As grandes empresas do ecossistema publicitário foram, em sua maioria, fundadas por homens, que por muitos anos dominaram a indústria e os cargos de liderança. No entanto, nas últimas décadas, algumas mulheres conseguiram se destacar e se fazer vistas em meio a um ambiente majoritariamente masculino, profissionais que, dia após dia, lutaram para inverter essa lógica.
Atualmente, as mulheres são as principais promotoras do crescimento profissional de outras mulheres, segundo pesquisa da Nexus. Mais de 40% das entrevistadas afirmaram ter recebido ajuda preferencialmente feminina para ascender na carreira.
No contexto do marketing, em especial das agências de publicidade, mulheres como Dilma Campos, Tatiana Marinho, Carol Boccia, Camila Costa e Bibi Amarante são as vozes que hoje lideram essa transformação, fazendo de suas trajetórias pontes para as próximas gerações. Ao atuarem em diferentes frentes da indústria criativa, elas impulsionam uma inovação que nasce da diversidade.
Dilma Campos
CEO da Nossa Praia.ag e CSO da Biosphera.ntwk

Como uma bailarina apaixonada por arte, Dilma Campos nunca imaginou que um dia assumiria a cadeira de CEO em uma agência fundada por ela mesma. Depois, quando já atuava na diretoria artística de eventos, tentou seguir um caminho completamente diferente: cursou odontologia. Foi só após concluir a formação que ela percebeu que atuar no ramo da comunicação faria mais sentido para a pessoa que havia se tornado. “Eu já estava muito mais avançada na questão de eventos, então minha resolução foi quase apenas financeira. (Em odontologia) eu demoraria 10 anos para chegar ao lugar que estava na época com comunicação.”
Apesar das mudanças, Dilma afirma que a criatividade sempre foi o que a guiou ao longo da vida. Mesmo quando optou pela área biológica, ela se sentia atraída pela complexidade dos casos e a necessidade de ser criativa para resolvê-los. E foi essa curiosidade o motor para que ela aproveitasse as oportunidades que surgiam à sua frente, mesmo que precisasse aprender os passos a seguir quando o caminho já estava sendo trilhado. “É como se portas fossem abrindo e eu fosse tateando. E é assim até hoje.”
MBA em Gestão de Projetos pela FGV e em Tendências e Estudos Futuros pela ESPM, Dilma é professora associada na SingularityU Brasil, HSM+, ESPM e Instituto de Pesquisas Ecológicas, além de ser jurada e Speaker em festivais como Cannes Lions (até 2024), Effie Awards e Clube de Criação. Sua trajetória não fica apenas por conta do balé e da odontologia: ela também deu voz à personagem Patativa no Castelo Rá-Tim-Bum, inaugurando um compromisso de mais de 30 anos com narrativas plurais na comunicação. “Eu nunca achei que um dia fosse pisar em Cannes, nunca achei que fosse ser dona da minha própria empresa. Nunca foi desenhado e até hoje não é.”
Um Mercado Desigual
Mesmo que as coisas tenham fluído de forma natural em sua trajetória, Dilma não descarta o quanto precisou batalhar para conquistar seu espaço no mercado. Segundo dados levantados pelo Mover, a chance de uma mulher negra ocupar um cargo de liderança é cinco vezes menor que de uma funcionária branca, e mesmo se eventualmente conseguir, a disputa por legitimidade é diária no ambiente de trabalho. “Se você conseguiu construir uma reputação, então é porque conseguiu ocupar um espaço, mas você se prova todo dia capaz de ocupar esse espaço.”
Nesse contexto, Dilma conta que desenvolveu algumas estratégias para que as pessoas a vejam primeiro por quem ela é — e não apenas pelo que conquistou. Uma delas é não se apresentar antes de palestras ou aulas. “Eu não me apresento porque, neurocientificamente, a pessoa fica ‘Quem é ela? O que ela faz?’, e eu percebo que eles procuram saber. No final eu falo quem sou, e as pessoas ficam ‘Ah, agora entendi o porquê ela é competente’. Acho que a construção fica mais positiva dessa forma.”

“Ainda assim, os olhares e questionamentos que recebe do público muitas vezes não são simples curiosidade, mas preconceito disfarçado”. Por vezes, Dilma foi questionada sobre sua capacidade de fazer algo para qual estava completamente preparada, bem como foi tratada como alguém ‘não tão adequada’ para os espaços que ocupava.
“O racismo estrutural me atravessa todo dia, porque ele é silencioso. Eu me preparo todos os dias para que possa lidar com essas experiências e me reconstruir muito rapidamente diante dos segundos que eu experimento isso. Durante os anos, você vai criando uma resiliência, mas não é sempre que você tá nesse lugar de ‘Ok, hoje vai passar’, porque tem dia realmente que você tá um pouco mais dolorida. Eu tenho que trabalhar como todo mundo, as mesmas horas, mas eu também administro uma coisa que é todo dia sair de casa falando: ‘Que nada me aconteça, que nada nessa questão racial me derrube,” conta.
O Surgimento da Nossa Praia
A Nossa Praia nasceu há 13 anos, como uma tentativa resiliente de ter um projeto que transmitisse os valores nos quais Dilma acreditava. “A agência veio de um lugar de desafio. Eu tinha fundado essa primeira empresa que deu muito certo, mas também muito errado. Eu me senti muito mal porque, na época, todo mundo que abria um negócio era bem sucedido, só que eu fiz meu primeiro negócio e deu errado. Porém eu percebi que nunca tinha aprendido tanto na vida quanto naqueles poucos anos de empreendimento. Foi então que eu decidi fundar a Nossa Praia.”
A agência surgiu com um olhar voltado para sustentabilidade, quando o tema ainda não era tão explorado, diversidade e inclusão. “Quando a Nossa Praia abriu, ela tinha tudo que outras agências entregavam, mas era liderada por uma mulher negra”. Para Dilma, a diversidade por si só não consegue sobreviver: ela precisa estar intrínseca ao negócio, composto por pessoas de mundos completamente opostos com ideias se cruzando em torno de um mesmo propósito. Desta forma, a pauta deixa de ser apenas promocional e se torna verdadeiramente estratégica.
Ela se recorda de quando começou a fazer parte do Conselheira 101 durante a pandemia, um coletivo educacional que olha para mulheres negras em conselhos de administração. “Eu me lembro da minha emoção quando e abri a porta e tinham ali mais de vinte mulheres negras, todas no mesmo lugar. Eu me arrepio até hoje de falar sobre isso”, conta. “Tem muitas mulheres pretas preparadas para ocupar qualquer cargo de liderança. Eu desejo que as empresas não coloquem essas mulheres dentro de uma caixinha de diversidade e inclusão, mas as coloquem em tecnologia, inovação, produtos, pessoas e estratégia, pois elas estão preparadas para esse lugar.”
A atuação de Dilma na área de ESG, seja através da Nossa Praia ou da Biosphera.ntwk, onde assume a posição de CSO, fez com que ela fosse reconhecida cinco vezes pelo Pacto Global da ONU, por impacto comprovado em governança e clima.
“A Educação é o futuro”
Dilma define sua liderança em duas palavras: educação e escuta ativa. Para ela, a habilidade de criar soluções para diferentes comunidades de pessoas vem justamente da disponibilidade de ouvir a divergência de opiniões. “Eu adoro quando a pessoa me contrapõe naquilo que eu pensei para um problema, porque precisamos ter vários olhares para compor algo.”
O segundo pilar ela define como um reflexo do futuro. Nos dias atuais, com diferentes gerações e códigos concentrados em um único ambiente, o olhar experimental e curioso se torna essencial. “O mundo mudou, estamos em uma crise cognitiva muito grande. Então eu me vejo nessa coisa de líder e mentora. Nós podemos ter um problema, mas a entrega vai ser feita, até porque mesmo a criatividade exige persistência.” Ela conta que traz da dança uma técnica chamada contact improvisation, que convida pessoas a reagirem e criarem a partir da repetição de movimentos, como uma forma de aumentar repertório e desenvolver coisas novas de forma mais natural.
A CEO também reforça que uma boa liderança exige soft skills que fazem parte do indivíduo, e nem sempre podem ser adquiridas por meio de aprendizado técnico. “Algumas habilidades a gente traz, como por exemplo a habilidade de gostar de pessoas: não tem como estar no C-Level e não gostar, porque você está nesse lugar de geri-las o tempo inteiro.” Para ela, esse é um dos grandes diferenciais capazes de fazer um bom líder.
“Se você conseguiu construir uma reputação, então é porque conseguiu ocupar um espaço, mas você se prova todo dia capaz de ocupar esse espaço.”
Dilma Campos
Dilma ainda dedica parte de seu tempo para ações sociais, dando aulas em comunidades por meio de um curso para formação de pessoas de baixa renda. Atualmente, ela não ministra mais mentorias, mas afirma estar sempre disposta a aconselhar pessoas. “Tudo está dentro da orientação que eu faço, para que outras pessoas tenham chance. Não é fácil, nada na vida é, mas é possível evoluir.”
Tatiana Marinho
CEO e Sócia da Gana

Nas malas, levava apenas as roupas e o sonho de se especializar na Fundação Getúlio Vargas. Baiana de nascimento, Tatiana Marinho se formou em administração em Salvador e logo partiu para São Paulo em busca de ampliar suas possibilidades profissionais. Para ela, o maior desafio não foi só deixar tudo para trás, mas chegar na capital das oportunidades e descobrir que as coisas não seriam tão fáceis quanto esperava.
“Eu costumo dizer que foi meu momento de maior crescimento pessoal, porque chegar em São Paulo com o currículo debaixo do braço, achando que você vai conseguir emprego no dia seguinte é ilusão. E foi um grande desafio sendo uma mulher, nordestina e recém-formada.” Tatiana demorou mais de três meses para conseguir um emprego, período em que ela duvidou se conseguiria alcançar aquilo que buscava.
“Bate a insegurança, aquele sentimento de ‘Não vou conseguir, eu fracassei’. O dinheiro estava acabando e eu não tinha mais como pagar aluguel. Achava que iria voltar para Salvador de cabeça baixa e teria que falar para todo mundo que eu não consegui. Mas acho que quando você acredita no que quer, você não pode desistir. Hoje olho e vejo que se não tivesse dado certo, eu não poderia voltar achando que eu fracassei, porque eu tentei. Eu teria fracassado se não tivesse tentado.”
Tatiana se define como uma pessoa inquieta e questionadora, alguém que não abre mão dos seus valores e não tem medo de se impor. “Quando alguma coisa ia contra os meus valores, eu questionava. Tinha gente que falava: ‘Você é maluca! Você não tem medo de ser demitida?’, e eu falava que se tivesse que ser demitida eu seria, mas eu não iria contra ao que acredito”. Ela reforça no entanto, que nem sempre foi fácil impor sua voz. Em uma época em que o mercado publicitário era formado majoritariamente por homens, Tatiana precisou, muitas vezes, recuar para que pudesse, enfim, dar um passo à frente.
“Eu só tive uma líder mulher na minha trajetória inteira, todos os outros foram homens, então eu olhava para o lado e não tinha outra mulher para eu trocar sobre minhas angústias e meus medos. Então muitas vezes eu tive que recuar ou que brigar muito para ser ouvida. Passei por situações de não acreditarem em mim e de tentarem puxar meu tapete, porque eu não acreditava no que estava construindo. Mas esse é o mundo corporativo e eu acho que isso nos molda.”
Mesmo que essa realidade venha se transformando, dados da Diversitera revelam que apenas 35% dos cargos de alta liderança são ocupados por mulheres, enquanto elas representam 70% das funções operacionais. Tatiana brinca que a situação é quase como a pergunta “O que vem primeiro, o ovo ou a galinha?”, porque, para ela, o que levaria mulheres a assumirem posições de liderança seriam mulheres puxando-as para cima. “Quando falamos de diversidade como um todo, tem que vir de cima para baixo. Esse é um dos principais papéis que eu ocupo: além de liderar a Gana, eu tenho as ferramentas para abrir caminho para outras mulheres. Isso virou missão.”
A passagem pela Gana

Para Tatiana, a entrada na Gana foi seu momento de virada, a oportunidade de unir a paixão pelo que fazia com um propósito maior que ela. Foi em 2021 que os sócios Ari e Felipe a convidaram para assumir a cadeira de CEO, em uma agência formada 100% por pessoas pretas. “Na época, todo mundo falou que eu era louca de sair de um grupo multinacional, onde tinha estabilidade, e ir para uma agência que tinha só 11 meses. Mas acho que quando você já está com a carreira consolidada, esse é o momento que você pondera e corre o risco. Dá medo, dá aquele friozinho na barriga, mas eu precisava fazer isso. E que bom que eu tomei essa decisão.”
Apenas 11 meses depois da mudança na carreira, Tatiana se tornaria também sócia da agência, algo que nunca fez parte de seus planos profissionais, mas que “aconteceu muito naturalmente.” Apesar de nunca ter planejado se tornar líder, a CEO conta que, desde pequena, era uma líder nata: até na hora de brincar era a menina que tomava a frente das coisas e queria organizar tudo.
“Acho que foi uma construção fruto do meu trabalho. O Felipe me falou: ‘Eu e o Ari somos as figuras criativas, mas essa parte de operação vem muito de você, e com tudo o que a Gana quer construir, ter uma mulher CEO é um grande passo, é um exemplo para o mercado’. Você vê que foram dois homens que tiveram esse primeiro olhar. Se não fosse por eles, talvez eu não seria CEO hoje.”
Sob a liderança de Tatiana, a Gana conseguiu se consolidar no mercado como agência criativa, com um olhar pautado em diversidade, pluralidade e latinidade. Recentemente Inaiara Florêncio passou a integrar o board de sócios — após a saída de Ary Nogueira e Felipe Silva — acrescentando inovação e olhar para a comunidade. “A Gana é o meu maior projeto, e continua sendo o meu maior desafio.”
Escuta Ativa e Sensibilidade
Como líder, Tatiana se define com base em dois pilares: Escuta ativa e sensibilidade. Para ela, o princípio básico para equilibrar a busca por resultados e a performance é poder realmente olhar para as pessoas, algo que, ao longo de sua trajetória como subordinada, muitas vezes sentiu falta. “No mercado publicitário as pessoas são o nosso maior ativo, e se eu não cuidar das pessoas, consequentemente não vai ter resultado. Por isso que, na Gana, nós temos uma estrutura muito horizontal, onde todo mundo tem acesso à mim.”
Ela também acrescenta que a liderança feminina costuma ser mais aberta com questões de saúde mental e valorização de um espaço de trabalho saudável. Na posição de CEO, Tatiana preza pela sensibilidade das conexões humanas e pela empatia. “Quando você não veste essa carcaça de ‘infalível’, você consegue se aproximar muito mais do time, que passa a te ver como um líder humano e uma pessoa que pode errar.”
“Os momentos que eu mais aprendi foram os momentos que parei para olhar minhas vulnerabilidades.”
Tatiana Marinho
Por fim, ela afirma que ser CEO não soa como um lugar de poder para ela, mas um lugar de referência, com a missão de pavimentar o caminho para que outras mulheres possam chegar onde ela chegou. “Toda liderança é difícil, muitas vezes você é questionado sobre sua capacidade, e eu tinha muito medo disso, ficava tentando me provar para quem duvidasse. Mas eu percebi que se estou onde estou, é porque sou capaz, e ninguém vai me dizer que não. Então eu estou nesse lugar hoje de referência e de abrir esse espaço dia após dia”.
Carol Boccia
CEO da Lola\TBWA

Carol Boccia sempre soube que seu lugar era na comunicação. A princípio, queria atuar no marketing, porém acabou descobrindo o amor por agências atuando como assistente na Carillo Pastore (atual BETC Havas), empresa para a qual ela retornaria como presidente, 25 anos depois. “Eu falo muito para os meus filhos que nós temos que experimentar para saber onde nos encaixamos e do que gostamos, até porque a profissão vai ocupar grande parte da vida e do tempo, então você tem que ser feliz com o que faz,” conta.
Carol afirma que, se hoje ela assume a cadeira de CEO, é porque soube aproveitar todas as oportunidades que apareceram. “Eu não fechei os olhos para elas, mesmo sabendo que ia ser duro e ia me tirar do lugar de conforto. Então quando começou a surgir a bolha da internet, eu pensei comigo: ‘Eu quero ser a pessoa que vai liderar isso’, e eu fui.”
Sua trajetória foi, desde o início, marcada por desafios aceitos e mudanças radicais de carreira. Depois de 10 anos atuando na AlmapBBDO como diretora de contas, Carol foi convidada para atuar na área de operações na Africa, algo completamente fora do que ela fazia e conhecia; na agência, onde atuou por 12 anos, ela chegou a assumir a cadeira de COO e sócia. Foi então que outra oportunidade bateu à porta: a co-presidência da BETC Havas, o mesmo lugar em que sua carreira começou.
“A minha mudança para a BETC Havas foi uma decisão muito dura, mas fundamental para eu estar onde eu estou agora, porque ela me deu um olhar de presidência. O medo te paralisa, então é a coragem que vai te movimentar e te transformar. Eu fiz algumas mudanças, e todas ela nos momentos em que eu estava mais confortável na minha carreira.”
“Acho que esse é o meu maior conselho: busque com coragem e vá. A distância entre o que você é e aquilo que você quer ser é você quem determina; se o medo for pequeno, então a distância também é.”
Carol Boccia
Para ela, dois dos maiores desafios que a liderança trouxe foi a necessidade de delegar e a aceitação de suas vulnerabilidades, coisas que precisaram ser exercitadas diariamente. Carol se define como uma pessoa que sempre gostou de pôr a mão na massa e por isso, ao assumir um lugar mais estratégico, precisou se reeducar. “Quando você é promovido a uma cadeira mais sênior, você começa a se permitir menos ao erro, só que é no erro que às vezes está a solução mais potente.”
Atualmente, na cadeira de CEO, a executiva afirma que aprendeu a importância de se cercar de pessoas confiáveis, formando times que não se sintam intimidados pelas habilidades dos colegas. “Se você não tiver sucessor, você nunca vai ser promovido. Eu sempre busquei gente melhor que eu, que me complementasse e que tivesse um skill que eu não tenho, porque assim eu aprendo também. Muitas pessoas, por insegurança, não fazem isso, mas é fundamental para conseguir chegar onde deseja. Dessa forma, você constrói um time forte, que te passa segurança para desapegar das tarefas do dia a dia.”
A Escola da Maternidade
Como mãe de dois filhos — dois cachorros e um gato — Carol conta que algumas coisas só puderam ser completamente compreendidas por ela após a maternidade. A forma de trabalhar e a maneira como ela reagia emocionalmente às frustrações mudou completamente após o período gestacional. “Meu ritmo sempre foi muito acelerado, então eu aprendi a moldar minha ansiedade de acordo com a missão do time. A maternidade me ajudou muito nisso, nesse processo de filtro mesmo, entender o que realmente é importante e o que não deveria tirar meu sono. Hoje todo mundo me fala ‘Nossa, você é super tranquila’, e eu sou, mas porque aprendi a calibrar minha velocidade.”
A CEO afirma ter se tornado uma pessoa mais otimista e positiva, algo que atribui à resiliência da maternidade. Como mãe de primeira viagem, muitas vezes não soube o que fazer — experiência que a levou a acreditar que, de alguma forma, as coisas acabariam dando certo e que ajudou a moldar a mulher que é hoje.
Ela também destaca o valor de contar com uma rede de apoio nos momentos de necessidade, além do exercício constante de ajustar expectativas e reconhecer a própria humanidade ao equilibrar diferentes responsabilidades. “Eu sempre fui muito muito disciplinada nas minhas rotinas, porque acho que isso faz com que fique mais previsível. Esse é o melhor jeito de conseguir dar conta de tudo e também se cobrar menos — outra coisa que aprendi com o tempo. Eu vejo muitas mulheres se cobrando demais, do tipo: ‘Eu preciso estar ali em todos os momentos’, só que isso gera uma frustração nela e nas crianças. Quando nós queremos fazer tudo, nós não conseguimos fazer nada direito.”
Uma Liderança Pós-fusão
Desde pequena, Carol tem um espírito líder: na escola, era a pessoa que reunia os amigos e organizava as brincadeiras. Sempre teve o ímpeto de ajudar as pessoas e fazer as coisas acontecerem. “A faculdade para mim era meio frustrante, porque eu queria fazer, não só ouvir. Então eu sempre tive essa vocação, e isso é um softskill. Uma das coisas que mais me motiva é entender que posso mudar a vida das pessoas, fazer a relação delas com a carreira ser mais produtiva”.

Quando aceitou o desafio de assumir à frente da Lola\TBWA, Carol reconheceu que precisaria tratar de pessoas que haviam passado por momentos de incerteza e insegurança, causados pela fusão entre as agências Lew’Lara e DM9. Para isso, ela considera a importância de ouvir e acolher skills essenciais para uma boa liderança. “Eu sou uma líder exigente, prezo pela qualidade e eficiência, mas eu também tenho uma leveza no jeito de enxergar a vida. Tenho um lado empático que desenvolvi até por ter estado em vários lugares e em várias posições.”
Ao assumir a Lola, ela precisou reorganizar todo o time, que estava disperso após a saída dos antigos líderes. Conta que chegava a puxar pessoas no corredor para perguntar quais eram suas habilidades, ao mesmo tempo em que ouvia o que outros tinham a dizer sobre a dinâmica da equipe. “Por um lado foi maravilhoso poder mapear o time, mas por outro, se eu não tivesse escuta-ativa e empatia, eu teria olhado para um Excel, com nomes e salários, e teria decidido quem ficaria ou não. Mas jamais faria isso. Eu converso todos os dias com pessoas de áreas diferentes porque eu quero conhecê-las, e isso está sendo surpreendente e bom.”
Para Carol, esse é um dos grandes benefícios de uma gestão feminina: a sensibilidade em relação a alguns assuntos. “Existe uma coragem maior no sentido de assumir suas falhas, a mulher tem essa flexibilidade e esse olhar mais solidário. Eu acho muito curioso quando vejo gestões femininas que se masculinizam para poder ficar mais confiantes na posição, um tempo atrás isso era bem comum. Mas eu sou zero assim: eu vou ser levada a sério pela minha competência e pelos resultados que eu entrego.”
Ela ainda reforça que, em sua posição como mulher, nunca foi preterida pelo gênero, pois teve a sorte de ter líderes homens que a ouviram e a respeitaram muito. “Eu acho que cada vez mais mulheres vão alcançar esse lugar [de liderança], porque elas estão sendo preparadas para isso. Acho que agora tem menos barreiras, e é mais uma questão de ciclos: esses vão se encerrar e as mulheres que estão sendo preparadas vão assumir.”
Camila Costa
CEO e Sócia da iD\TBWA

CEO há quase 12 anos, Camila Costa afirma que a posição de liderança, atualmente, deixou de ser algo solitário e passou a ser mais colaborativo. À frente da iD\TBWA, a executiva valoriza a diversidade dentro e fora do ambiente de trabalho, para que a agência e as marcas consigam se conectar com a variedade do consumidor brasileiro. “Quando eu me tornei líder, tinham poucas referências de CEOs mulheres — e muita coisa melhorou, hoje temos mulheres à frente das principais agências. Acho que agora o trabalho é muito mais colaborativo: meu papel é reunir uma série de expertises e pessoas para trabalharem comigo, porque quem não se conecta e não entende o que está fora, não consegue criar algo realmente relevante.”
Camila conta que, em sua trajetória, foi liderada por homens que souberam impulsionar mulheres, e ela própria é fruto disso. Em sua visão, o mercado de agências teve um salto muito importante nos últimos dois anos no que tange à liderança feminina, mas ainda há muito para ser feito. “Com o tempo, aprendi que a legitimidade vem da autenticidade e consistência, das decisões que tomamos, dos resultados que construímos e das relações que cultivamos. Hoje me sinto realizada no espaço que ocupo, mas sigo com a mesma ambição de continuar evoluindo.”
A executiva iniciou sua carreira em Salvador, berço de grandes publicitários e local com forte cunho cultural. Por causa disso, ela cresceu profissionalmente com o desejo de que a publicidade abraçasse o Brasil todo, e não apenas o eixo Rio-São Paulo. “O Brasil é muito maior que isso. Dar importância para essas regionalidades, as diferenças de cada mercado e a riqueza cultural é uma das minhas grandes virtudes, porque eu vivenciei isso desde o começo da minha carreira.”
Uma das grandes viradas na carreira de Camila aconteceu junto ao surgimento do Orkut, quando ela decidiu abandonar a publicidade tradicional para olhar para o digital. “Não existiam agências digitais, só que eu sou louca por transformação, pela próxima onda, então quando olhei para o Orkut eu vi que precisava pular de cabeça naquele negócio”. Na época, o investimento das marcas em e-commerce era mínimo, algo em torno de 5%. Para Camila, estar inserida nesse universo quando o digital tomou conta do mercado publicitário foi o que moldou a líder que ela é hoje, e a ensinou a ter a visão inovadora que hoje transmite para a iD\TBWA.
“A legitimidade vem da autenticidade e consistência, das decisões que tomamos, dos resultados que construímos e das relações que cultivamos”
Camila Costa
Para Além da iD\TBWA
Camila é investidora anjo de startups e realiza mentorias para mulheres empreendedoras, com o propósito de formar novas lideranças femininas. A executiva também colabora com a Casa do Saber — com uma abordagem mais cultural e educativo — e faz parte do conselho consultivo da ESPM. “A forma de aprender mudou muito, o que os profissionais que entram [na ESPM] precisam aprender em quatro anos de formação se recicla todo ano. Então eu tento levar minha contribuição para que nós tenhamos profissionais preparados para esse novo mundo dos próximos anos.”
Para ela, o segredo de saber equilibrar a vida pessoal e a vida profissional é entender que cada momento tem sua prioridade, e que não conseguimos dar conta de tudo o tempo inteiro. “Eu sou mãe de dois filhos, e eles sabem que eu amo meu trabalho, então eu discuto com eles para que também se sintam parte disso. Então tem momentos que eu dedico mais ao pessoal, e outros momentos que eu preciso estar mais imersa no profissional; o mais importante é dedicar tempo de qualidade.”
Haynabian Amarante
COO e Sócia na Hustlers.br

Haynabian Amarante (Bibi) construiu uma carreira de mais de 15 anos no setor de eventos, live marketing e comunicação, e hoje está à frente da área de operação da HUSTLERS.BR. Apesar de sua trajetória, a executiva conta que se tornar líder não foi seu objetivo desde o princípio, mas seu perfil influente se destacou no mercado, chamando a atenção de clientes e a levando a maiores responsabilidades.
O caminho, no entanto, não foi simples. Bibi conta que, entre 2015 e 2017, quando assumiu efetivamente a posição de liderança, muitas pessoas passaram a questionar sua competência para tal, por ser ainda jovem. Em um setor dominado historicamente por homens, ela percebia que, em reuniões corporativas, muitas vezes era a única mulher e tinha que lutar para ter sua voz ouvida.
“Não existe uma fórmula única para mudar essa realidade”
Haynabian Amarante
A executiva afirma, no entanto, que desde então grandes melhorias aconteceram no mundo publicitário. As transformações graduais — impulsionadas pelo aumento de lideranças diversas — transformaram o ambiente corporativo e trouxeram uma combinação importante entre sensibilidade e escuta, o que contribui para uma equipe mais colaborativa e saudável.
Ela não descarta, no entanto, que ainda há muito a melhorar. “Não existe uma fórmula única para mudar essa realidade; o caminho é ampliar oportunidades para que mulheres possam demonstrar sua capacidade e ocupar espaços de decisão.”
Hustlers.br como Reflexo de um Propósito
Como líder, Bibi defende uma gestão baseada em transparência e escuta ativa, incentivando um ambiente em que colaboradores se sintam à vontade para dialogar, sem barreiras hierárquicas. Ela mantém as portas abertas para que o time possa compartilhar dúvidas, temores e ideias. Além disso, conta que a posição de liderança a ensinou a gerenciar a pressão que vem junto com as grandes responsabilidades inerentes ao cargo. “Cabe a mim evitar que essa pressão seja transferida para o time.”
Dentro da Hustlers.br, seu trabalho também está ligado à construção de iniciativas voltadas à inclusão no mercado corporativo. A agência, fundada junto com Ramon Prado, busca refletir esses valores na composição da equipe, formada majoritariamente por profissionais negros e mulheres — segundo Bibi, Prado é o único homem no conglomerado da agência. “Não somos uma agência exclusivamente preta, porque acreditamos em pluralidade de pensamentos.”
Entre os projetos mais emblemáticos está o Future in Black, conferência criada para fortalecer lideranças negras no ambiente corporativo. Realizado anualmente, o evento reúne mais de 900 tomadores de decisão para discutir oportunidades e desenvolvimento profissional. Segundo Bibi, o projeto é uma tradução dos valores da Hustlers: diversidade de gênero, raça e a construção de um mercado mais plural.
Inspiradas a Inspirar
Para se tornarem referências no mundo publicitário, essas executivas também tiveram modelos que as inspiraram a desenvolver todo o seu potencial — pessoas que ajudaram a iluminar o caminho que trilharam até aqui.
Para Tatiana Marinho, da Gana, sua primeira e maior inspiração é a mãe, que criou três filhas sozinha e fez duas faculdades. “Ela mostrou que quando nós queremos, nós conseguimos. Essa força foi o que me moldou, e o maior legado que ela poderia ter deixado para nós é a educação”. Agora, Tatiana inspira mulheres no meio corporativo por meio de palestras, mentorias na Top2U e conversas informais com quem recorre aos seus conselhos. “Eu não só ajudo essas mulheres a trilhar um caminho como eu aprendo muito. Nós ressignificamos muitas verdades quando começamos a ouvir outras mulheres, com outras vivências”.
Já Dilma Campos considerou pela primeira vez a possibilidade de ocupar uma posição de liderança quando trabalhou com Fernanda Buja na comunicação de eventos. Assim como Dilma, Buja vinha do universo da dança e das artes e, naquele momento, coordenava toda a operação. “Aquilo foi muito impressionante para mim. Eu não tinha faculdade na época, então, como bailarina, achava que não existia outra profissão além de dançar no palco. Mas olha no que aquela mulher se transformou. Ela não era uma mulher negra — tive poucas oportunidades de ter referências negras –, mas ainda assim foi uma grande inspiração para mim.”
Carol Boccia, por sua vez, foi inspirada dentro de casa, por seu pai que sempre foi líder de empresa. Ela via nele um exemplo para a futura profissional que desejava ser. A CEO também menciona duas chefes mulheres que já teve: Ana Lúcia Serra — uma das primeiras mulheres a dividir a liderança ao lado de homens — e Celina Esteves. “São duas mulheres muito referências, que foram essa mistura de ser exigente e criteriosa, mas com suavidade e boa energia”.
Para Camila Costa, a inspiração vem de mulheres que, devido ao contexto em que estavam inseridas, precisaram lutar muito para provar serem ouvidas. “Tive sorte de conviver com líderes que me ensinaram com coragem, firmeza e generosidade, e também me inspiro muito nas mulheres da minha vida pessoal que me lembram diariamente que liderança também é sobre autenticidade”. Ela ainda destaca que encontra inspiração nas pessoas que tem a oportunidade de mentorar: “Conviver com profissionais talentosas, inquietas e comprometidas em construir coisas relevantes é algo que me desafia e me motiva todos os dias”.