Por mais que a bolsa brasileira esteja renovando recordes acima da casa dos 150 mil pontos, a B3 não tem visto as empresas locais fazendo fila para tocar a tradicional campainha que marca a estreia de uma nova companhia no mundo dos mercados abertos. Mas, ao que parece, há quem esteja cortejando a Nasdaq, em uma tentativa de, quem sabe, chamar Nova York de casa.
Apesar da Nasdaq estar longe da marca dos 1 mil IPOs anuais registrada em 2021, a bolsa conhecida por ser lar das maiores empresas de tecnologia do mundo já viu mais de 300 estreias só em 2025. Na B3, o jejum já dura quase quatro anos.
Em evento realizado na capital paulista na última semana, Jay Heller, vice-presidente e chefe de Mercados de Capitais e Execução de IPOs da Nasdaq — ao lado de Todd Heinzl, cofundador e presidente da 3DOTS Capital Advisory — se mostrou otimista com o que 2026 reserva. De olho na potencial queda da taxa de juros americana e um cenário econômico global mais benigno, Heller prevê um cronograma intenso de IPOs no futuro. E, ao que tudo indica, é provável que os investidores brasileiros cruzem com alguns nomes conhecidos.
Em conversa privada com jornalistas, tanto Heller quanto Heinzl se mostraram fascinados com o ambiente de inovação e empreendedorismo do país. Perguntados sobre o apetite dos empresários brasileiros pela abertura de capital no exterior, os dois executivos evitaram dar números, mas reforçaram diversas vezes que a visita ao Brasil foi mais produtiva do que o esperado, com dezenas de encontros — além do evento principal.
“Nunca vi um pipeline [com potenciais IPOs] tão grande”, afirmou o executivo da Nasdaq. “Há empresas sediadas nos EUA ou que operam na Ásia, América Latina, Europa, conversando conosco há anos com o sonho de acessar o mercado de capitais americano. Quando chegar a hora, chegará”.
O cenário aquecido foi confirmado por Lucy Pamboukdjian, diretora Executiva de Mercado de Capitais da Abrasca (Associação Brasileira das Companhias Abertas). “A gente sabe que tem várias empresas se preparando e essas empresas estão olhando para fora também”, afirmou. “E não é porque o Brasil não é bom. [Lá] é onde o está o dinheiro, principalmente para certos setores como os voltados para tecnologia”.
Segundo os executivos, muitas das conversas com empresas ainda estão em estágios iniciais, mas a ideia da bolsa americana no país é plantar a “semente” da curiosidade, aprofundar relacionamentos e, quem sabe, colher os frutos no futuro.
“O mundo muda, os mercados mudam, os setores continuam relevantes — e a inovação dentro deles também. Queremos estar na linha de frente, conhecendo quem será ‘o prêmio’ amanhã, em cinco ou dez anos. É disso que se trata”, afirma Heller. Segundo eles, isso pode incluir até mesmo empresas que já possuem uma listagem na B3.
Enquanto a bolsa americana está em busca da próxima tacada certeira, não é muito difícil imaginar as razões pelas quais um empresário brasileiro buscaria navegar por águas internacionais.
Os Estados Unidos é o maior mercado de capitais do mundo. A Nasdaq é a bolsa mais movimentada do planeta. Com 2,8 trilhões de operações por dia, a exchange fica a frente da sua “rival” Bolsa de Nova York (NYSE), que conta com 1,2 trilhões de ordens diárias.

Inovação e juventude
Apesar do Brasil ser um país reconhecido internacionalmente pelo seu ambiente regulatório propício e pela disseminação e crescimento de diversas fintechs nos últimos anos, Heinzl vê com bons olhos outros segmentos da economia — incluindo os mais tradicionais, como agricultura e mineração.
“Gosto muito do que o Brasil faz em agricultura. Temos saúde animal, tecnologias para o campo. Água e comida estão ficando mais escassas, é um tema crucial”, afirma Heinzl. “Fintech é a ‘moeda brilhante’, chama atenção e há muitos empreendedores excelentes. Mas, olhando para frente, setores tradicionais como mineração também têm pontos interessantes, com destaque para a liderança feminina”.
Soou estranho ouvir falar de agro na Nasdaq? Heller quer que isso mude. Segundo ele, a divisão que se fazia entre empresas de tecnologia na Nasdaq e setores mais tradicionais abrindo capital na Nyse não existe mais. Teoricamente, o caminho está aberto para uma infinidade de empresas — ainda que em um cenário de dupla listagem.
O interesse no Brasil se alinha com uma série de características econômicas, como o envelhecimento da população, amadurecimento dos mercados e avanços tecnológicos. Para Heinzl, o apetite de diversos empreendedores abaixo dos 30 anos pode reconfigurar a forma de se fazer negócios.
“Fiquei impressionado com a juventude e com os produtos e inovações apresentados. Talvez tenham dito a vocês, por muito tempo, que estavam “na base da pirâmide, e subir um degrau pareça assustador”, explica o executivo da 3DOTS. “Mas os jovens pensam: ‘Vou direto ao topo para ver o que dá'”.
“Não estamos entrando no Brasil agora. Já estamos aqui há muito tempo. A questão é como elevar a parceria ao próximo nível”, conclui o VP da Nasdaq.