1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. Como Family Offices e Private Banks Estão Formando a Próxima Geração de Sucessores?
Forbes Money

Como Family Offices e Private Banks Estão Formando a Próxima Geração de Sucessores?

A transição de fortunas entre gerações pode ser um dos momentos mais delicados na gestão de patrimônio

7 min

Quem assiste à série “Succession”, vencedora do Emmy, provavelmente pensa que a disputa pelo controle de impérios familiares, conflitos entre herdeiros e a pressão pela sucessão só existem na ficção. Na verdade, fora das telas, a transição de fortunas entre gerações pode ser um dos momentos mais delicados na gestão de patrimônio.

Family offices e private banks vêm assumindo um papel cada vez maior na hora de preparar a próxima geração não apenas para herdar, mas para administrar, preservar e expandir capitais. Segundo especialistas consultados pela Forbes Brasil, essa “educação financeira” está começando cada vez mais cedo.

Para o Head Global do Itaú Private, Fernando Beyruti, as estratégias mais eficazes são aquelas que integram planejamento patrimonial, sucessório e educacional. “Entender a sucessão como um processo — e não como urgência — ajuda as famílias a atravessarem gerações com menos conflitos e maior preservação de valor”, comenta o executivo.

“Patrimônio multigeracional não se sustenta apenas com controle excessivo, nem com liberdade irrestrita. É necessário autonomia dentro de um arcabouço previamente definido. Cada família vai definir a elasticidade desse conceito para o seu caso específico”, afirma Luciana Guaspari de Orleans e Bragança, Head de Planejamento Patrimonial do Santander Private Banking.

Mudança estrutural

De uns anos para cá, há uma certa transição no perfil da nova geração de herdeiros em relação ao dinheiro. O Head Global do Itaú Private explica que os novos sucessores tendem a buscar propósitos, valorizar sincronia com valores pessoais e demonstrar maior interesse por classes de ativos alternativos, principalmente ligados a tecnologia, criptoativos e investimentos de impacto.

Yuri Freitas, chefe da área de planejamento patrimonial do UBS Global Wealth Management no Brasil, também aponta que há um novo movimento. “A nova geração demonstra maior preocupação e engajamento com pautas ambientais e sociais. A alocação dos recursos costuma ser feita com vistas não apenas no retorno, mas também no impacto social que os investimentos vão gerar.”

Além disso, há uma tendência de que esses herdeiros estejam sujeitos a períodos de residência em outros países com maior intensidade. “Isso traz a necessidade de compreender como as decisões de organização patrimonial interagem em diferentes regulamentações de múltiplas jurisdições”, ressalta Luciana Guaspari do Santander.

Da educação à governança

Para Fernando Beyruti, Head Global do Itaú Private, a sucessão patrimonial envolve a preparação das novas gerações para que compreendam o patrimônio, seu papel e responsabilidade associada ao legado familiar.

“Combinamos educação financeira, planejamento sucessório e acompanhamento próximo das famílias em cada etapa da vida”, afirma Beyruti. Segundo ele, o objetivo é formar sucessores conscientes, capazes de tomar decisões alinhadas ao longo prazo e aos valores da família.

Um dos principais pilares dessa estratégia é o Finance Academy, programa educacional do Itaú Private Bank voltado ao desenvolvimento de clientes e suas famílias em diferentes estágios de maturidade patrimonial. A iniciativa busca formar herdeiros ao integrar educação financeira, valores familiares e estratégias de preservação de patrimônio ao longo das gerações.

Segundo Marcos Della Manna, head de Global Wealth Services do Itaú Private, o programa conta com módulos específicos direcionados aos sucessores, adaptados à faixa etária, ao nível de conhecimento e ao grau de envolvimento com os ativos da família.

Um exemplo é a trilha Teens, que introduz conceitos básicos de educação financeira, planejamento patrimonial e visão de longo prazo. “Temos também o evento FWAG (Family Wealth Across Generations), criado em 2008. É um programa pioneiro no qual, por meio de casos práticos, buscamos conscientizar e desmistificar aspectos importantes da sucessão patrimonial”, afirma Della Manna.

Já Yuri Freitas, do UBS, afirma que a atuação do banco suíço na formação de sucessores se apoia em três pilares principais: capacitação técnica, governança familiar e construção de redes de relacionamento.

No eixo de treinamento, a instituição oferece programas voltados ao desenvolvimento dos herdeiros. Já na frente de governança, auxilia as famílias na estruturação de modelos que buscam prevenir conflitos ao longo das gerações. Por fim, o banco incentiva a inserção dos sucessores em comunidades dedicadas à próxima geração, promovendo a troca de experiências entre pares.

Yuri também explica que especialistas do banco conduzem entrevistas individuais e confidenciais com os membros da família para mapear valores, identificar possíveis pontos de tensão e alinhar a visão de futuro. A partir desse diagnóstico, é elaborado um protocolo — ou constituição familiar — que formaliza esses princípios e diretrizes.

“Após eventuais ajustes, a governança passa a ser implementada na prática, geralmente com a criação de instâncias como o conselho de família, responsável por apoiar a tomada de decisões e garantir a transparência na gestão do patrimônio. Em alguns casos, também há a participação de conselheiros independentes”, afirma Freitas.

A Head de Planejamento Patrimonial do Santander Private Banking destaca que outro fator importante é introduzir em etapas alguns conceitos de investimentos, economia, risco, diversificação, planejamento patrimonial, entre outros.

“Atualmente, contamos com 3 programas diferentes. O primeiro é individualizado por família, já o segundo é a vivência prática supervisionada. Nessa situação, inserimos os sucessores em reuniões de investimento da família, permitindo participação progressiva nas decisões. O terceiro pilar é o planejamento sucessório, no qual apoiamos as reflexões acerca da transferência patrimonial”, explica Luciana Guaspari.

Falar de sucessão não é o problema

Entre os principais erros cometidos por famílias na preparação de herdeiros está a percepção de que falar sobre sucessão pode gerar afastamento ou perda de controle. Na prática, porém, ocorre o contrário.

Segundo Marcos Della Manna, head de Global Wealth Services do Itaú Private, planejar a sucessão é um exercício de visão estratégica, que contribui para redução de riscos e continuidade do patrimônio ao longo das gerações.

Outro ponto é a tendência de associar herança apenas à transferência de recursos, sem considerar a importância de preparar os sucessores para assumir responsabilidades. A sucessão, nesse contexto, deixa de ser vista como um processo estruturado — que envolve governança, definição de papéis e capacitação — e passa a ser tratada como uma decisão pontual.

A falta de diálogo também aparece como um entrave. “Evitar conversas difíceis pode comprometer o alinhamento entre os membros da família e aumentar a probabilidade de conflitos futuros”, diz Marcos Della Manna.

O head de Global Wealth do Itaú comenta que há casos em que o foco recai exclusivamente sobre aspectos tributários, deixando em segundo plano fatores essenciais, como valores familiares, propósito e a real intenção dos envolvidos — elementos fundamentais para a sustentabilidade do patrimônio no longo prazo.

Luciana Ballesteros Cunha, CEO da empresa de educação financeira Financial Experts, aponta que outro equívoco é a crença de que a formação dentro de casa é suficiente e  a ausência de vivência prática pode comprometer a preparação dos sucessores. 

“Sem estímulos reais para tomar decisões financeiras desde cedo, herdeiros tendem a chegar à vida adulta sem autonomia, podendo resultar em erros na gestão e até na perda de patrimônio familiar ao longo do tempo”, afirma.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.