Pequenas vinícolas familiares operam nos Estados Unidos desde antes da fundação do país, com registros de vinhos feitos a partir de uvas nativas datando de 1610, no assentamento de Jamestown. Atualmente, o vinho é produzido nos 50 estados por 10.761 vinícolas, sendo a maioria de pequenas empresas familiares. Um novo relatório sobre a indústria vinícola dos EUA revelou que seu impacto econômico alcançou US$ 323,55 bilhões (R$ 1,753 trilhão na cotação atual).
Encomendado pela Wine America, associação nacional da indústria do vinho que apoia o desenvolvimento de vinícolas e vinhedos norte-americanos por meio da defesa de políticas públicas adequadas, o relatório detalha o impacto positivo do setor e inclui também dados sobre o impacto econômico da indústria vinícola em cada estado.
“O vinho é um motor econômico saboroso que gera bilhões para a economia dos EUA”, afirmou Jim Tresize, presidente da Wine America, em entrevista online. “Ele também proporciona 1,75 milhão de empregos e US$ 102,14 bilhões em salários anuais. Além disso, gera US$ 53,24 bilhões em impostos. Em outras palavras, o vinho é ouro líquido.”
O relatório, elaborado pela empresa de pesquisa econômica John Dunham & Associates examina o impacto direto do cultivo de uvas e da produção de vinhos e também avalia o efeito sobre fornecedores e os benefícios locais decorrentes dos gastos dos empregados com seus salários.

L’Ecol
Até agora, a Wine America realizou três estudos desse tipo, e Jim explica que o motivo do investimento é acompanhar as tendências do setor em diversas áreas, além de informar legisladores sobre o valor do vinho, da videira à taça.
“As pessoas costumam imaginar a indústria do vinho como um passeio romântico por um vinhedo exuberante, com uma taça de elixir em um dia ensolarado. É um negócio muito desafiador, e a grande maioria das vinícolas norte-americanas são pequenas fazendas familiares”, explicou. “Quando se trata de vinho, os consumidores apreciam aroma, buquê e sabor. Os legisladores valorizam empregos, salários e impostos. Estamos tentando oferecer o que eles valorizam.”
Muitas Pequenas Vinícolas Norte-Americanas Prosperam Enquanto Outras Enfrentam Dificuldades
O relatório foi publicado em um momento oportuno, já que o volume de vendas de vinho no mercado dos EUA caiu nos últimos anos, embora a receita total, incluindo o vinho importado, tenha alcançado US$ 109 bilhões em 2024.
“Estou na indústria do vinho há 43 anos e hoje enfrentamos a combinação mais intimidadora de desafios de todos os tempos: mudanças climáticas (incêndios florestais, inundações, geadas), mudanças geracionais nas atitudes e no consumo, guerras tarifárias criando incertezas, redução de verbas para pesquisa agrícola, possíveis alterações nas diretrizes alimentares, cortes no quadro regulatório do TTB, legalização da cannabis, movimentos antialcoólicos, propostas de aumento de impostos sobre o álcool e mais”, afirmou Jim.
O relatório ajuda a contextualizar como, apesar dos muitos desafios, alguns pequenos negócios vinícolas familiares têm sucesso, enquanto outros lutam para sobreviver.
“Pelo que vejo no setor, a queda nas vendas ocorre principalmente nos vinhos produzidos em grande escala e de baixo custo vendidos em supermercados”, explicou Jim. “A maioria das vinícolas norte-americanas, espalhadas pelos 50 estados, são pequenas empresas familiares cuja sobrevivência e prosperidade dependem da venda direta aos consumidores, seja na sala de degustação, por clubes de vinho ou de outras formas.”
Essa ideia é apoiada pelo relatório SVB Direct-to-Consumer Wine 2025, que mostra que vinícolas que realizaram 60% ou mais de suas vendas por meio de DtC (direct-to-consumer) foram lucrativas, enquanto aquelas com menos de 40% não foram.
Impacto das Tarifas na Indústria de Vinhos dos EUA
Sobre o impacto das tarifas na indústria vinícola norte-americana, Jim manifestou preocupação com a situação.
“As tarifas costumam ser prejudiciais para o vinho, especialmente para as pequenas vinícolas. Primeiro, elas nunca são de mão única; sempre há retaliação, então tarifa gera tarifa. Além disso, aumentam artificialmente os preços para os consumidores, muitas vezes reduzindo as vendas, algo que as pequenas vinícolas menos podem suportar”, afirmou.

Ele citou a situação com o Canadá, que embargou os vinhos norte-americanos após a primeira rodada de tarifas impostas a eles em abril de 2025.
“Assim, esses vinhos embargados (avaliados em US$ 1,1 bilhão) voltaram para os EUA, ocupando espaço nas prateleiras de lojas e nas cartas de vinhos de restaurantes, onde pequenas vinícolas de outros estados poderiam ter uma chance. Mesmo que essa situação seja resolvida em breve, o dano já está feito e levará muito tempo para ser revertido”, afirmou.
O Futuro da Indústria Vinícola Norte-Americana
Mas Jim tem uma visão para o futuro do setor, e sua resposta é muito otimista. “Brilhante!”, exclamou. “Crise é igual a oportunidade. Ao longo de minhas quatro décadas, vi muitos ciclos de altos e baixos e reviravoltas dramáticas.”

Ele citou como a febre do white zinfandel criou a nova categoria de vinhos rosados e abriu novos segmentos de consumidores nos anos 1980, quando a indústria estava em dificuldades. Falou também de como a exibição do programa 60 Minutes da CBS sobre “O Paradoxo Francês” mudou a percepção dos consumidores sobre o vinho tinto para positiva nos anos 1990, quando os movimentos antialcoólicos estavam reduzindo as vendas.
E de que maneira, quando a indústria vinícola de Nova York enfrentava uma crise econômica, um conjunto abrangente de leis inovadoras reverteu a situação, fazendo com que o setor de uvas e vinhos se tornasse rapidamente a parte de crescimento mais acelerado da grande indústria agrícola e turística do estado.
“Se usarmos nossa imaginação e aprendermos coisas novas, sairemos mais fortes. O segredo do sucesso: não apenas chore. Faça alguma coisa!”, diz ele.

Ele acrescentou que o vinho faz parte da cultura humana há 8.000 anos como alimento líquido, bebida de celebração, fonte de orgulho e caminho para a amizade e o romance. Também é visto como uma bebida alcoólica de moderação que aproxima as pessoas.
“As videiras são plantas resistentes, assim como as pessoas que cuidam delas. Elas são movidas por paixão, comprometimento e colaboração. Não se preocupe: continuaremos aqui”, afirmou.
