Na última terça-feira (20), durante uma entrevista virtual no Fórum Econômico do Catar, Elon Musk declarou que pretende reduzir suas doações políticas. “Vou fazer muito menos daqui para frente. Acho que já fiz o suficiente”, afirmou o bilionário, que foi o maior doador individual nas eleições de 2024, desembolsando US$ 290 milhões (R$ 1,6 bilhão) em apoio a Donald Trump. “Se eu enxergar um motivo para gastar com política no futuro, farei isso. Mas, no momento, não vejo razão.”
E não é à toa: em apenas quatro meses, o governo Trump já começou a render frutos significativos para Musk. No campo regulatório, suas empresas enfrentam menos escrutínio, já que algumas investigações federais foram encerradas, paralisadas ou estão em desordem – em parte graças aos próprios esforços de Musk no DOGE, sigla em inglês para o Departamento de Eficiência Governamental, onde trabalhou para desmantelar e cortar recursos de várias agências federais.
As empresas de Musk, especialmente a SpaceX, estão bem posicionadas para receber bilhões de dólares em novos contratos com o governo. Em âmbito internacional, Musk tem fechado acordos e conseguido permissões para operar em outros países, frequentemente com apoio – implícito ou explícito – da administração Trump.
Muitos bilhões a mais
Há também os benefícios pessoais. Musk está muito mais rico agora do que antes de declarar apoio a Trump. Sua fortuna chegou a US$ 419 bilhões (R$ 2,38 trilhões)– cerca de US$ 170 bilhões (R$ 967 bilhões) a mais do que em 15 de julho, dois dias após Trump sobreviver a uma tentativa de assassinato na Pensilvânia, evento que motivou o apoio público de Musk.
Desde que Trump retornou à Casa Branca, em janeiro, as ações da Tesla caíram 20%, mas ainda estão 35% acima do valor registrado em meados de julho de 2024. A SpaceX agora é avaliada em US$ 350 bilhões (R$ 1,9 trilhão), quase o dobro do valor estimado na época em que Musk declarou apoio a Trump.
Sua terceira maior empresa, a xAI Holdings – que reúne a rede social X e sua startup de inteligência artificial xAI – foi avaliada em US$ 113 bilhões (R$ 643,2 bilhões) na fusão mais recente, mais do que o triplo do valor combinado das duas empresas um ano atrás.
Conflitos de interesse?
Críticos de Trump e Musk afirmam que o envolvimento de Musk com o DOGE e sua proximidade com o presidente têm lhe trazido vantagens financeiras. “A natureza dos negócios do sr. Musk, assim como os lucros substanciais obtidos por meio de contratos com o governo, o tornam profundamente enredado nas funções regulatórias do governo que ele agora tem poder para moldar”, concluiu um relatório de abril elaborado pelos membros democratas da Câmara dos Representantes dos EUA. “O presidente Trump não poderia ter escolhido alguém mais propenso a conflitos de interesse.”
Trump nega a acusação. “Se houver conflito, não vamos deixar ele se envolver”, afirmou o presidente no Salão Oval, em fevereiro. Musk também negou e disse que não participa dos processos de solicitação de contratos públicos pela SpaceX. “A alegação de que as empresas de Elon Musk se beneficiaram de seu período na Casa Branca é infundada e carece de integridade jornalística”, declarou Harrison Fields, vice-secretário de imprensa de Trump, em comunicado enviado à Forbes. “As empresas de Elon enfrentaram incêndios criminosos, vandalismo, tiroteios, ataques cibernéticos, boicotes e ataques pessoais sem precedentes para um empresário americano. Como já foi dito várias vezes, o presidente não tolera conflitos de interesse, e Elon Musk continua a seguir as diretrizes éticas aplicáveis em sua missão de eliminar desperdícios, fraudes e abusos.”
Lado negativo
Nem tudo, no entanto, tem sido vantajoso para Musk no governo Trump. A política tarifária da administração – incluindo tarifas de 30% sobre importações da China – deve aumentar os custos de produção da Tesla, SpaceX e xAI. As vendas de carros da Tesla vêm caindo nos principais mercados, em grande parte devido à reação negativa de consumidores diante da atuação de Musk no Departamento de Eficiência Governamental.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos feita este mês mostrou que 58% dos americanos têm uma visão desfavorável de Musk, contra 39% com opinião favorável. Protestos pacíficos, além de atos de vandalismo e incêndios criminosos, vêm atingindo concessionárias e showrooms da Tesla. Musk, que insiste que as vendas estão se recuperando, disse ao entrevistador no Catar que levou as críticas para o lado pessoal.
“O trabalho de Musk no DOGE causou danos significativos à marca Tesla, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior, e isso teve um alto custo pessoal para ele”, afirma Gil Luria, analista de tecnologia do banco de investimentos D.A. Davidson. “A mancha na marca é quase sem precedentes na indústria automotiva.”
Posição de Trump e o futuro da Tesla
Ainda assim, Trump tem dado muitos motivos para Musk sorrir. Em janeiro, o presidente assinou uma ordem executiva que enfraqueceu o Escritório de Programas de Conformidade com Contratos Federais do Departamento do Trabalho, que investigava acusações de discriminação nas fábricas da Tesla. Como resultado, a investigação foi encerrada, segundo o San Francisco Standard. Em março, o presidente chegou a incentivar publicamente a compra de carros da Tesla durante um discurso feito no gramado da Casa Branca.

A grande questão para o futuro da Tesla é a posição do governo Trump em relação aos carros autônomos, parcial ou totalmente. No ano passado, a Administração Nacional de Segurança Rodoviária dos EUA abriu duas investigações sobre os recursos de direção autônoma da Tesla, que seguem em andamento, segundo um porta-voz oficial.
No mês passado, o Departamento de Transporte eliminou uma exigência que obrigava montadoras com carros autônomos a reportarem certos tipos de acidentes não fatais. A mudança favorece a Tesla e prejudica a Waymo – empresa de veículos totalmente autônomos da Alphabet –, segundo Dan Ives, analista da Wedbush Securities. Um porta-voz do Departamento de Transporte nega que a medida tenha sido feita para beneficiar a Tesla e diz que a mudança visa priorizar tipos de acidentes mais relevantes para os esforços da agência.
Tesla x Waymo
Musk quer competir com a Waymo ao lançar em larga escala seus carros autônomos. Na última semana, em entrevista à CNBC, afirmou que espera ver centenas de milhares de Teslas autônomos circulando nos EUA até o ano que vem. É improvável: a Waymo opera há anos e já implantou 1.500 veículos em quatro cidades americanas, com planos de adicionar mais 2.000 até 2026.
Além disso, a Tesla vem enfrentando atrasos e problemas de segurança com sua tecnologia, conforme relatado pela Forbes. Mesmo assim, o governo Trump parece apoiar os planos de Musk. O secretário de Transportes, Sean Duffy, visitou esta semana a mega fábrica da Tesla no Texas e, segundo suas palavras, foi “ver de perto o futuro dos veículos autônomos”.
“Estimamos que a oportunidade da Tesla em IA e direção autônoma valha, sozinha, pelo menos US$ 1 trilhão [R$ 5,6 trilhões]”, afirma Ives, da Wedbush, cuja empresa elevou o preço-alvo das ações da Tesla para US$ 500 (R$ 2,8 mil) [o papel fechou a última semana em US$ 339 (R$ 1,92 mil)]. “Acreditamos plenamente que, com Trump na presidência, essas iniciativas agora serão aceleradas, já que a teia regulatória federal que Musk enfrentava nos últimos anos em relação à direção autônoma será consideravelmente reduzida.”
Vantagens para SpaceX, Starlink e xAI
A SpaceX também vem se beneficiando do novo governo. O Departamento de Justiça retirou um processo contra a empresa por se recusar a contratar certos imigrantes. O Conselho Nacional de Relações Trabalhistas, que havia processado a SpaceX em janeiro de 2024 por demitir injustamente oito funcionários que escreveram uma carta criticando Musk, abandonou o processo em abril. Uma ex-presidente do conselho de relações trabalhistas criticou duramente a decisão. “Essa mudança de curso é extremamente incomum e representa uma grande derrota para os trabalhadores da SpaceX – mais uma tentativa bem-sucedida da empresa de atrasar e obstruir os esforços de seus funcionários por representação sindical”, disse Lauren McFerran, hoje pesquisadora sênior da Century Foundation.
Antes mesmo do retorno de Trump à Casa Branca, a SpaceX já era uma das principais contratadas do governo dos EUA – e agora está prestes a receber ainda mais. Atualmente, a empresa detém quase US$ 16 bilhões (R$ 91 bilhões) em contratos ativos com o governo federal, incluindo US$ 6 bilhões (R$ 34 bilhões) concedidos pelo Departamento de Defesa apenas no mês passado. Segundo o relatório dos democratas da Câmara, a SpaceX é apontada como “favorita” para participar da construção do “Domo de Ouro”, sistema de defesa idealizado por Trump e estimado em US$ 175 bilhões (R$ 996 bilhões) ao longo de três anos.
Um oficial do Departamento de Defesa disse à Forbes que, por ora, não há anúncios sobre futuros contratos relacionados ao projeto. “Como a SpaceX pode ganhar contratos governamentais, a relação de Musk com a administração é vantajosa”, diz Gil Luria, analista da D.A. Davidson.
A Starlink, responsável por cerca de dois terços da receita estimada de US$ 13,1 bilhões (R$ 74,5 bilhões) da SpaceX no ano passado, também tem recebido ajuda direta do governo Trump. Segundo o Washington Post, o Departamento de Estado e embaixadas americanas têm pressionado outros países a remover barreiras para operadoras de satélite dos EUA, mencionando a Starlink nominalmente.
O secretário de Estado Marco Rubio tem instruído autoridades a defender a liberação regulatória para a empresa. De acordo com a ProPublica, organização jornalística americana sem fins lucrativos, diplomatas americanos têm pressionado países africanos a acelerar licenças para a Starlink e promovido encontros entre representantes da empresa e líderes estrangeiros.
Nos Estados Unidos, a Starlink pode fechar um novo contrato com a Administração Federal de Aviação (FAA). A agência iniciou testes com a empresa em março, como parte de um projeto piloto voltado à modernização da infraestrutura de segurança aérea. A FAA confirmou que os testes estão sendo realizados no Alasca, Oklahoma City e Atlantic City, e que outras tecnologias – como fibra óptica e conexões móveis – também estão sendo avaliadas.
Já a xAI, startup de IA de Musk responsável pelo modelo de linguagem Grok, está se posicionando para atender ao governo americano. Segundo o site The Information, a empresa está desenvolvendo soluções voltadas ao setor público, com base em dados fornecidos por agências governamentais. De acordo com a Reuters, o DOGE já utiliza o Grok em suas atividades e vem incentivando o Departamento de Segurança Interna a fazer o mesmo – o que o órgão nega.
A xAI, que está construindo um supercomputador em Memphis, também pode ser beneficiada pelo enfraquecimento da Agência de Proteção Ambiental (EPA), que iniciou o maior processo de desregulamentação da história dos EUA. No ano passado, a EPA passou a investigar o uso de turbinas a gás pela xAI sem as licenças adequadas, violando a Lei do Ar Limpo. A EPA informou à Forbes que ainda está analisando o caso.
Empresas menores de Musk também se saem bem
Até as empresas menores de Musk parecem se beneficiar do novo cenário. Em janeiro, como parte de uma onda de demissões de inspetores-gerais do governo, Trump exonerou Phyllis Fong, que liderava a auditoria do Departamento de Agricultura. Seu gabinete investigava a Neuralink, empresa de implantes cerebrais de Musk, por maus-tratos a animais, segundo a Reuters, que confirmou que a apuração ainda estava em curso na época.
A Boring Company, empresa de escavações de Musk, ainda não completou projetos relevantes desde sua fundação, em 2017, exceto um túnel em Las Vegas. Mas está em negociação com a Administração Ferroviária Federal para participar de um projeto da Amtrak de US$ 8,5 bilhões (R$ 48,3 bilhões), segundo o New York Times. Um porta-voz do Departamento de Transporte (DOT) afirmou que ainda não há decisões sobre os contratos e que “a Amtrak, em coordenação com o DOT, seguirá os procedimentos padrões de licitação”.
Durante a visita de Trump ao Oriente Médio, na semana passada, Musk o acompanhou – e de lá saíram acordos comerciais. A Arábia Saudita concordou em adotar a Starlink em seus setores marítimo e aéreo, e Abu Dhabi – que anunciou em fevereiro um projeto de túneis com a Boring Company – afirmou que realizará um ensaio clínico com a Neuralink.