Poucas empresas já receberam projeções tão ambiciosas quanto a SpaceX. Em um relatório de quase 300 páginas, o BTG Pactual estima que a companhia fundada por Elon Musk poderá elevar sua receita anual de US$ 18,7 bilhões, registrados em 2025, para US$ 1 trilhão até 2031, um crescimento superior a cinquenta vezes em apenas seis anos.
Mais do que uma fabricante de foguetes, a instituição enxerga a SpaceX como uma empresa que está construindo a infraestrutura física da próxima onda da inteligência artificial. Na avaliação do banco, os lançamentos espaciais são apenas a base de um ecossistema muito maior, formado pela rede de internet via satélite Starlink e, futuramente, por data centers instalados em órbita.
Foi com essa tese que o BTG iniciou a cobertura da companhia com recomendação de compra e preço-alvo de US$ 225 (R$ 1.161) por ação. Para chegar ao valuation, os analistas utilizaram um modelo de fluxo de caixa descontado projetando cada unidade de negócios até 2036.
A inteligência artificial responde pela maior parte desse valor. Segundo o banco, 59% do preço-alvo está ligado aos negócios de IA, enquanto a conectividade representa 37%. O segmento espacial, apesar de dar nome à companhia, responde pelos 4% restantes.
A projeção pode parecer ousada, mas parte de uma premissa simples: para o BTG, a SpaceX deixou de competir apenas com empresas aeroespaciais e passou a disputar mercados muito maiores, capazes de movimentar trilhões de dólares nas próximas décadas.
“Toda tese de investimento que escrevemos acaba se reduzindo a duas perguntas: qual o tamanho do prêmio e quão defensável é a posição da empresa para capturá-lo”, afirmam os analistas no relatório The Widest Moat in the Universe.
Na visão do banco, poucas empresas conseguem responder positivamente às duas perguntas ao mesmo tempo. A SpaceX seria uma exceção porque combina um mercado potencial gigantesco com uma vantagem competitiva construída ao longo de mais de duas décadas.
Segundo a instituição, essa posição permite que os foguetes deixem de ser o produto final da companhia para se tornarem a infraestrutura que sustenta negócios muito mais rentáveis, como internet via satélite, computação em nuvem e inteligência artificial.
A estimativa do BTG é que a receita da companhia alcance US$ 1 trilhão anuais até 2031. Desse total, US$ 691 bilhões viriam da infraestrutura de inteligência artificial, US$ 243 bilhões da divisão de conectividade e US$ 23 bilhões dos lançamentos espaciais.
O dado resume a principal mudança na forma como o banco enxerga a empresa: os foguetes continuam sendo essenciais, mas deixam de ser o principal negócio.
Como resumem os próprios analistas, “Rockets are means, not ends”, ou seja, os foguetes são um meio, não um fim.

Vantagem invisível?
O centro da tese do banco brasileiro é o chamadomoat, ou “fosso competitivo”, construído pela SpaceX ao longo de mais de duas décadas no mercado de lançamentos espaciais. Segundo os autores do estudo, a vantagem da companhia não está apenas na tecnologia, mas principalmente na experiência acumulada.
“O fosso não é apenas tecnológico, mas também operacional. Ele está embutido em milhares de decisões de engenharia, centenas de campanhas de lançamento e uma cadência que os concorrentes ainda não conseguiram replicar”, afirma o relatório.
Esse diferencial começou a ganhar escala em 2010, quando o primeiro voo do Falcon 9 reduziu o custo para colocar um quilo em órbita para cerca de US$ 2.700 (R$ 13.936) – 85% abaixo da média histórica da indústria, então próxima de US$ 18.500 (R$ 95.491). Um dos fatores por trás da queda foi a capacidade de recuperar e reutilizar o primeiro estágio do foguete, componente responsável por 60% do valor total da missão. Atualmente, alguns desses propulsores já ultrapassaram 30 voos.
Na avaliação do BTG, porém, a reutilização dos foguetes não deve ser vista como uma inovação isolada. Ela funciona como uma curva de aprendizado que se fortalece a cada lançamento.
Em 2019, quatro anos após o primeiro pouso bem-sucedido de um propulsor, a SpaceX realizou 13 missões da família Falcon. Foram 25 em 2020, 31 em 2021 e 165 lançamentos comerciais em 2025, quase um voo a cada dois dias. Ou seja, mesmo que um concorrente dominasse hoje a reutilização de foguetes, “ainda estaria pelo menos uma década atrás da SpaceX em repetição operacional, conhecimento sobre recuperação e reforma dos veículos, aprendizado com falhas, otimização da cadeia de fornecedores, dados de voo e ritmo de lançamentos”, aponta a pesquisa.
No ano passado, a SpaceX realizou 165 lançamentos comerciais, nove vezes mais do que a Rocket Lab, segunda colocada entre as empresas privadas, com 18 missões. A Arianespace fez sete lançamentos, a United Launch Alliance seis e a Blue Origin apenas dois. Mesmo o programa espacial chinês, que reúne dezenas de veículos estatais e privados, somou cerca de 90 lançamentos no período – pouco mais da metade do total da empresa de Elon Musk.
Na prática, a liderança transformou a SpaceX na principal porta de acesso ao espaço. Segundo o BTG, a empresa respondeu por mais de 80% de toda a massa colocada em órbita no mundo nos últimos anos e já tem a agenda de lançamentos comerciais da família Falcon totalmente preenchida até 2029.
Os especialistas do banco comentam que é justamente essa posição dominante que permite à empresa usar os foguetes não como seu negócio final, mas como a infraestrutura para desenvolver mercados muito maiores, como a internet via satélite e a inteligência artificial.
O próximo salto
Se o Falcon 9 permitiu à SpaceX reduzir drasticamente os custos de acesso ao espaço, o BTG acredita que oStarship pode representar uma mudança ainda maior. O veículo de próxima geração é descrito no relatório como “o fator mais importante para o desenvolvimento dos negócios da SpaceX no curto e médio prazo”.
Com 124 metros de altura, ante 70 metros do Falcon 9, e 8.240 toneladas de empuxo na decolagem, o Starship foi projetado para ser reutilizável. A ideia é que tanto o propulsor quanto a nave superior possam voltar à Terra e voar novamente, repetindo o modelo que transformou o Falcon 9 no foguete mais utilizado da história.
Para o BTG, é isso que pode levar o custo para colocar cargas em órbita a um novo patamar. A projeção do banco é de que o valor caia para US$ 200 (R$ 1.032) por quilo, uma redução de aproximadamente99%em relação à média histórica da indústria. Nesse cenário, o Starship deixaria de ser apenas um foguete mais barato para mudar a própria economia do setor, tornando viáveis projetos que hoje ainda são considerados caros demais para sair do papel.Os analistas ponderam que o sucesso do programa será medido pela capacidade de transformar a tecnologia em uma operação rotineira.
O cronograma do banco prevê uma sequência de marcos importantes. O voo 12, realizado em maio deste ano, marcou a estreia da versão V3 da espaçonave e incluiu um teste relevante do escudo térmico.
Em 2026, a expectativa é pelo primeiro lançamento dos satélites Starlink V3, pela primeira captura da nave pela torre de lançamento e pela entrada em operação da base de Cabo Canaveral. Já em 2027, a meta é alcançar a reutilização rotineira dos dois estágios do veículo – e não apenas do propulsor, como ocorre hoje.
A máquina de caixa
Atualmente quem gera caixa para a SpaceX é aStarlink, a divisão de internet via satélite. Segundo o BTG, a empresa opera uma constelação com mais de9 mil satélites de banda largae 650 satélites de conexão direta para celulares, o equivalente a aproximadamente75% de todos os satélites ativos em órbita. A rede já atende mais de10,3 milhões de clientesemmais de 160 países.
O BTG estima que a operação de conectividade tenha faturadoUS$ 11,4 bilhões (R$ 58,84 bilhões) em 2025, dos quaisUS$ 7,2 bilhões (R$ 37,16 bilhões)vieram de consumidores e pequenas empresas eUS$ 3,5 bilhõesde contratos corporativos e governamentais. Ao mesmo tempo, o negócio se tornou mais rentável. A margemEbit (medidor da lucratividade operacional)deve atingir quase40%, ante26%registrados em 2024. No entanto, para o banco, a Starlink ainda está longe de atingir seu potencial.
O relatório calcula que em torno de 1 bilhão de domicílios no mundo continuam sem acesso adequado à internet de banda larga. A participação da empresa nesse mercado ainda é inferior a 1%.
Na aviação, a companhia atende apenas5%de um mercado potencial de50 mil aeronaves. Já no setor marítimo, o público-alvo ultrapassa100 mil embarcações, entre navios comerciais, pesqueiros, cruzeiros e embarcações privadas.
O BTG também vê potencial naStarlink Mobile, serviço que conecta celulares diretamente aos satélites. A operação já conta com parcerias firmadas commais de 30 operadorasemmais de 100 países, incluindoT-Mobile,RogerseKyivstar. Em pouco mais de um ano, a base de dispositivos conectados saltou de praticamente zero para cerca de7 milhões.

De acordo com o BTG, dois acontecimentos devem acelerar a próxima fase desse negócio. O primeiro é a aquisição dos ativos de espectro daEchoStar, em uma transação deUS$ 19,6 bilhões (R$ 100,93 bilhões), prevista para ser concluída em2027. O segundo é a entrada em operação dos satélitesMobile V2, que devemquadruplicar o número de feixes de comunicação por satélitee ampliar em cerca de50%a capacidade de transmissão de dados.
Se esse cenário se confirmar, a Starlink deixará de ser apenas a principal fonte de caixa da SpaceX para se tornar um dos maiores motores de crescimento da companhia. O relatório projeta que a receita da divisão de conectividade salte deUS$ 17,8 bilhões (R$ 91,66 bilhões) em 2026paraUS$ 243 bilhões (R$ 1,2 trilhões) em 2031, impulsionada tanto pela banda larga quanto pela conectividade móvel.
Nesse cenário, a banda larga responderia porUS$ 125 bilhões (R$ 643 bilhões)da receita, enquanto a telefonia via satélite adicionaria outrosUS$ 118 bilhões (R$ 607 bilhões).
Aposta na IA
A instituição financeira projeta que a receita de inteligência artificial salte de US$ 18,3 bilhões (R$ 94,24 bilhões) em 2026 para US$ 741 bilhões (R$ 3,8 trilhões) em 2031, um crescimento médio anual de mais de 100% no período.
A fusão com a xAI, concluída em fevereiro deste ano, uniu a SpaceX aos modelos Grok e, mais recentemente, à plataforma de programação Cursor, adquirida em junho por US$ 60 bilhões (R$ 308 bilhões) em uma transação paga em ações.
Ainda no primeiro trimestre deste ano, a empresa operava cerca de 1 gigawatt de capacidade de data center distribuída entre os clusters Colossus 1 e Colossus 2. Segundo o relatório, a companhia já assinou contratos de fornecimento de capacidade computacional com a Anthropic e o Google. O contrato com a Anthropic gera US$ 1,25 bilhão (R$ 6,44 bilhões) em receita mensal, enquanto o acordo com o Google soma aproximadamente US$ 920 milhões (R$ 4,7 bilhões) por mês.
Os analistas notam que ambos os contratos podem ser cancelados por qualquer uma das partes mediante aviso prévio de 90 dias, o que, segundo eles, reflete mais a escassez atual de capacidade de processamento do que uma condição contratual permanente.
Data centers em órbita
A grande aposta de longo prazo da SpaceX, porém, está fora da Terra. A empresa já testou inferência de inteligência artificial em órbita e mira o primeiro lançamento de um satélite de computação dedicado, batizado de AI1, em 2028. O equipamento é projetado com um painel solar de 150 quilowatts, um módulo de computação central e cerca de 110 metros quadrados de radiadores líquidos para dissipar calor no espaço, com envergadura total de 70 metros quando totalmente aberto.
A lógica é que um data center orbital elimina boa parte da estrutura de custos de uma instalação terrestre. A energia solar é quase gratuita e mais constante em órbita, o resfriamento dispensa sistemas de ar-condicionado e não há gasto com aquisição de terrenos ou licenciamento. No entanto, o modelo só funciona, para o BTG, se o custo de lançamento cair na velocidade projetada pelo Starship.

Cada satélite de computação deve adicionar 7 megawatts de capacidade, o que significa que cada gigawatt de capacidade orbital vai exigir aproximadamente 145 lançamentos do Starship. Para cumprir a meta de expansão prevista no modelo do banco, a SpaceX precisaria realizar milhares de lançamentos por ano a partir do fim da década.
Os analistas também apontam riscos técnicos no caminho, entre eles o fornecimento de chips, já que 15% das GPUs costumam precisar de algum reparo logo no início de vida útil, algo inviável para um satélite em órbita, e a própria capacidade de dissipação de calor em escala.
Para tentar resolver o gargalo de semicondutores, a SpaceX criou o projeto Terafab, um consórcio com a Tesla que, segundo reportagens citadas no relatório, pode ainda contar com parceria da Intel e participação da ASML. O banco estima gastos de US$ 225 bilhões (R$ 1,15 trilhões) da SpaceX no projeto até 2031, chegando a US$ 450 bilhões (R$ 2,3 trilhões) somando a contribuição da Tesla.
Riscos e o fator Musk
Apesar do grande otimismo, há riscos que podem comprometer o decorrer do caminho. O principal deles é a dependência da companhia em relação aElon Musk. Para os autores da pesquisa, poucas empresas na história do mercado acionário estiveram tão ligadas à figura de seu fundador. Por exemplo, uma eventual saída do empresário poderia provocar uma destruição de valor “sem precedentes”, já que parte relevante do prêmio atribuído às ações está diretamente associada à sua liderança e capacidade de execução.

O banco também destaca outros pontos de atenção, como a capacidade da SpaceX de transformar oStarshipem uma operação totalmente reutilizável, a viabilidade econômica dos futurosdata centers em órbita, os potenciais conflitos de interesse decorrentes da crescente integração com outras empresas do ecossistema Musk, como aTesla. Além de riscos geopolíticos, gargalos na cadeia de suprimentos e desafios relacionados ao aumento da quantidade de satélites em órbita.
Outro fator que pode trazer volatilidade às ações é o fim gradual do período delock-up após a abertura de capital. Esse é o momento em que os acionistas originais de uma empresa passam, aos poucos, a poder vender as ações que estavam temporariamente bloqueadas desde o IPO, aumentando a oferta de papéis no mercado e podendo pressionar o preço da açãoapós a abertura de capital.
Segundo o BTG, o volume de papéis que será liberado para negociação nos próximos doze meses equivale a cerca de20 vezeso total negociado no IPO. Mesmo que boa parte dessa participação permaneça nas mãos de Musk, que controla aproximadamente48,7%da companhia, a expectativa é de um aumento na oferta de ações ao longo desse período.
Ainda assim, os analistas consideram que a relação entre risco e retorno continua favorável. “Há empresas com vantagens competitivas extraordinárias, mas em mercados menores. Há também empresas expostas a mercados gigantescos, mas com barreiras competitivas mais fracas. A SpaceX é rara porque reúne as duas características”, conclui o relatório.