O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) referente a junho foi divulgado nesta quinta-feira (10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados mostraram recuo no grupo de Alimentos e Bebidas, o que compensou o acréscimo registrado na energia elétrica, mas foi insuficiente para conter a alta de 0,24% no período. No acumulado dos 12 últimos meses, a inflação avançou 5,35%, acima da meta de 3% estabelecida pelo Banco Central (BC), com margem de erro de 1,5 ponto percentual (p.p.) para cima ou para baixo. Os resultados ficaram acima até das expectativas da pesquisa da Reuters, que apontava altas de 0,20% na comparação mensal e de 5,32% em 12 meses.
O Brasil adotou a meta contínua de inflação — ou seja, todos os meses deve ser dentro do teto estipulado — neste ano, prevendo que o BC deverá se explicar ao governo se o alvo for descumprido por seis meses consecutivos. A autoridade monetária vai divulgar carta aberta ao presidente do Conselho Monetário Nacional às 18h (horário de Brasília). Nela, a autarquia precisa divulgar publicamente as razões do descumprimento, detalhando as causas, as medidas necessárias para assegurar o retorno da inflação aos limites estabelecidos e o prazo esperado para que as medidas produzam efeito.
Alimentos e tarifas
Depois de provocar preocupações no início do ano, os preços Alimentação e Bebida, com forte impacto no bolso das famílias, recuaram 0,18%, marcando a primeira queda em nove meses, depois de alta de 0,17% no mês anterior. A alimentação no domicílio caiu 0,43% em junho, com quedas nos preços de ovo de galinha (6,58%), arroz (3,23%) e frutas (2,22%). Já a alta da alimentação fora do domicílio desacelerou para 0,46%.
“Após nove meses de taxas positivas, a alimentação caiu devido à maior safra e oferta de produtos relevantes”, disse Fernando Gonçalves, gerente do IPCA no IBGE.
O arrefecimento, no entanto, pode cair por terra. Já que na noite de quarta, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estabeleceu uma taxa de 50% sobre as exportações brasileiras, que podem afetar produtos alimentícios — 1/3 do café consumido nos EUA vem do Brasil, assim como mais da metade de todo o suco de laranja vendido em território americano.
“Em tese, pode aumentar a oferta de produtos aqui como café e laranja, mas temos que aguardar porque outros mercados podem ser abertos para esses produtos brasileiros”, comentou o gerente do IBGE.
Energia e Serviços
Em junho, por outro lado, os custos da energia elétrica residencial dispararam 2,96%, uma vez que as contas de luz tiveram bandeira tarifária vermelha patamar 1 no período, o que implica cobrança adicional de R$ 4,46 a cada 100 kW/h consumidos. Essa bandeira seguirá em julho, conforme decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
“Com alta de 6,93% no primeiro semestre do ano, a energia elétrica residencial tem pesado no bolso das famílias. Esta variação é a maior para um primeiro semestre desde 2018, quando foi de 8,02%”, destacou Gonçalves.
Com isso, o Grupo Habitação passou a mostrar avanço de 0,99% nos preços, embora tenha desacelerado ante a taxa de 1,19% de maio.
Já o grupo dos Transportes registrou alta de 0,27% , após recuo de 0,37% em maio, e também pesou no resultado do IPCA. Mesmo com a queda de 0,42% dos combustíveis, as elevações de 13,77% no transporte por aplicativo e de 1,03% no conserto de automóvel impulsionaram o avanço. Já a passagem aérea registrou acréscimo de 0,80% em junho, depois de queda de 11,31% em no mês anterior.
A inflação de serviços segue como ponto de atenção, dada a resiliência do mercado de trabalho no Brasil e a renda elevada. Em junho, a alta dos preços de serviços chegou a 0,40%, de 0,18% em maio. Contribuíram para esse resultado os avanços da passagem aérea e do transporte por aplicativo, além da alimentação fora do domicílio.
O índice de difusão, que mostra o espalhamento das variações de preços, teve no período queda de 54%, ante 60%, marcando o menor nível desde julho de 2024 (47%). Entre os alimentícios, o índice caiu de 60% para 46% e entre os não alimentícios, manteve-se a taxa de 60%.
Alta, apesar da política monetária restritiva
O Banco Central elevou no mês passado a taxa básica de juros Selic em 0,25 ponto percentual, a 15% ao ano, considerando que ela deve permanecer inalterada por “período bastante prolongado”. A autarquia volta a se reunir no final de julho.
“Para o início do ciclo de cortes dos juros serão necessárias novas leituras nessa direção (de acomodação da inflação), com a continuidade da melhora do qualitativo, mas, principalmente, sinais de que a atividade e o mercado de trabalho estão sentindo os efeitos dos juros”, avaliou André Valério, economista sênior do Inter.
“Esperamos que esses sinais sejam mais evidentes ao longo do terceiro e quarto trimestre, potencialmente criando condições para o Copom iniciar o ciclo de cortes na reunião de dezembro”, afirmou.