A Havan encerrou 2025 com o melhor desempenho de sua história, com um faturamento líquido de R$ 13,7 bilhões, alta de 16,4% sobre 2024. O lucro líquido cresceu 28,1% em 2025, avançando para R$ 3,45 bilhões, frente aos R$ 2,69 bilhões de 2024. Segundo Luciano Hang, fundador e presidente da rede varejista, o resultado deve-se a um ajuste financeiro iniciado após a pandemia.
O cenário dos últimos anos tem sido adverso para o varejo em geral devido a juros elevados, crédito mais restritivo e consumo seletivo. Além disso, o setor enfrentou pressão de custos, volatilidade cambial e concorrência de plataformas digitais e importados asiáticos. “O ano de 2025 foi difícil, começou com aumento de custo de produtos importados e com a alta do dólar, que chegou a R$ 6,20”, diz Hang. “Porém, o cenário foi melhorando ao longo do primeiro semestre e o segundo semestre foi melhor ainda”. Isso permitiu o crescimento na receita e no lucro.
O empresário defende o modelo criado há quatro décadas pela sua companhia. “Somos diferentes da concorrência, de propósito. Estamos em cidades polos do interior do país, mas não temos muito interesse em disputar mercado nas grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro”, diz ele. As próximas frentes serão as regiões Nordeste e Centro Oeste. “Ficamos impressionados com o nosso crescimento recente no Centro Oeste”, afirma.
Hang é vocal na defesa da produção nacional. A Havan surgiu em Santa Catarina, importante polo da indústria têxtil, setor que emprega 9 milhões de pessoas no Brasil. O empresário critica a entrada de produtos chineses a preço baixo. “Isso é quase um caso de polícia”, diz ele. “Fomos uma das empresas que chamou atenção do governo para o que estava acontecendo no nosso país durante a gestão Bolsonaro.” Segundo Hang, muitos empresários usaram uma brecha na legislação para trazer produtos asiáticos ao país sem pagar impostos. “Fizeram contrabando, descaminho, trouxeram produtos subfaturados e sem nota.”
Hang afirma que a situação melhorou, apesar de afirmar que os impostos ainda são desfavoráveis às empresas que importam. “Eu chamo sempre a atenção dos parlamentares e do governo que hoje está em Brasília que um país sem indústria é um país miserável”, diz ele. “O que eu mais vejo nos Estados Unidos e na Europa é o cuidado do governo com as indústrias e empresas locais. Se nós abrirmos o nosso mercado para que entrem produtos no Brasil sem pagar impostos, não há uma empresa que vai conseguir ficar de pé, especialmente no setor têxtil.”
Recuperação e expansão
Para melhorar os seus números nos anos de juros altos e alta concorrência, a Havan concentrou esforços na redução de passivo e da inadimplência e em um controle mais rigoroso na concessão de crédito. Segundo o empresário, o percentual de financiamentos com problemas chegou a 10%, mas encerrou 2025 em cerca de 2,5%. Isso não ocorreu sem esforço. “Chegamos a cortar 2 milhões de clientes desde aquela época e passamos a cuidar um pouco mais do nosso crédito nos últimos anos.”
A carteira de crédito, que já alcançou R$ 6 bilhões no ciclo de expansão acelerada, foi redimensionada. Hoje, cerca de 40% das vendas são feitas por meio do crediário próprio, abaixo dos 60% registrados no passado. A empresa optou por priorizar qualidade da carteira em vez de volume. “Tivemos de cortar o crédito e isso prejudicou um pouco as vendas”, diz Hang. “Levamos mais ou menos um ano para deixar as contas em dia.”
Isso reduziu um pouco as vendas dos eletroeletrônicos, que são mais dependentes do financiamento. No entanto, diz Hang, o aumento na venda de roupas mais do que compensou a queda. A Havan tem cerca de 350 mil itens em seu catálogo, e cerca de metade são itens de cama, mesa e banho e confecções, produtos que representam 60% do faturamento.
O empresário afirma que o esforço valeu a pena. Em 2025, a Havan conseguiu pagar suas dívidas bancárias e passou a ter dinheiro em caixa.
Geramos receita em vez de despesa. Em vez de termos de correr atrás da inadimplência, tivemos receita com a cobrança de valores passados e isso permitiu que acabássemos o ano da melhor maneira possível.
Luciano Hang
A Havan contabilizou uma receita financeira de R$ 800 milhões em 2025. Atualmente, o cartão e o financiamento direto a clientes seguem relevantes na estratégia de vendas, especialmente em cidades do interior. “Mas agora adotamos critérios mais seletivos e um acompanhamento permanente do risco”, diz Hang.
O empresário afirma que a reestruturação das finanças permitiu acelerar o processo de expansão da rede, hoje com 189 unidades. “Até dezembro de 2026 deveremos expandir a rede para 200 lojas, e a meta é que essas novas unidades respondam por 8% a 10% do faturamento”, diz. Hoje, cerca de 95% das vendas da Havan são físicas, com apenas 5% por meio do comércio eletrônico.
Uma das metas para este ano é inaugurar a primeira unidade no Ceará e a primeira unidade em Roraima, estados onde a empresa ainda não tem atividades físicas. O processo de expansão é mais lento do que Hang gostaria. “Para podermos inaugurar 15 lojas em um ano temos de ter 30 terrenos, porque a burocracia nos deixa esperando, as coisas não acontecem”, diz ele. “A demora para a liberação de alvarás é absurda.”