Como a Bill.com se tornou uma das ações mais populares de 2020 em Wall Street

Brasil2/GettyImages
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Demitido pela própria diretoria, René Lacerte trabalhou 13 anos para construir a fintech de US$ 10 bilhões

Em um dia cinza e úmido de novembro de 2004, René Lacerte dirigia estressado seu Toyota Camry prateado até a August Capital, no Vale do Silício, para uma reunião de diretoria. Como cofundador e CEO da empresa de software online para folha de pagamentos PayCycle, Lacerte sabia que seu trabalho estava em jogo. A empresa tinha dezenas de milhares de usuários e US$ 13 milhões em receita anual, mas o crescimento havia estagnado.

“Eu entrei naquela reunião dizendo: ‘dê-me mais uma chance'”, lembra Lacerte. Em vez disso, a diretoria pediu-lhe que desistisse. Cinco anos depois, a PayCycle foi vendida à Intuit por US$ 170 milhões.

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Nesse meio tempo, Lacerte, agora com 53 anos, começou a construir sua próxima empresa, a Bill.com, que permite a pequenas empresas pagar suas contas e manter seus documentos em nuvem. Embora seu nome e função sejam comuns, a Bill.com Holdings, Inc. tem se apresentado de forma espetacular desde que abriu seu capital em dezembro passado, a US$ 22 por ação. As ações aumentaram mais do que cinco vezes, para US$ 126. Este é um dos melhores IPOs de fintechs desde que a indústria nasceu em 2005. As ações de Lacerte valem agora US$ 350 milhões, e sim, desta vez ele ainda é o CEO.

Para Bill.com, a pandemia tem sido um movimento variável de coisas boas e ruins. As empresas têm continuado a se inscrever no serviço, mas o crescimento, tanto dos clientes quanto das transações, tem desacelerado à medida que muitas pequenas empresas têm sido duramente atingidas pela crise. Ainda assim, o negócio que Lacerte construiu com tanta determinação agora desfruta do que Warren Buffett chamaria de Moat, conceito que designa a vantagem competitiva de algumas empresas em relação a outras, tornando mais difícil para as iniciantes entrar em seu nicho. Conseguir com que os donos de pequenas empresas se empolguem em fazer algo novo é difícil, mas a Bill.com tem críticos e uma longa lista de parceiros (de contadores a bancos, além da própria Intuit) promovendo seus serviços.

Em 30 de setembro, 103.600 empresas realizavam pagamentos através da Bill.com, enquanto mais de 2,5 milhões de fornecedores estavam inscritos para receber fundos eletronicamente através do serviço. Entre a assinatura do software e as taxas de transação, a Bill.com obtém receita média de US$ 1,5 mil ao ano por cada um dos mais de 100.000 clientes.

Rene Lacerte cresceu em Winter Haven, Flórida, e faz parte de uma extensa família de empreendedores e contadores que se estende até os seus bisavós. Seus próprios pais desenvolveram cinco negócios, incluindo uma agência de trabalho temporário e uma empresa de folha de pagamento para lojas. Se o nome Lacerte soa familiar, é porque dois primos de segundo grau construíram a Lacerte Software Corp., sediada em Dallas.

Depois de obter o diploma em economia e um mestrado em engenharia industrial em Stanford, Lacerte passou três anos como auditor da PwC e um ano na empresa de folha de pagamentos de seus pais, antes de ingressar na Intuit em 1994. Lá, no final dos anos 90, lançou a ideia de colocar o software de contabilidade QuickBooks, da Intuit, na internet, em vez de exigir que as pessoas o instalassem a partir de um CD-ROM. Essa era uma ideia comercial rudimentar do armazenamento em nuvem, mas a Intuit não teve interesse e, em 1999, Lacerte fundou a PayCycle.

O momento não era o ideal, já que ele estava tentando levantar capital no outono de 2000, logo após o estouro da bolha pontocom. David Hornik, da August Capital, investiu quase US$ 8 milhões. O mesmo Hornik, anos mais tarde, liderou a substituição de Lacerte como CEO da PayCycle, alegando que Lacerte havia concedido muita autoridade ao cofundador e seu COO. “É difícil ser ágil quando se está tentando acomodar tantas opiniões”, diz Hornik, que também foi um dos primeiros investidores na Bill.com.

Aos poucos, então de repente

Quando foi deposto na PayCycle, Lacerte já tinha a ideia do seu próximo negócio, planejando uma grande economia de tempo para os sobrecarregados donos de pequenos negócios, eliminando a necessidade de conferir o correio, verificar faturas, fazer malabarismos, registrar e pagar cheques à mão. Em 2007, ele pagou US$ 200 mil pelo domínio Bill.com e lançou seu primeiro produto em 2008, voltado para empresas com receita entre US$ 5 e US$ 100 milhões. O modelo de negócio previa a cobrança de uma assinatura mensal e taxas de transações e uma pequena taxa para os não assinantes pelos pagamentos recebidos.

Existem 30 milhões de pequenas empresas nos EUA, mas não é fácil conseguir que uma pequena fração delas adote algo novo. Lacerte viu as parcerias como o caminho e começou lançando a Bill.com para contadores que tinham dezenas ou centenas de clientes de pequenas empresas. Depois de cinco anos, ele havia vendido o serviço a 1.500 contadores. “Muitos dos primeiros investidores às vezes ficavam frustrados com o progresso ‘lento’ nos primeiros anos”, diz Tom Blaisdell, ex-sócio da venture capital DCM que liderou o investimento, em de 2006, na Bill.com.

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Depois dos contadores, Lacerte teve como alvo os bancos. “Ele olhava para o JPMorgan e dizia: ‘Vamos ter esta primeira reunião e provavelmente estamos três a cinco anos de distância'”, lembra Blaisdell. “Que empresário tem esse tipo de paciência?” Em 2016, ele fez uma parceria com seu antigo empregador, a Intuit, para integrar a Bill.com em seu software, o QuickBooks. No ano seguinte, ele finalmente conseguiu um acordo com o JPMorgan para que o banco começasse a recomendar a Bill.com a seus clientes empresariais e, desde então, fez acordos com o PNC, o Bank of America e o Wells Fargo.

Aos poucos, as parcerias começaram a dar frutos. Em 2018, a receita atingiu US$ 65 milhões. Uma rodada de captação de fundos em abril de 2019 elevou para mais de US$ 1 bilhão o valor de mercado da Bill.com. Em dezembro passado, a Bill.com foi listada em bolsa com valuation de US$ 1,6 bilhão. No primeiro dia de negociação, as ações saltaram 60%.

Lacerte havia aprendido uma lição com seu afastamento da PayCycle: assumir um firme controle. “Percebi que se eu não tomar uma grande decisão, ninguém o fará, então eu preciso tomá-la”.

Quando a pandemia começou, a necessidade de um serviço de pagamento de contas on-line tornou-se ainda mais clara. Josh Levine, que dirige um pequeno negócio fora da Filadélfia ajudando famílias ricas a administrar suas despesas e bens diários, costumava enviar funcionários e mensageiros às casas dos clientes vários dias por semana para administrar suas despesas. Em meados de março, ele contratou os serviços da Bill.com, economizando em sua equipe de seis funcionários até 15 horas por semana e dezenas de exposições a doenças, incluindo a covid-19.

O potencial é enorme. “Oitenta a noventa por cento das empresas ainda dependem de cheques em papel como forma primária de pagamento”, diz Noran Eid, analista da Kayne Anderson Rudnick, uma empresa de gestão de ativos que detém participação de US$ 700 milhões na Bill.com.

A Bill.com também se enquadra em uma categoria que os investidores adoram: pagamentos digitais. A Square, a Bill.com e o PayPal estão entre as ações com melhor desempenho desde o início da pandemia, com os papéis subindo em torno de 150%, 110% e 80%, respectivamente, comparado com um aumento de 10% no S&P 500.

Os primeiros investidores da Bill.com, a August Capital e a DCM, transformaram US$ 25 milhões em US$ 700 e US$ 900 milhões, respectivamente.

O serviço de pagamento de contas funciona melhor quando ambas as partes – o restaurante que compra legumes e o distribuidor de alimentos que os fornece – são usuários registrados na Bill.com. Assim, como o PayPal e outras empresas que construíram mercados de dois lados, o serviço se torna mais valioso à medida que mais empresas se juntam a sua rede. “A balança se retroalimenta”, diz Lacerte.

O desafio agora é estar à altura da sua valorização. Cotadas em torno de US$ 126 por ação, ou US$ 10 bilhões, as ações estão sendo negociadas a 50 vezes a receita esperada de US$ 193 milhões para o próximo ano, de acordo com a FactSet. Somente os papéis com melhor desempenho na pandemia, como o Zoom, são negociados a múltiplos superiores. É bom Lacerte estar preparado para produzir anos de muito mais crescimento para fazer jus às expectativas.

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