Os mercados brasileiros tiveram um pregão de forte estresse na terça-feira (3), em linha com a deterioração do ambiente externo. O dólar comercial subiu 2,08% frente ao real, após chegar a avançar quase 3% no pico do dia, refletindo a saída de recursos de mercados emergentes e a busca por proteção. O Ibovespa caiu 3,28%, tendo atingido perda de 4,64% no pior momento do pregão. A sessão foi marcada por volatilidade elevada, giro financeiro acima da média e queda disseminada entre os setores.
O pano de fundo foi a escalada do conflito no Oriente Médio, que levou investidores globais a reduzir posições em ativos de risco. O movimento foi acompanhado por forte alta do petróleo no mercado internacional. O Brent, referência global, subiu quase 9%, para cerca de US$ 84,50 o barril.
A preocupação central é o risco de fechamento do Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde passa aproximadamente 20% de toda a produção mundial de petróleo e gás. Uma interrupção relevante nessa rota comprometeria a oferta global de energia e poderia provocar novo salto dos preços.
Choque externo
A alta do petróleo reacende o temor de um novo choque inflacionário global. Energia mais cara pressiona diretamente os índices de preços e, de forma indireta, encarece transporte, alimentos, insumos industriais e serviços. Caso o barril permaneça elevado por período prolongado, bancos centrais como o Federal Reserve (FED), o banco central americano e o Banco Central Europeu (BCE) podem ser forçados a rever seus planos de flexibilização monetária.
Em vez de cortar juros, essas autoridades podem manter as taxas em patamar restritivo por mais tempo ou até interromper o ciclo de afrouxamento, caso identifiquem risco de contaminação das expectativas inflacionárias. Esse cenário fortalece o dólar globalmente, eleva os rendimentos dos Treasuries e reduz o apetite por risco.
Isso já aparece nos preços. A ferramenta FedWatch, da CME, indica que a probabilidade de manutenção dos juros americanos na faixa entre 3,50% e 3,75% na reunião deste mês é de 97%. E a probabilidade de manutenção na reunião de abril subiu de 84% na segunda-feira (2) para 87% na terça-feira (3). Há um mês, essa probabilidade era de 75%.
Moedas emergentes, como o real, tendem a sofrer com a saída de capital estrangeiro. Bolsas de países em desenvolvimento enfrentam pressão, sobretudo em setores mais sensíveis ao ciclo doméstico. Foi esse o ambiente que se refletiu no pregão brasileiro, pressionando as cotações do dólar e das ações.
Realização e incerteza
Para João Abdouni, analista da Levante Inside Corp, o movimento combina fatores externos e ajuste técnico. “O movimento de realização vem junto com incerteza global, bem como realização de lucros em mercados emergentes”, afirma. Segundo ele, investidores aproveitaram o aumento da volatilidade para reduzir exposição.
Abdouni afirma que “ainda é cedo para dizer se é um episódio pontual ou início de uma tendência mais duradoura”, ressaltando que o comportamento do petróleo será determinante. Na avaliação do analista, a pressão sobre o Brent é concreta, mas não necessariamente permanente.
“Certamente pressiona, no entanto, sabemos que um cessar-fogo pode gerar uma correção forte no Brent e reverter o movimento”, diz. Para ele, trata-se de “um momento de ir acompanhando com calma”. No campo monetário, alerta: “não diria que a Selic subiria, mas o movimento, caso se mantenha, deve atrasar e reduzir o corte da Selic por aqui”.
Risco geopolítico e juros
Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, também atribui o estresse ao avanço das tensões no Oriente Médio. “O movimento recente de queda das bolsas globais e alta do dólar está fortemente ligado à escalada do conflito”, afirma. Segundo ele, a reação é típica de momentos de incerteza geopolítica.
Ainda assim, afirma que “esse tipo de reação tende a ser mais pontual no curto prazo”, desde que o conflito não se prolongue. Para o gestor, o ponto central é a duração do choque sobre o petróleo e a cadeia de energia.
“A alta do petróleo pode pressionar inflação e juros nos EUA”, diz, observando que combustíveis mais caros afetam consumidores e empresas. No entanto, ressalta que “a magnitude dessa pressão depende crucialmente de quanto tempo os preços elevados persistirem”. No Brasil, os juros “podem subir ou permanecer elevados no curto prazo”, caso haja desvalorização cambial persistente.
Inflação no radar
Jucelia Lisboa, sócia e economista da Siegen Consultoria, enfatiza que o movimento não tem origem doméstica. “O que se vê é um movimento de aversão ao risco, com petróleo em alta, bolsas em queda e alta do dólar”, afirma. Para ela, o risco envolvendo o Estreito de Ormuz elevou as preocupações com inflação global.
Nesse ambiente, explica, há redução de exposição a ativos de risco e busca por proteção em moeda forte. No Brasil, praticamente todos os setores da bolsa registraram perdas, com destaque para bancos, varejo e empresas ligadas ao consumo interno.
Lisboa afirma que a disparada do petróleo “acende um alerta para a inflação no Brasil” e pode “reduzir o espaço para cortes mais rápidos ou mais intensos da taxa básica”, caso haja repasse relevante para combustíveis e demais preços administrados.
Movimento estrutural ou pontual?
Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest, também vê predominância do fator externo no ajuste dos ativos. “O movimento atual tem forte componente externo e está muito associado ao aumento da aversão global ao risco”, afirma. Segundo ele, “para que esse movimento se consolide como estrutural, seria necessário um fator doméstico mais profundo”, como por exemplo uma deterioração fiscal ou a perda de credibilidade na política monetária.
Sobre o petróleo, destaca que “energia e combustíveis têm impacto direto nos índices de preços e efeito indireto relevante”. Se o barril permanecer elevado, “o ciclo de flexibilização monetária pode ser adiado ou suavizado” nos Estados Unidos. No Brasil, uma alta adicional de juros “não é o cenário central”, mas pode ocorrer se houver “pressão cambial persistente” e deterioração das expectativas.