Carlos Zarlenga, ex-CEO da GM na América do Sul, vai ao resgate de filiais deixadas por multinacionais

Através da Qell Latam Partners, o executivo aposta no etanol e quer revitalizar o setor automotivo brasileiro.

Isabella Velleda
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Saída de Zarlenga da General Motors foi considerada “inesperada” após gestão que recebeu elogios

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Depois de deixar o cargo de CEO da General Motors na América do Sul em agosto deste ano, Carlos Zarlenga se tornou sócio do fundo de private equity Qell Latam Partners. Agora, seguindo na direção contrária à de boa parte das grandes empresas automotivas, que buscam solo fértil para os veículos elétricos na Europa, sua missão é renovar o setor automobilístico nacional.

Na QLP, Zarlenga está ao lado de Barry Engle, ex-CEO da General Motors na América do Norte, e Francisco Valim, que já liderou empresas como Via, Serasa e Oi. A companhia é controlada pelo grupo norte-americano Qell Acquisition Corp, fundado em agosto de 2020 e negociado publicamente na Nasdaq sob o ticker QELLU.

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A oferta pública inicial movimentou US$ 380 milhões, seguida por uma captação privada (PIPE, ou private investment in public equity, na sigla em inglês) de US$ 450 milhões. Em agosto deste ano, o grupo também finalizou uma operação de fusão no valor de US$ 3 bilhões com a alemã Lilium, de mobilidade aérea elétrica.

O objetivo da QLP é comprar empresas do setor automotivo, especialmente subsidiárias de multinacionais que estão sendo relegadas por suas matrizes, e torná-las mais eficientes. Isso será feito, por exemplo, através do aprimoramento da engenharia local e do desenvolvimento de mais produtos, explica o executivo. A empresa busca aquisições com valor de mercado de US$ 500 milhões a US$ 3 bilhões, e, embora o setor automotivo seja o seu foco inicial, ele poderá ser expandido no futuro.

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Um dos exemplos mais recentes da fuga do Brasil de multinacionais do setor foi a saída da Ford, que após um século de presença no país decidiu encerrar sua produção local em janeiro deste ano. Ao menos 5 mil trabalhadores foram demitidos com o fechamento das suas três fábricas nacionais. O mesmo caminho também foi seguido por Mercedes e Audi, ainda em 2021.

Zarlenga diz que a empresa já conta com o capital necessário para iniciar suas aquisições de grande porte enquanto busca investidores privados no Brasil e no exterior que desejam se juntar à iniciativa. Em agosto, a Qell firmou uma parceria de US$ 1 bilhão com a Azul para iniciar a construção de uma malha de 220 aeronaves eVTOL, também conhecidas como “carros voadores”, que devem começar a operar a partir de 2025.

A outra ‘General’

Antes de se juntar à General Motors, Zarlenga trabalhou no departamento financeiro da General Electric por 13 anos. Formado em economia pela Universidade de Belgrano, na Argentina, ele ingressou na empresa por meio de um programa de trainee chamado FMP (Financial Management ​​​​​​​Program, na sigla em inglês), com duração de dois anos.

Pouco tempo depois, ele passou a integrar um grupo global de auditores da GE, uma função que ofereceu um “caminho rápido” aos cargos executivos. Ele conta que participou de processos de aquisições, consultoria e auditoria até se tornar diretor de planejamento financeiro para um dos maiores negócios da GE Capital na Europa. Então, subiu ao cargo de CFO, liderando um time de aproximadamente 300 profissionais financeiros ao redor de 20 países de Europa, África e Oriente Médio.

A ida à General Motors ocorreu em 2011, quando diversos de seus colegas na General Electric também faziam essa mudança. “A GM passava por um momento muito interessante, que veio com um plano de reestruturação após a empresa declarar falência em 2009. Ou seja, havia uma grande mudança da cultura, da estratégia, e da liderança da montadora, e eu vi isso como uma oportunidade”, afirma o executivo.

Na GM, Zarlenga se tornou CFO das operações da montadora na Coreia do Sul, e, depois, na América do Sul. Ele passou pelos cargos de CEO na Argentina, Brasil e Mercosul, até se tornar CEO das operações na América do Sul em fevereiro de 2019, cargo em que permaneceu por dois anos e meio.

Zarlenga é argentino, mas cresceu em contato com o Brasil e a Europa. Seu pai era executivo de uma multinacional e viajava por diversos países ao redor do mundo a trabalho – algo que, coincidentemente, também iria marcar a carreira do ex-CEO. Em um rápido resumo da sua trajetória, ele cita que trabalhou também em países como Estados Unidos, Holanda, Vietnã e Uzbequistão.

“Com uma experiência internacional, você está menos exposto à problemática de um país em particular, e começa a entender mais sobre as estruturas globais”, diz o executivo. “Eu aprendi muito sobre os setores de transporte e energia interagindo com pessoas de outras nacionalidades.”

Durante a sua presidência na GM, a empresa anunciou um ciclo de investimentos no Brasil de R$ 10 bilhões para o período entre 2020 e 2024, obteve incentivos fiscais do governo do estado de São Paulo e renovou modelos importantes de sua linha. A sua saída, porém, ocorreu em meio à crise de chips semicondutores que paralisou montadoras e reduziu a produção de veículos a nível global. Ao contrário de outras sucessões, que foram planejadas com bastante antecedência, sua saída foi considerada súbita e inesperada.

Reformulando o setor

“Faz tempo que eu busco pensar a indústria automotiva de forma diferente”, diz Zarlenga. “E você não pode fazer isso a partir da cadeira de presidente de uma montadora. Você precisa fazer isso criando um grupo de investimento, porque é realmente um jogo de reconfigurar o setor.”

O executivo aponta para a eletrificação dos veículos como uma das principais tendências do ramo. Até 2030, ele diz que a expectativa é de que 60% da frota de veículos em regiões como Estados Unidos, Europa e China seja composta por veículos elétricos. No Brasil, no entanto, essa projeção chega a apenas 15%, um indício de que é necessário começar a explorar outras potencialidades locais.

O etanol, nesse sentido, é visto como a principal alternativa aos combustíveis fósseis, segundo Zarlenga. Isso se deve ao fato de que o país possui um território extenso o bastante para cultivar cana-de-açúcar em grande escala, e não teria a infraestrutura necessária para receber um grande investimento em eletrificação.

O combustível é uma fonte renovável de energia que apresenta uma taxa de emissão de gases nocivos menor do que a da gasolina e do diesel. O seu valor sustentável também não está muito abaixo daquele encontrado nas baterias utilizadas por veículos elétricos que costumam ser feitas de minérios, como o lítio.

No ano passado, o país alcançou a maior produção de etanol de sua história, atingindo 35,6 bilhões de litros na safra de 2019/2020, segundo dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). O executivo afirma que a QLP está estudando também como aprimorar os motores dos veículos para ampliar a eficiência energética do combustível, que atualmente equivale a 70% da eficiência da gasolina. “É uma oportunidade única para nós que o outro lado do mundo não tem.”

Zarlenga diz considerar a adaptabilidade uma das características indispensáveis a um executivo, ressaltando que é importante se ater à realidade, e não aos desejos ou idealizações, para tomar a decisão mais apropriada para uma empresa. Ele também reforça o valor de ter uma equipe capacitada, que possa agir com independência e autonomia, para reduzir as burocracias e alcançar objetivos mais rapidamente.

Nesse sentido, ele cita que um de seus únicos arrependimentos profissionais foi não ter sido mais ágil na implementação de suas ideias. “Muitas vezes você não vai na velocidade que deveria ir porque fica pensando, ‘Será que a organização vai tolerar? Será que eu estou certo? Será que esta é a pior ideia de todas?’. Mas, olhando para trás, eu concluo que faria tudo o que fiz, mas de uma maneira muito mais rápida.”

Em Barry Engle e Francisco Valim, ele diz ter encontrado os parceiros ideais para integrar a Qell Latam Partners. Ambos já presidiram grandes empresas e lideraram aquisições, além de terem visões complementares sobre o setor automotivo, afirma Zarlenga. Os três, também, já se conheciam há vários anos.

A oferta pública inicial costuma ser a principal forma de captação de empresas de cheque em branco, como a Qell Acquisition Corp, mas o executivo diz que abrir capital da Bolsa de Valores brasileira não está nos planos de curto prazo. Embora nenhuma aquisição tenha sido divulgada até agora, a QLP já mapeou cerca de 120 empresas que poderão ser alvo de investimentos – e sua intenção é começar a colocar tudo isso em prática ainda neste ano.

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