As ações da Eneva chegaram a desabar quase 20% nesta terça-feira, 10, depois de a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ter apresentado nesta manhã preços teto para os leilões de reserva de capacidade muito abaixo do previsto. O preço teto é o máximo que o governo aceita pagar para contratar usinas que fiquem disponíveis para gerar energia quando o sistema precisar.
A Eneva é uma das empresas mais interessadas nos leilões. Se o preço pago for baixo, o crescimento esperado diminui, ela ganha menos com usinas atuais e pode desistir de projetos novos.
Por volta de 11h10, os papéis da companhia recuavam 17,5%, a R$ 18,10, pior desempenho com folga do Ibovespa, que cedia 0,27%. Na mínima até o momento, foram negociados a R$ 17,70 (queda de 19,3%). Às 14h, o recuo havia diminuído para 14% e os papéis eram negociados a R$ 19.
A Aneel apresentou os preços teto de R$ 1,12 milhão/MW por ano para usinas termelétricas existentes, R$ 1,6 milhão/MW por ano para novos empreendimentos termelétricos, e de R$ 1,4 milhão/MW por ano para expansão de hidrelétricas.
Os valores estão abaixo do preço mínimo de R$ 3,1 milhões/MW ano para remunerar adequadamente um projeto novo de usina termelétrica a gás com uma taxa interna de retorno (TIR) real de 10%, segundo nota do Citi enviada a clientes.
“Aos preços atuais, consideramos muito difícil para o governo recontratar (com retornos incrementais) nova capacidade esperada para satisfazer a necessidade de flexibilidade do sistema”, escreveu o Citi, em nota.
O banco acrescentou ainda que, se a Eneva recontratar sua capacidade existente ao preço máximo definido pela Aneel e não recontratar a Celse II, o preço-alvo da empresa cairia 25%, dos atuais R$ 25/ação, para R$ 20/ação.
Segundo analistas do UBS BB, os preços apresentados equivalem a R$ 182 por megawatt-hora (MWh) para novos empreendimentos termelétricos e a R$128/MWh para usinas existentes, bem abaixo da estimativa do banco de R$ 275/MWh e do consenso de mercado, que estaria entre R$ 220/MWh e R$ 300/MWh.
Em relatório a clientes, os analistas apontaram que, se confirmados os números, é algo “muito negativo” para a Eneva.
As ações da Eneva já haviam reagido negativamente na semana passada a uma mudança de regras no leilão promovida pelo governo, que reduziu custos para usinas ligadas à malha de transporte de gás, ampliando a competição ao beneficiar empresas como a Petrobras.
Leilões
O governo realizará dois grandes leilões em março deste ano para contratar mais potência de usinas termelétricas e hidrelétricas, em uma medida vista como fundamental para diminuir riscos ao suprimento de energia no país diante do aumento da participação, na matriz, de fontes cuja geração não é controlável.
A licitação é amplamente aguardada por grandes geradores termelétricos, incluindo a Âmbar, do grupo J&F, além de Eneva e Petrobras. Também é vista como uma oportunidade para geradores hidrelétricos viabilizarem expansões de suas usinas existentes, atraindo interesse de empresas como Axia Energia (ex-Eletrobras) e Copel.
Serão oferecidos no certame contratos com prazos pela disponibilidade das usinas que variam de 3 a 15 anos. Os empreendimentos deverão iniciar a entrega de potência entre 2026 e 2031, a depender do tipo de contrato vencido.