1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. Por Que a Fortuna do Narcotraficante El Mencho Deve Permanecer Fora do Alcance das Autoridades?
Forbes Money

Por Que a Fortuna de El Mencho Deve Permanecer Fora do Alcance das Autoridades?

El Mencho construiu um império criminoso com US$ 50 bilhões (R$ 261 bilhões) em ativos

7 min

No sábado (21) à noite, Nemesio “El Mencho” Oseguera desfrutava de uma estadia em uma cabana de luxo situada entre colinas em um condomínio turístico em Tapalpa, destino popular no estado de Jalisco, no oeste do México.

Porém, na manhã de domingo, um esquadrão das forças de segurança mexicanas matou a tiros o narcotraficante de 59 anos após um confronto armado que durou cinco horas. As autoridades federais localizaram o homem mais procurado do país ao rastrear os deslocamentos da amante que ele havia ido encontrar para passar o fim de semana.

El Mencho deixa para trás o Cartel Jalisco Nova Geração (conhecido como CJNG), uma das duas maiores organizações de tráfico de drogas do México, ao lado do Cartel de Sinaloa, anteriormente liderado por Joaquin “El Chapo” Guzmán, 68 anos, que cumpre prisão perpétua em um presídio nos Estados Unidos.

Ex-policial do estado de Jalisco que viveu — e chegou a ser preso — nos EUA quando jovem, El Mencho fundou o CJNG em 2009 como uma dissidência do Cartel Milenio, após as prisões e mortes de seus líderes e uma violenta disputa interna pelo poder.

Com uma combinação de eficiência organizacional e brutalidade extrema — como quando dezenas de corpos torturados foram abandonados nas ruas de Veracruz em uma noite de 2011 — El Mencho transformou sua organização em um conglomerado criminoso diversificado. Ela vai muito além do tráfico de drogas, atuando também em tráfico de pessoas, extorsão em larga escala, roubo de combustíveis e fraudes financeiras.

É provável que El Mencho fosse o narcotraficante mais rico do México no momento de sua morte. Autoridades mexicanas estimaram, em 2017, que as operações do CJNG controlavam aproximadamente US$ 50 bilhões (R$ 263 bilhões) em ativos.

Em 2019, Kyle Mori, agente da Drug Enforcement Administration (DEA) que investigou o criminoso durante anos, afirmou à Univision acreditar que a fortuna pessoal do líder do cartel estava entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão (R$ 2,63 bilhões a R$ 5,26 bilhões).

Império do crime

Nos últimos sete anos, o CJNG ampliou sua participação no mercado ilegal de drogas do México, enquanto o Cartel de Sinaloa continuava a se fragmentar e organizações regionais perdiam força.

Agora, o que acontecerá com o império criminoso bilionário de El Mencho após sua morte? As operações do CJNG provavelmente passarão para as mãos de familiares e associados próximos.

Mesmo que surja um vácuo de poder, os negócios devem continuar funcionando e gerando dinheiro. “É como se o gerente da Target ficasse doente — a Target não vai parar de operar”, afirma David Tyree, veterano da DEA com 25 anos de experiência. “Eles já estão acostumados com isso e existe demanda.”

O destino do patrimônio pessoal de El Mencho é uma questão mais complexa. De acordo com ex-agentes e promotores dos Estados Unidos que investigaram narcotraficantes e confiscaram seus bens, o líder do cartel provavelmente mantinha um vasto portfólio de investimentos — semelhante ao de um bilionário legítimo — distribuído entre contas bancárias com grandes volumes de dinheiro, carros de alto padrão, propriedades de luxo, aviões particulares, ações, criptomoedas e até empresas legais criadas para facilitar a lavagem de dinheiro.

Esses ativos estariam espalhados pelo México, pelos Estados Unidos e também por regiões da Europa e da Ásia.

“Gostaria que fosse tão simples quanto o vilão com um carro chamativo e rodas cromadas, mas é tudo muito mais diversificado”, diz Tyree. “Ele tem investimentos, hotéis e redes que geram diferentes formas de renda passiva, seja por meio de imóveis alugados ou por operações de exportação e importação de bens e serviços vindos da China e até da Europa.”

Sem rastros

Autoridades policiais dos Estados Unidos e do México, em colaboração com bancos que monitoram relatórios de atividades suspeitas, buscam localizar os ativos físicos de El Mencho — como propriedades, veículos e aeronaves — além do dinheiro do tráfico lavado por meio de bancos americanos, que as autoridades federais têm poder legal para confiscar.

O problema é rastrear o fluxo financeiro, algo que narcotraficantes costumam esconder em uma complexa rede de empresas de fachada e transações. Grande parte da estrutura financeira do cartel esteve historicamente associada ao grupo Los Cuinis, uma rede próxima liderada pelos cunhados de El Mencho e descrita pelas autoridades dos EUA como o braço financeiro do CJNG, especializado em lavagem de dinheiro e investimentos internacionais.

“Eles criam empresas de fachada, transferem o dinheiro para nomes de parentes, usam criptomoedas e recorrem à lavagem de dinheiro baseada em comércio internacional para transformar os recursos em algo aparentemente legítimo”, afirma Stefan Cassella, ex-promotor federal, que lembra de um traficante que chegou a esconder dinheiro por meio de uma fazenda de lhamas. “Não existe um único método.”

Mesmo que El Mencho tivesse sido capturado, promotores teriam dificuldade em convencê-lo a entregar sua fortuna. Em 2019, os Estados Unidos determinaram que El Chapo pagasse US$ 12,6 bilhões em restituição (R$ 66,28 bilhões) após ser condenado por diversos crimes, mas não há indicação de que o narcotraficante tenha pago qualquer valor.

Na época, sua advogada, Mariel Colon, afirmou que era “insano pensar que Guzmán teria todo esse dinheiro”. Isso não impediu as autoridades americanas de continuar rastreando os bens de El Chapo e de seus associados.

Até agora, foram confiscadas diversas mansões de luxo, carros esportivos, uma frota de helicópteros e uma coleção de joias raras — mas tudo isso representa menos de 1% do valor determinado pela Justiça.

O antigo parceiro de Guzmán, Ismael “El Mayo” Zambada, 75 anos, declarou-se culpado nos EUA no ano passado após ser extraditado pelo governo mexicano. Ele foi condenado a pagar US$ 15 bilhões (R$ 78,9 bilhões) em restituição, valor que também dificilmente será pago.

“O que o governo pode fazer? Não pode fazer nada”, diz Michael Vigil, veterano da DEA com 31 anos de carreira que passou parte da trajetória perseguindo narcotraficantes no México e na Colômbia. “Quando recebem prisão perpétua, por que cooperariam entregando esse dinheiro? Eu não cooperaria.”

Quando a fortuna vira risco

Para chefes do narcotráfico, quanto mais ricos se tornam, menos conseguem viver como bilionários despreocupados. Quando já podem comprar iates, casas de férias e jatos particulares, provavelmente já estão no radar das autoridades americanas e mexicanas.

El Mencho estava foragido no México desde 2011, quando o Ministério Público federal emitiu seu primeiro mandado de prisão. Ele conseguiu evitar a captura por tanto tempo graças à disposição de se deslocar constantemente entre cabanas em regiões montanhosas e remotas, administrando seu império por meio de ordens verbais. “Eles vivem em lugares muito precários, locais sem televisão ou acesso a médicos. A comida é simples”, afirma o ex-agente da DEA Michael Vigil. “A vida acaba se tornando muito dura para eles.”

Outros narcotraficantes e seus familiares arriscam a prisão para manter estilos de vida luxuosos. Esses criminosos utilizam passaportes falsos e identidades elaboradamente construídas apenas para continuar desfrutando da vida de luxo.

O genro de El Mencho, Cristian Fernando Gutierrez-Ochoa, fez isso em 2023, quando fingiu a própria morte, adotou um novo nome e se mudou para uma casa de US$ 1,2 milhão (R$ 6,31 milhões) em Riverside, na Califórnia. As autoridades federais o prenderam um ano depois.

El Mencho encontrou seu fim por ceder a uma dessas tentações. O Tapalpa Country Club, onde ele estava hospedado, fica de frente para um lago tranquilo cercado por colinas cobertas de pinheiros.

A residência onde se hospedava com a amante — uma cabana de dois andares com paredes de pedra e telhado de telhas vermelhas — possui varanda externa com vigas de madeira e uma cozinha moderna com ampla ilha central e uma enorme geladeira. Os confortos que El Mencho raramente se permitia foram os que acabaram custando sua vida.

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.