Caso a Ipiranga seja vendida pelo Grupo Ultra, conforme noticiado pelo colunista do Globo, Lauro Jardim, a estimativa do UBS BB, é que a distribuidora de combustível e seus negócios valha R$ 25 bilhões. O conceito aplicado é o de enterprise value, já que a Ipiranga não é listada na bolsa, mas apenas o seu controlador, o grupo Ultra. O valor de mercado (market cap) do Grupo Ultra é R$ 32 bilhões, o que faz com que a Ipiranga seja o seu maior ativo.
O valor coloca a distribuidora como a segunda maior do país, atrás da Vibra, que tem valor de mercado de R$36 bilhões e inclui o seu negócio de distribuição e a Comerc, de geração de energia renovável. Na terceira posição, fica a Raízen, que além do negócio de distribuição tem o de açúcar e etanol: seu valor de mercado é de R$ 6 bilhões.
O intuito é dar apenas uma ideia de quanto poderia valer a transação ventilada no mercado. Isso porque os conceitos de market cap e enterprise value não são totalmente comparáveis, assim como os negócios que compõem cada empresa.
O market cap é o valor da empresa na bolsa, é calculado pelo preço da ação versus oi número de ações em circulação e reflete quanto os acionistas acham que a empresa vale. Já o enterprise value é o valor total da empresa para um comprador. Ou seja, reflete quanto custaria comprar o negócio inteiro, assumindo dívidas e ficando com o caixa.
Por conta do seu porte, seria difícil para os concorrentes adquirirem a Ipiranga sem serem barrados pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Basta lembrar que em 2018 a Ipiranga tentou comprar a ALE, que é hoje a quinta maior distribuidora do país, mas o Cade barrou a operação. Portanto, faz mais sentido que empresas estrangeiras tenham interesse na Ipiranga, já que não teriam essa barreira.
Timing
O Ultra pode ser definido como alocador de capital, diz Tasso Vasconcellos, analista do UBS BB. Ou seja, é esperado que o grupo sempre esteja de olho em oportunidades de venda ou aquisição de ativos. “No preço certo, eles podem tomar alguma decisão”. Procurado, o grupo nem confirma e nem nega a informação. “A Ultrapar não comenta. Sempre que há informações relevantes, comunica o mercado, conforme regulamentação aplicável.”
Segundo o analista, o setor de distribuição de combustível vem passando por um momento muito positivo após o combate a empresas irregulares no mercado. Tanto que as ações do grupo Ultra, que tem outros negócios além de distribuição, vem sendo beneficiadas por esse momento, já que a Ipiranga é seu maior ativo. No ano passado, a ação avançou 40%.
“O governo finalmente entendeu que existiam brechas a serem fechadas e conseguiria elevar arrecadação ao inibir players irregulares”. Uma série de operações policiais foram realizadas no ano passado no setor, sendo a maior a Carbono Oculto. Essa maior segurança regulatória poderia atrair players internacionais para o segmento, mesmo que tenham se afastado do país em outros momentos, como a Texaco em 2008.
A Ultra também vem arrumando a sua casa. Desde 2022 colocou de pé um plano de reestruturação (turnaround) focado em inteligência de pricing ou competitividade; logística e distribuição; suprimentos e trading e gestão; e engajamento da rede ou engajamento por encantamento. O objetivo é manter a consistência de resultados com uma rede mais forte e saudável.
De olho em logística
Recentemente o grupo veio promovendo uma mudança relevante no seu portfólio. Vendeu entre 2021 e 2022 a Extrafarma, a ConnectCar e a Oxiteno. Ao mesmo tempo, vem se posicionando para ampliar sua atuação em logística, como fez ao investir na Hidrovias do Brasil em 2024.
Nesse contexto, uma eventual saída da Ipiranga poderia gerar a liquidez necessária para o Grupo Ultra adquirir uma participação na Rumo, que foi noticiada há dois meses, mas sem confirmação por parte da empresa até agora, ou outros ativos logísticos.