada. Atletas são seres humanos que também precisam de férias, curtir a vida, ter uma família. Não são máquinas a serviço de uma indústria.
O biscoito vende mais quando está fresquinho, mas, se não estiver fresquinho, não venderá mais.