1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. Como o re.green Conquistou o Príncipe William e Faturou o ‘Oscar da Sustentabilidade’
Forbes Money

Como o re.green Conquistou o Príncipe William e Faturou o ‘Oscar da Sustentabilidade’

Conheça o modelo de negócios da empresa que faturou 1 milhão de libras e recebeu o prêmio das mãos do príncipe herdeiro britânico

8 min

Apesar de estar no mercado há menos de 5 anos, a re.green já conquistou um importante marco na sua história — o Earthshot Prize, considerado o Oscar da sustentabilidade. Criado pelo príncipe William, herdeiro da coroa britânica, a premiação tem como objetivo impulsionar soluções inovadoras contra a crise climática.

Com a COP30 sendo realizada no Brasil, em Belém do Pará, a cerimônia de premiação aconteceu em território nacional. O Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, foi o palco escolhido para o evento no último dia 5.

A companhia venceu na categoria “Proteger e Restaurar a Natureza”, superando mais de 2,8 mil concorrentes. Com a conquista, a re.green se tornou a primeira empresa brasileira a ganhar o prêmio, além de receber 1 milhão de libras (R$ 7,3 milhões) para ampliar seus projetos de regeneração florestal.

Mesmo que a sustentabilidade ainda seja uma promessa para muitas empresas, a re.green já a vê como algo concreto. De acordo com o CEO Thiago Picolo, o futuro dos negócios depende de romper com a ideia de que rentabilidade e impacto ambiental caminham em direções opostas.

Em entrevista à Forbes, Thiago Picolo conta que a escolha do formato “americanizado” para o nome re.green foi proposital. “Ter um nome que dialogasse com qualquer idioma, especialmente em inglês, a língua dos negócios, foi uma forma de projetar o alcance global que a companhia sempre buscou.”

re.green
re.greenThiago Picolo revela que o resultado da premiação foi completamente surpresa

A grafia em minúsculas, com “r” minúsculo, reflete a ideia de que o ser humano é parte de um sistema maior — a natureza.

Passos verdes

Fundada por pesquisadores, investidores e executivos liderados pelo economista Bernardo Strasburg, da PUC-Rio, a re.green nasceu no fim de 2021 com o objetivo de regenerar florestas em larga escala. A companhia atua com reflorestamento e restauração ecológica sob encomenda de firmas interessadas em compensar o impacto ambiental de suas operações.

Segundo Picolo, trata-se de um negócio intensivo em capital, que exige grandes aportes iniciais e terá um retorno de longo prazo. A empresa tem investidores pesos-pesados. Dentre eles o documentarista João Moreira Salles, da família controladora do Itaú Unibanco, além da Gávea Investimentos, do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga.

A re.green adquiriu a primeira área, no sul da Bahia, no município de Onápolis. Depois, uma muda foi plantada em outubro de 2022. “Nós compramos as primeiras terras em maio de 2022 e, até outubro, ficamos preparando o terreno, desde a parte de licenças até as cotações com fornecedores, passando pela preparação do solo”, explica o executivo.

A segunda área comprada foi a primeira na Amazônia, no Maranhão, em dezembro de 2022. Atualmente, a re.green mantém contratos com gigantes como Microsoft, Nestlé e Vivo para regeneração florestal e geração de créditos de carbono.

Na re.green, a sustentabilidade e a rentabilidade andam juntas, já que para Picolo uma acaba impulsionando a outra. Porém, a empresa se posiciona como “for-profit”, ou seja, ela gera valor econômico a partir de suas atividades de restauração nas matas brasileiras.

“Restauração florestal é como infraestrutura: intensiva em capital no início e com retornos consistentes e graduais ao longo de muitos anos. É como construir uma linha de transmissão ou uma estrada, só que a gente está construindo uma floresta”, diz Picolo.

Embora tenha sido classificada como uma startup pelo prêmio Earthshot, a re.green já se considera uma empresa consolidada, com um modelo de negócios estruturado e em expansão.

Plantando e colhendo

No total, a companhia já soma em torno de 40 mil hectares restaurados na Amazônia e na Mata Atlântica, e mira 200 mil até 2030. Apenas os dois contratos firmados com a Microsoft devem resultar na recuperação de 35 mil hectares — o equivalente a quatro vezes o tamanho da cidade de Paris.

“A Microsoft foi o nosso primeiro acordo e isso foi marcante, pois até alguém se comprometer a te pagar alguma coisa, todo plano de negócio tem um pouco de ficção”, diz o CEO da re.green. Ele também comenta que o primeiro empréstimo do BNDES, pelo Fundo Clima, foi fundamental para a estrutura da empresa.

O Banco Nacional de Desenvolvimento é um parceiro importante para o setor de restauração, já que concede apoio a iniciativas de longo prazo voltadas à preservação ambiental e recuperação de ecossistemas.

A re.green foi a primeira empresa a receber uma aprovação do Fundo Clima — uma linha de R$ 187 milhões. “Isso é extremamente compatível com a natureza do nosso negócio e uma chancela importante”, diz Thiago Picolo. Na prática, a companhia realiza uma análise geoespacial para identificar as áreas mais adequadas para a restauração. Em seguida, vão a campo para formalizar a posse dessas terras.

Grande parte desses territórios são comprados, porém a re.green está começando a adotar o modelo de arrendamento — permite que a empresa use a terra de terceiros para restauração ecológica, sem a necessidade de compra. Em troca, a firma paga uma quantia acordada e assume a responsabilidade pela regeneração do solo durante o período do contrato.

“Alguns meses atrás, assinamos as nossas duas primeiras parcerias de arrendamento”, diz o CEO. Essa estratégia faz com que o proprietário precise confiar na empresa. Em outras palavras, ele não está apenas recebendo um cheque e indo embora, mas abrindo sua área para que a re.green possa implantar seu modelo. Ou seja, o dono da terra precisa acreditar que, com isso, vai ganhar mais dinheiro do que ganhava antes.

Essa alternativa também permite maior flexibilidade no processo de recuperação, sem a necessidade de aquisição imediata. Além disso, contribui para ampliar o alcance da empresa, permitindo que ela restaure um número maior de áreas sem o alto custo de aquisição de terrenos.

Metas e ambições

A principal meta é restaurar 200 mil hectares de áreas degradadas até 2030. “Queremos crescer em tamanho, em número de clientes, em equipe e aumentar a rentabilidade”, comenta o executivo da re.green. Segundo ele, desde o início, a companhia entendeu que quanto maior o impacto ambiental e científico, maior seria o retorno financeiro.

Mesmo que a empresa já esteja consolidada no mercado, Thiago explica que ela está em uma área que ainda está se estruturando. “Ao mesmo tempo que a gente cria a empresa, a gente ajuda a formatar o setor.”

Entre os desafios estão as aquisições de terras. O Brasil tem 194 milhões de hectares de pastagens, cerca de metade é considerada degradada. “Não é fácil comprar esses territórios, seja porque precisamos estar em lugares específicos, por questões de retorno financeiro ou até mesmo por titularidade. Esse processo ainda é muito analógico”, explica Picolo.

re.green
re.greenA re.green já recuperou milhares de terras brasileiras

Outro aspecto é a dificuldade na operação. A re.green tem domínio técnico-científico dos modelos, mas muitas áreas são remotas, com infraestrutura acidentadas, às vezes sem acesso a trator ou equipamentos pesados. Com isso, há o desafio de desenvolver fornecedores para ganhar escala e velocidade.

E o Oscar vai para…

Sobre o prêmio, Thiago Picolo revela que o resultado foi completamente surpresa, já que as chances eram pequenas devido ao grande número de companhias envolvidas.

“Foram várias etapas, quase um ano, envolvendo relatórios, informações, entrevistas e diligências. Fomos passando de fase e ficando mais animados. Quando chegou o anúncio dos 15 finalistas, já foi uma grande vitória”, comenta o CEO.

Assim como no Oscar, não há anúncio prévio para os vencedores ou uma pontuação em que os competidores possam ir monitorando. Nessa parte final, são cinco categorias, com três finalistas em cada, e um nome é chamado na hora.

A re.green também estava concorrendo com outras iniciativas, como o fundo TFFF, de proteção de florestas, que já levantou alguns bilhões com diferentes países, e a Tenure Facility, organização que assegura direitos de propriedade de comunidades indígenas na Indonésia, Ásia, África e Brasil.

“O prêmio é bem impactante. Como empresa, traz visibilidade, facilita parcerias, além de abrir portas com provedores de capital, bancos e fundos”, diz Picolo.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.