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Messi, Cristiano Ronaldo e o Fim da Maior Rivalidade do Futebol

Como dois gigantes redefiniram a economia do esporte, dominaram o planeta por duas décadas e agora encaram o inevitável apito final

7 min

Por quase duas décadas, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo foram a maior máquina de negócios do futebol: dois atletas fora da curva, duas marcas concorrentes e uma discussão infinita sobre quem era o melhor.

A Copa do Mundo deste ano deveria ter sido o último palco dividido por eles. A ideia de que qualquer um dos dois pudesse aguentar mais um ciclo de quatro anos (Messi está com 39 e Ronaldo com 41) e jogar a Copa de 2030 parecia fora de cogitação. Que ambos conseguissem isso era algo quase impensável.

Em vez disso, o torneio deu dois recados bem diferentes de que nenhum dos dois estava exatamente pronto para largar os holofotes.

Messi acumulou oito gols e quatro assistências, mostrando mais uma vez que o seu gênio é incrivelmente imune à idade, enquanto a Argentina terminava com o vice-campeonato. Messi não falou com a imprensa após a partida, deixando o seu futuro na seleção totalmente no ar.

Ronaldo, por sua vez, parecia cada vez mais consciente de que o fim estava dobrando a esquina. Após a eliminação apagada de Portugal nas oitavas de final contra a Espanha, CR7 falou sobre o seu legado, batendo na tecla de que deu tudo de si pelo seu país. Na época, suas declarações soaram menos como uma volta olímpica e mais como uma DR consigo mesmo.

Getty ImagesLionel Messi, da Argentina, cumprimenta Cristiano Ronaldo, de Portugal

Isso mudou. Em entrevista recente à Vogue, Ronaldo disse que espera que seu contrato atual com o clube saudita Al-Nassr seja o último. “Este é provavelmente o meu último ano no futebol, e quero deixar um legado espetacular”, disse ele. A palavra-chave ali não foi “último”. Foi “legado”.

Pela primeira vez, Ronaldo soou como alguém que estava vislumbrando a vida além dos gramados, em vez de simplesmente lutar contra o inevitável. O momento não poderia ser mais emblemático, já que Messi também está encarando a própria mortalidade, tanto no lado pessoal quanto no profissional.

O contrato de Messi com o Inter Miami vai até 2028, mas a recente morte de seu pai, Jorge Messi, trouxe mais uma nuvem de incerteza sobre o seu futuro. Jorge esteve presente desde o primeiro dia, ajudando a fechar o teste do filho no Barcelona e gerenciando boa parte da carreira que veio a seguir. A homenagem de Messi deu a entender que o fim dessa jornada lado a lado está dolorosamente próximo. “Não sei como continuar”, escreveu Messi após a morte do pai, no dia 8 de agosto.

Esse momento é marcante porque Messi e Ronaldo passaram 18 anos servindo de espelho um para o outro. Desde o primeiro duelo na Liga dos Campeões em 2008, eles disputaram 36 partidas oficiais um contra o outro, dividindo quase 3.000 minutos em campo. Entre 2009 e 2018, a rivalidade da dupla transformou o El Clásico em um evento televisivo mundial e fez da La Liga uma votação semanal sobre quem era o maior de todos os tempos.

Por 10 anos seguidos, de 2008 a 2017, a Bola de Ouro foi propriedade exclusiva da dupla. No fim das contas, Messi faturou oito, enquanto Ronaldo levou cinco para casa.

AFPLionel Messi lidera o histórico da Bola de Ouro com oito prêmios, enquanto Cristiano Ronaldo possui cinco

É praticamente impossível separar os feitos estatísticos da dupla do seu valor comercial. Ronaldo já marcou quase 1.000 gols e é o recordista absoluto de jogos e gols por seleções. Messi bateu o recorde de 91 gols em um único ano civil e é quem mais venceu a Chuteira de Ouro europeia como maior artilheiro do continente.

A conquista da Copa do Mundo por Messi com a Argentina em 2022 derrubou o último grande argumento de quem contestava o seu posto como o maior jogador da sua geração – e, possivelmente, de todos os tempos. Some a isso dois títulos da Copa América e a discussão que sobrou deixou de ser “Messi contra Ronaldo” para se tornar “em qual prateleira da história do futebol o Messi se encaixa”.

Isso não desmerece Ronaldo em nada. Pelo contrário. Messi pode até ter sido o jogador mais genial por natureza, mas a carreira espetacular de Ronaldo foi construída, em parte, no embalo de competir com ele. CR7 conquistou a Inglaterra, a Espanha e a Itália, venceu a Eurocopa com Portugal em 2016 e se reinventou do zero várias vezes.

A rivalidade deles gerou tanto valor porque nenhum dos dois se contentava em ser apenas brilhante. Eles precisavam ser melhores do que o outro.

Agora, no entanto, os dois astros também viraram símbolos da mudança no mapa financeiro do futebol. Nenhum deles escolheu um capítulo final nostálgico. Messi não voltou para o Barcelona nem para o Newell’s Old Boys. Ronaldo não encerrou a carreira no Sporting nem na Madeira.

Getty ImagesCristiano Ronaldo no Al Nassr FC

Em vez disso, Messi trocou o Paris Saint-Germain pelo Inter Miami, ajudando a transformar a MLS em um produto comercial de alcance global. Já Ronaldo virou o rosto do projeto cada vez mais ambicioso da Arábia Saudita ao assinar com o Al-Nassr.

Na verdade, ambos apostaram em mercados emergentes. A aposta de Ronaldo, em especial, carrega um peso enorme. A Arábia Saudita vem sendo acusada de usar investimentos no esporte para dar um banho de loja em sua imagem internacional – uma crítica que vai continuar perseguindo a discussão sobre o seu legado.

Se a Liga Saudita conseguir se consolidar como uma das grandes potências do esporte mundial, Ronaldo terá sido muito mais do que seu jogador mais famoso. Ele terá sido um dos seus maiores ativos de marketing.

A ida de Messi para Miami carrega uma dimensão comercial igualmente gigantesca. Sua presença provou como um único astro consegue mudar o patamar de visibilidade, o potencial de patrocínio e a moral de uma liga inteira no cenário mundial.

Getty ImagesLionel Messi e Luis Suarez, no Inter Maimi CF

Esse pode acabar sendo, no fim das contas, o maior legado da era Messi-Ronaldo. Eles não se limitaram a dominar o futebol. Em vez disso, mostraram a força econômica surreal que um único atleta pode ter.

Dê uma volta por qualquer cidade do planeta e hoje é supercomum cruzar com camisas do Inter Miami estampando o nome de Messi ou do Al-Nassr com o de Ronaldo. O torcedor atual acompanha cada vez mais os jogadores como marcas próprias, e não apenas os clubes como instituições.

A próxima geração de craques – com Kylian Mbappé, Lamine Yamal e Erling Haaland à frente – vai herdar uma indústria do futebol feita sob medida para grandes personalidades. Mas eles também vão esbarrar em uma comparação impossível. Messi e Ronaldo não foram apenas jogadores famosos. Eles foram os protagonistas da mesma história por quase duas décadas.

O esporte vai sobreviver a Messi e Ronaldo. Vai criar novos astros e novos ícones comerciais. Mas talvez nunca mais consiga produzir dois jogadores capazes de dominar o mesmo espaço esportivo e cultural por tanto tempo.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

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