1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. Entre a Corrida por Segurança e a Especulação: o Que Está Acontecendo com o Ouro e a Prata?
Forbes Money

Entre a Corrida por Segurança e a Especulação: o Que Está Acontecendo com o Ouro e a Prata?

Indicação de Kevin Warsh para a presidência do BC americano provocou forte queda no preço dos metais

5 min

Tradicionalmente voláteis, os preços da prata e do ouro no mercado internacional apresentaram fortes solavancos no fim de janeiro.

Depois de terem batido recordes e chegarem a um máximo de US$ 117 por onça em 29 de janeiro, as cotações da prata despencaram, caindo 31% na sexta-feira (30). Os preços seguem oscilando, encerrando a terça-feira (3) a cerca de US$ 85 por onça no mercado à vista em Nova York.

Tamanha volatilidade foi provocada por um movimento especulativo durante o mês, pois aumentou a incerteza dos investidores sobre a solidez do dólar enquanto reserva de valor.

Algo semelhante ocorreu com o preço do ouro, que chegou a cerca de US$ 5,4 mil, mas recuou para US$ 4,66 mil na sexta-feira (30), encerrando esta terça-feira a cerca de US$ 4,9 mil.

O que aconteceu

Em dezembro e em janeiro, o presidente Donald Trump lançou diversos ataques contra Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central americano. Isso gerou uma desconfiança entre os investidores de que o sucessor de Powell (que deve entregar o cargo em maio) poderia ser mais complacente com a inflação, baixando os juros de modo a aumentar a popularidade de Trump.

Na sexta-feira (29), a indicação de Kevin Warsh para suceder Powell tranquilizou os investidores. Warsh é próximo do Partido Republicano, de Trump, já foi diretor do Fed e tem um perfil considerado técnico. Isso foi interpretado como garantia de que não haverá estripulias com os juros, provocando uma queda nos preços dos metais.

Com a indicação de Warsh, os investidores passaram a questionar se haverá dois, um ou nenhum corte de juros. O indicado de Trump tem um perfil mais duro (“hawkish”) e pode não adotar uma estratégia favorável à redução das taxas. Existe também a possibilidade de que, ainda que os juros sejam cortados, a baixa seja menor do que a esperada.

Após a nomeação, houve uma mudança no comportamento do DXY, índice que mede a força do dólar frente às principais moedas globais. O indicador vinha em queda acentuada até a quinta-feira (29), saindo de 95,20 pontos. Porém passou a se fortalecer novamente, avançando para a faixa entre 97 e 98 pontos. Esse fortalecimento do dólar exerce pressão negativa sobre o ouro e outras commodities.

Para Lucas Carvalho, estrategista de investimentos do Santander, o mercado ainda está digerindo essas novas informações até encontrar um novo ponto de equilíbrio. “O que observamos foram quedas em diversas commodities metálicas. Não é comum observar movimentos tão intensos em um intervalo de tempo tão curto”, diz. 

Volatilidade

O mercado reage de forma muito rápida. “Em apenas dois dias, vimos quedas expressivas. No entanto, na terça-feira já observamos uma recuperação, com o ouro subindo cerca de 6% e a prata também em alta”, diz Carvalho, do Santander. Ele destaca que apesar da queda do fim de janeiro, o movimento das commodities metálicas segue sendo estrutural e de longo prazo.

Mesmo sem a nomeação do novo presidente do Fed, a correção teria ocorrido. De acordo com o especialista do Santander, após uma alta tão expressiva, algum ajuste era natural. Isso porque o mercado de commodities reúne diferentes perfis de investidores, que vão desde aqueles com visão de longo prazo até investidores alavancados, operadores de curto prazo e day traders.

Essa combinação tende a gerar movimentos mais intensos, principalmente quando há uso de alavancagem, amplificando tanto as altas quanto as quedas. “Ainda assim, sem a nomeação, a realização de lucros provavelmente teria sido mais moderada”, afirma Carvalho.

Gustavo Trotta, especialista e sócio da Valor Investimentos, afirma que esses ativos são altamente sensíveis a fatores como taxas de juros, câmbio, incertezas econômicas e tensões geopolíticas. “A prata, em particular, demonstra maior volatilidade que o ouro, pois combina sua função como reserva de valor com uma demanda industrial maior. Portanto, oscilações de 10% a 20% em curtos períodos não são incomuns, sendo características inerentes a esse tipo de ativo”, explica.

Perspectivas

A nomeação de Kevin Warsh para a presidência do Fed ainda deverá movimentar as cotações. Por isso, suas palavras serão medidas e pesadas com instrumentos de precisão. 

Quando o Fed eleva os juros e sinaliza novas altas, isso atrai investidores e aumenta a demanda por dólares. As taxas de câmbio, então, tendem a se valorizar e os títulos do Tesouro americano, sobretudo os de médio e longo prazo, tornam-se mais atrativos. Nesse cenário, parte dos investidores migra para esses ativos em detrimento do ouro.

Embora as decisões não dependam exclusivamente de Warsh, o peso de sua opinião é relevante, especialmente quando ele não sinaliza de forma clara uma postura favorável à redução dos juros. Para Trotta, da Valor Investimentos, o mercado busca antecipar a orientação da política monetária sob a liderança do próximo presidente do Fed. “A influência dele é indireta”, aponta.

“Há pontos importantes antes da efetiva transição no comando do Fed. O discurso do presidente, a composição dos votos no comitê e a forma como as expectativas serão ancoradas terão impacto direto nos preços dos ativos”, comenta o estrategista do Santander.

Outros indicadores econômicos dos EUA, como inflação, mercado de trabalho, crescimento do setor de serviços e Produto Interno Bruto (PIB) também terão impactos nas oscilações. O Fed tem um duplo mandato, pois garante a estabilidade de preços e o máximo nível de emprego possível. Atualmente, há uma inflação que não recua com tanta força, enquanto o mercado de trabalho começa a dar sinais de enfraquecimento, tornando esse equilíbrio ainda mais delicado.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.