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Tarifaço: Brasil Demorou a Entender Que a Dinâmica Mundial Mudou, Aponta Solange Srour, do UBS

Economista vê uma nova tendência nas relações diplomáticas, com a política falando mais alto que a economia

6 min

Sob ameaça tarifária dos EUA desde 9 de julho, o Brasil até tentou negociar com o presidente americano, Donald Trump, a respeito da sobretaxa de 50% sobre seus produtos, mas sem sucesso. Na quarta-feira (31), Trump assinou uma ordem executiva que estabelece a nova tarifa, a definindo como uma resposta a “políticas, práticas e ações recentes do governo brasileiro que constituem uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos EUA.”

O documento menciona os julgamentos do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL) no Superior Tribunal Federal (STF) por golpe de Estado, e o que envolve as redes sociais americanas. Em junho deste ano, o órgão judiciário decidiu que elas são responsáveis pelos conteúdos postados por seus usuários e, em casos mais graves, caso não os tirem do ar antes de ordem judicial, podem responder na esfera civil. Algo que não foi bem aceito por Washington, assim como a suspensão do X pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, que é e foi relator nos dois processos.

Apesar da decisão, a medida também foi repleta de exceções que incluem itens fundamentais na relação comercial entre Brasil e EUA, como suco de laranja, aviões e petróleo, as quais equivalem a um montante de US$ 18,4 bilhões (R$ 102,49 bilhões), segundo a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), que se baseou em dados da da United States International Trade Commission (USITC) de 2024. A lista trouxe alento para o mercado e, embora o cenário se mantenha incerto, alguns analistas consideram que ela possa ser um sinal de maior abertura da parte americana para uma negociação.

Se por um lado há quem faça a leitura de que o impacto seja limitado, há setores importantes que não estão na relação, como café, frutas e carne. Além disso, há dúvidas se o conflito comercial será escalado, seja com uma resposta brasileira ou com uma intensificação americana.

Para Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, o cenário indica mudanças na forma como países se relacionam, em que o aspecto geopolítico tende a prevalecer cada vez mais sobre o econômico. Trata-se de uma nova tendência em que o Brasil e demais países precisarão se adequar, convivendo com incertezas tarifárias. “Você tem um mundo de mais risco agora”, afirma.

Com esse plano de fundo, a Forbes Brasil conversou com a diretora do banco na quinta-feira (31), um dia após o anúncio da Casa Branca. Confira abaixo os melhores momentos da conversa. As respostas foram editadas para maior concisão e clareza. 

Forbes: Qual foi a sua avaliação sobre o anúncio da Casa Branca?

Acredito que o resultado foi muito melhor do que era esperado — embora também não seja algo positivo. No entanto, praticamente metade da nossa pauta exportadora para os EUA entrou para a lista de exceções e ainda há a possibilidade de outros produtos fazerem parte dessa relação. Com isso, o impacto no Produto Interno Bruto (PIB) — que já não seria significativo — será ainda menor. Sem contar que também não deve afetar a inflação.

Isso também reduziu o risco de uma escalada no âmbito comercial, ao menos. Não vou dizer que essas ameaças tarifárias chegaram ao fim, porque isso não acontece, mas também não está escrito em pedra que essa tarifa durará por vários anos.

O governo falhou na forma como lidou com as negociações com os EUA?

Não vejo falha, mas acredito que o Brasil demorou para entender que a dinâmica mundial é diferente e isso deve permanecer por um bom tempo, com questões diplomáticas interferindo mais e mais na economia. Por isso, acredito que deveríamos ter nos posicionado de forma mais neutra — e nos mantermos assim. Em um mundo dividido, se você é neutro, consegue absorver mais investimentos e ganhar mercados melhor que seus pares, extraindo o benefício máximo para a economia do Brasil.

Apesar disso, no âmbito microeconômico, as empresas americanas e brasileiras conseguiram dialogar melhor com a Casa Branca e mostrar o quão afetadas seriam com a taxa de 50%.

Essa nova realidade, com tarifas mais limitadas, muda o cenário das projeções da economia brasileira?

Acredito que o momento econômico segue o mesmo, porque o contexto se mantém: uma geopolítica complexa, em meio a um quadro de crescimento em moderação, mas ainda robusto. Isso porque o mercado de trabalho continua aquecido, apesar da desaceleração que estamos vivenciando, com o crescimento desacelerando. Ao mesmo tempo, ele mostra resiliência e há praticamente um consenso de que o PIB avançará cerca de 2%. A inflação deve fechar em torno dos 5%, muito melhor que a previsão do início do ano de 6%, apesar de estar distante da meta. Por essa razão, a taxa de juros deve continuar alta — em 15%.

Sem contar que a incerteza fiscal do Brasil atrapalha a expectativa de queda no avanço dos preços. Pesa também o câmbio que já não está mais tão favorável no curto prazo, já que o dólar também se fortaleceu no exterior, além das incertezas globais. A tendência a longo prazo é que o aspecto geopolítico influencie cada vez mais nas variáveis econômicas e isso não é uma realidade apenas para o Brasil.

Nesse tempo, o país também dependerá da sua agilidade em fazer o ajuste fiscal e o quão forte ele será. Creio que isso aconteça em 2027, independentemente de quem vença as eleições à presidência, em 2026. O Brasil continua crescendo, porque ainda há impulso fiscal e isso eleva o juro real, é um cenário insustentável, não tem como continuar assim por muitos anos. Uma reforma fiscal será favorável até para cenários mais extremos, em que por alguma razão não consigamos atrair investimento externo. Até porque um país instável economicamente não é atrativo.

A lista de exceções indica uma abertura para negociações da parte americana?

Não necessariamente. As empresas americanas seriam muito afetadas, aumentando os custos e podendo até paralisar alguns setores em que o Brasil é o grande exportador, como o de aeronaves ou do suco de laranja. Por isso, acredito que as exceções são, na verdade, fruto da iniciativa das empresas se organizarem e mostrarem a relevância que o Brasil tem para o governo americano. Isso não quer dizer que teremos negociações mais à frente ou que tivemos algum progresso diplomaticamente falando.

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