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A Gigantesca Torcida sem Time Que Segue Inexplorada Economicamente Pelo Futebol

22% dos brasileiros declaram não ter time de futebol. Mesmo percentual da torcida do Flamengo.

5 min

Há dois recados muito claros que saltam dos dados da pesquisa sobre as maiores torcidas de futebol do Brasil revelados pelo DataFolha. Para quem vê o copo meio cheio, quase 70% dos brasileiros se interessam por futebol. Para os que preferem a visão do copo meio vazio, 22% não dão a mínima para o esporte mais popular do Brasil.

Uma conta de guardanapo evidencia a falta de visão do futebol brasileiro como produto. Há cerca de R$ 1,5 bilhão de reais em faturamento potencial voando pelos quatro cantos do País e os clubes não conseguem convencer uma massa de quase 47 milhões de brasileiros a consumir um produto comprovadamente de sucesso no País.

Essa dinheirama vaga pelo Brasil, esperando para ser gasta, por pura falta de competência dos clubes de futebol e seus departamentos de marketing e comercial. Um dado desse recorte amplia a percepção do fracasso na busca por um mercado potencialmente lucrativo: dos 22% que declaram não ter time, 29% são mulheres.

O número de R$ 1,5 bilhão corresponde a uma média recente de faturamento do clube de futebol mais popular do Brasil, o Flamengo, cuja torcida corresponde a 22% dos brasileiros. Em 2025, o Flamengo teve faturamento de R$ 2,1 bilhão.

Enquanto se digladiam numa inútil guerra de narrativas em redes sociais, os principais clubes de futebol do Brasil não percebem a mensagem mais clara que ecoa das planilhas do Data Folha: o ponto de virada para que o autoproclamado País do Futebol tenha mais gente que não torce por futebol do que torcedores está ali na esquina.

A falta de visão de futuro dos clubes é preocupante. A maioria adora puxar dos dados da pesquisa para provocar rivais. Um exemplo é a disputa de gangorra entre Palmeiras e São Paulo. Ora um é a terceira maior torcida, ora a quarta. Mas nenhum deles, embora bastante populares, consegue se aproximar de Flamengo, com seus 22%, e Corinthians, com 14%. Somados, Palmeiras (7%) e São Paulo (6%) ficam atrás do Corinthians. O que fazem para prospectar novos entusiastas entre a massa de 22% sem time? Há planos de captação? Projetos específicos para conquistar mais torcedoras? Pouco ou nada se sabe e se divulga.

O próprio Flamengo não consegue explorar o potencial do que os flamenguistas chamam, orgulhosos, de Nação. O clube que, pelos dados da pesquisa, bate nos corações de 47 milhões de brasileiros, tem somente 118 mil sócios torcedores cadastrados. Ou seja: 0,26%, menos de 1% de um mercado potencial de simpatizantes. O Flamengo perde em número de sócios-torcedores para o Palmeiras (167,9 mil), o Atlético Mineiro (144,4 mil) e o Corinthians (118,5mil).

É neste dado que aparece uma leitura que os clubes de futebol brasileiro têm dificuldade em fazer: a diferença entre fã e torcedor. Quantos dos milhões de torcedores declarados na pesquisa são efetivamente fãs? Torcedor pode ser aquela pessoa que apenas responde a uma pergunta estimulada na pesquisa: para que time de futebol você torce? Fã é aquele torcedor ou torcedora que vive e consome o clube no seu dia-a-dia. É o fã que os clubes praticamente desprezam no Brasil.

Há vários exemplos desse desprezo. É consenso entre especialistas que o universo de torcedores que frequentam os estádios de futebol no Brasil é limitado. Certa vez, numa conversa que tive com Luís Paulo Rosemberg, que foi vice-presidente de Marketing do Corinthians, ele me disse que o número de torcedores que ia efetivamente aos jogos era de, no máximo 300 mil. Isso em se tratando de um clube que, pela pesquisa, tem cerca de 30 milhões de torcedores. Trata-se de 1%. Com a capacidade atual de seu estádio em torno de 48 mil pessoas, o Corinthians pode acolher 16% dessa massa que pode ser considerada um tipo de fã.

O que fazem os dois clubes mais populares do País, que são amplamente favorecidos em exposição de mídia dado esse apelo, para captar mais fãs? Mais que isso, o que fazem para explorar o universo de fãs que jamais poderá pisar no Maracanã ou na Neo Química Arena, mas gostaria de exercer sua paixão pelo clube de outra forma?

Bruno Maia, um dos maiores especialistas em marketing esportivo do Brasil, que foi vice de marketing do Vasco, tem uma visão realista do quadro. Ele afirma que nenhum time de futebol do Brasil tem 1 milhão de fãs. Maia fala com conhecimento de causa, pois trabalhou com um clube bastante popular, com mais de 6 milhões de torcedores espalhados pelo País. Qual seria, segundo Maia, a diferença entre torcedor e fã? O torcedor é aquele que assiste a um jogo de seu time pela TV, grita, comemora e segue a vida. O fã é aquele que talvez nem chore ou grite, mas consome o clube. Compra camisas oficiais, é sócio-torcedor, vai ao estádio e deixa receita nos cofres.

O erro maior da leitura de uma pesquisa que traz dados brutos, sem maior análise especializada, é não apurar os números. Calcular os milhões de torcedores que representam 22% pode servir para pedir mais dinheiro da TV ou do patrocinador da camisa, mas o quadro geral acaba sendo desperdiçado.

Quantos dos declarados 22% fazem parte da população economicamente ativa do Brasil? Destes, quantos têm acesso ao sistema bancário e podem fazer um cadastro como consumidores frequentes de produtos?

Em vez de fazer barulho festejando uma métrica que serve muito mais para discussões de mesas redondas esportivas e provocações de torcidas, os clubes deveriam colocar seus marqueteiros para trabalhar em outra frente. Há uma nação de mais de 40 milhões de pessoas que declaram não torcer por time de futebol. É tão difícil imaginar a possibilidade de se captar ao menos um milhão, um mísero mihãozinho de novos clientes dentro desse universo potencialmente lucrativo?

Gol da Alemanha!
Gol da Espanha!

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