A Cogna (COGN3) virou o jogo em 2025. A companhia vinha de uma longa fase de reorganização interna, com números pressionados, queda de receita, endividamento e pouca confiança dos investidores. A empresa ainda sofreu em 2020 e 2021, principalmente em função dos impactos da pandemia. Em 2025, a história é outra — redução de custos, geração de caixa e avanço na renegociação de dívidas, melhorando a percepção de solvência.
As ações lideraram entre as maiores altas do ano na bolsa brasileira. A empresa de educação acumulou ganhos de mais 240%, mesmo registrando queda de 12% em dezembro.
A máxima foi influenciada pela sequência de bons resultados da companhia e da expectativa de um corte na taxa básica de juros — Selic — no primeiro trimestre de 2026. Fatores que impulsionam empresas endividadas, como a Cogna.
A Cogna também passou a mostrar maior previsibilidade de resultados, ponto central para reconquistar a confiança dos investidores. Segundo Gustavo Harada, Head de alocação da BlackBird, a companhia vinha de um período bastante difícil, marcado por forte pressão operacional e financeira.
Porém, a empresa passou a focar na redução de custos e na diminuição de ativos. Nesse processo, vendeu unidades, incluindo a alienação completa das operações de ensino básico, além do fechamento de unidades de ensino superior. “Esse movimento teve como objetivo elevar a eficiência operacional, o que, consequentemente, passou a gerar ganhos de margem e resultados crescentes”, aponta o sócio e analista da Nord Investimentos, Victor Bueno.
Para Bueno, houve um conjunto de circunstâncias que acabou formando uma espécie de “tempestade perfeita”, permitindo que os papéis subissem de forma tão expressiva ao longo do ano.
Em 2024, a empresa conseguiu apresentar sinais concretos de melhora, com avanço na eficiência operacional e uso mais controlado da alavancagem. “Com isso, investidores passaram a enxergar um potencial de recuperação, o que impulsionou uma alta expressiva das ações”, explica o Harada da BlackBird.
Com a melhora dos indicadores financeiros, o mercado passou a rever a forma como a empresa era avaliada. Esse processo levou a uma revisão dos múltiplos, afastando a ação do patamar característico de penny stock — expressão usada para papéis negociados a valores muito baixos — e aproximando sua precificação daquela observada entre outras companhias do setor.
No início de 2025, os papéis da Cogna eram negociados a níveis muito baixos, perto de R$ 1. Já para o fim de 2026, o BTG Pactual estima um preço de R$ 4 para a ação.
Menos dívida, mais caixa
Além da eficiência operacional, houve também avanços relevantes na eficiência financeira. A empresa passou a dedicar atenção especial à gestão do endividamento, por meio do liability management, que vem reduzindo a alavancagem financeira.
Victor Bueno explica que até pouco tempo atrás, a Cogna apresentava uma dívida líquida próxima de cinco vezes o Ebitda; hoje, esse indicador já caminha para perto de uma vez.
Com isso, a empresa passou a apresentar melhora nas linhas inferiores do balanço. “A redução das despesas financeiras, especialmente em um ambiente de juros mais elevados, permitiu a entrega de lucros crescentes, em ritmo bastante acelerado”, comenta Bueno.
Outro ponto importante foi a geração de caixa. A empresa reduziu o nível de investimentos (capex), o que contribuiu para o aumento da geração de caixa livre.
A geração de caixa operacional vem crescendo nos últimos trimestres. Embora no período mais recente tenha ficado praticamente estável, no acumulado do ano apresenta alta de 33%.
Com um capex mais enxuto, a geração de caixa se fortaleceu ainda mais. “Ao comparar os primeiros meses de 2025 com o mesmo período de 2024, o crescimento da geração de caixa livre foi próximo de 200%”, afirma Bueno da Nord Investimentos.
Resultados fortes
A empresa também focou no core business, contribuindo para ganhos de eficiência e para a recuperação da confiança do mercado. Harada da BlackBird avalia que a melhora operacional e o desempenho dos resultados trimestrais tiveram influência direta sobre o desempenho da Cogna em 2025.
O crescimento da receita, aliado à redução de custos, contribuiu para a melhora dos indicadores financeiros e reforçou a percepção de maior eficiência na execução. “Esse conjunto de fatores trouxe benefícios claros para a empresa e levou o mercado a adotar uma visão mais otimista em relação às ações”, comenta.
O Santander ressaltou que o desempenho da companhia no segundo trimestre de 2025, superaram as previsões do mercado, com lucro líquido de R$ 119 milhões. Os analistas do banco espanhol, Caio Moscardini e Eyzo Lima, afirmaram que as subsidiárias da Cogna, como a Kroton, impulsionaram esses resultados através de métricas operacionais e foco em soluções digitais.
Segundo eles, a Kroton apresentou números operacionais sólidos, com uma receita líquida de R$ 1,233 bilhões, um aumento de 13% em relação ao ano anterior.
A receita líquida do Ensino à Distância cresceu 7,2% ano a ano. E mesmo que a base de alunos de ensino à distância tenha caído (-2,2%), o ticket médio dessa modalidade subiu (9,6%), chegando a R$ 226.
Apesar do resultado geral forte, tiveram alguns pontos negativos, como a base total de alunos da Kroton que caiu 1,9% em relação ao ano anterior.
Já no último resultado divulgado, no dia 6 de novembro, o Bradesco BBI destacou que os números da Cogna superaram as projeções. O crescimento da receita foi de 15% em relação ao ano anterior, 2% acima das estimativas. O Ebitda também ficou 6% acima do projetado e o lucro líquido ajustado alcançou R$ 73 milhões, acima dos R$ 22 milhões esperados pelo mercado.
Na Kroton, a receita avançou 16% no período. A entrada de novos alunos cresceu 18% no ensino presencial e 6% no ensino à distância, enquanto o ticket médio teve alta de 9% e 14%, respectivamente. Já o Ebitda da unidade registrou expansão de 10% em relação ao ano anterior, também superando as projeções do Bradesco BBI.
Atualmente, as três verticais da companhia — Kroton, Vasta e Saber — vêm caminhando de forma alinhada. Embora uma cresça mais do que a outra em determinados momentos, de maneira geral, segundo os especialistas, todas têm contribuído positivamente para os resultados da Cogna.
Ajuda do cenário macro
Outro fator foi a melhora do ambiente macroeconômico ao longo do ano. A perspectiva de juros mais baixos no Brasil favoreceu empresas sensíveis ao custo de capital, como é o caso do setor educacional. Com menor pressão financeira, o mercado passou a reavaliar ativos que estavam excessivamente descontados.
Por isso, a Cogna se destacou como um dos principais casos de “turn around” da bolsa, atraindo fluxo especulativo e também investidores dispostos a assumir risco em troca de potencial de valorização.
Há também a trajetória dos juros futuros no Brasil. No fim de 2024, o mercado acionário brasileiro sofreu uma queda expressiva, em meio à elevação das taxas futuras. Em 2025, o movimento foi inverso, com recuo dos juros ao longo do ano, apesar de oscilações pontuais mais recentes.
Os juros futuros, mais do que a taxa Selic em si, refletem as expectativas do mercado e exercem forte influência sobre o comportamento da bolsa no curto prazo. “Para a Cogna, esse efeito foi ainda mais intenso por se tratar de uma small cap, com baixa liquidez e que vinha muito pressionada nos últimos anos. As ações estavam praticamente esquecidas pelo mercado e, com a recuperação dos resultados, ocorreu uma correção dos múltiplos”, diz Bueno da Nord Investimentos.
Mesmo após as altas recentes, a companhia ainda negocia a múltiplos considerados baixos, com preço sobre lucro em torno de seis vezes — abaixo da média histórica da bolsa brasileira, que gira em torno de 15 vezes.
Se os resultados atuais fossem considerados no início do ano, a ação estaria sendo negociada a múltiplos próximos de duas vezes o lucro, ou até menos, segundo Victor Bueno.
Além disso, há o nicho. “O setor educacional como um todo tem apresentado bom desempenho, muito em função de ter ficado abandonado pelos investidores nos últimos anos”, explica o analista e sócio da Nord Investimentos.
Nesse aspecto, não foi apenas a Cogna que subiu; ela liderou as altas, mas outras companhias do setor também registraram valorização, em alguns casos próxima ou superior a 100%, como Vitru e Cruzeiro do Sul.
Mais um ponto relevante foi a expansão do segmento B2G (Business to Government), que reúne contratos firmados com o setor público. Esse avanço passou a ter maior participação na receita recorrente da companhia. Com isso, a Cogna reduziu sua exposição ao ensino à distância (EAD), segmento mais sensível a mudanças regulatórias.
De acordo com Harada da BlackBird, fatores externos — como a trajetória dos juros e a melhora do cenário econômico — tiveram papel relevante e ajudaram a potencializar a valorização das ações. “Ainda assim, no caso da Cogna, o principal vetor da alta esteve nos resultados e na evolução operacional da empresa”, afirma.