Tem sido um período difícil para o Giving Pledge, a iniciativa que compromete publicamente bilionários a doar a maior parte de sua fortuna para a caridade.
O projeto perdeu fôlego desde que foi criado, em 2010, por Warren Buffett, Bill Gates e Melinda French Gates. O ritmo de novos signatários desacelerou a ponto de quase estagnar. O cofundador da Coinbase, Brian Armstrong, retirou sua adesão de forma inédita, e o cofundador da Oracle, Larry Ellison, anunciou que estava “ajustando” seu compromisso para incluir atividades com fins lucrativos. Mais recentemente, o cofundador da Palantir, Peter Thiel, chamou atenção no início deste mês ao dizer ao New York Times que vem aconselhando bilionários a não participar e até incentivando pessoas a retirarem seus nomes.
Agora, um dos signatários mais recentes decidiu se manifestar contra a crescente onda de críticas. O fundador do Craigslist, Craig Newmark, publicou um artigo de opinião no Times na segunda-feira defendendo a iniciativa e conclamando bilionários a doarem seus recursos.
Newmark rebateu críticas de que o projeto direcionaria dinheiro para causas “progressistas”. “É estranho para mim que o compromisso tenha passado a ser atacado por alguns bilionários da tecnologia, que dizem que estamos doando nosso dinheiro de forma irresponsável, ou reclamam que os recursos vão para organizações de esquerda”, escreveu. “A verdade é que os signatários podem destinar seu dinheiro para quaisquer causas beneficentes que desejarem.”
A filantropia alinhada à esquerda tem sido alvo de críticas durante o segundo mandato do presidente Donald Trump. Muitos grandes doadores vêm se afastando de causas ligadas à diversidade, equidade e inclusão, à medida que o movimento perde espaço no ambiente político e corporativo. Ao mesmo tempo, o governo Trump ameaça endurecer ações contra organizações progressistas, que, segundo a administração, estariam estimulando o extremismo de esquerda. Ainda assim, vale notar que diversos participantes do Giving Pledge apoiam Trump, incluindo Harold Hamm e Ken Langone.
Newmark afirmou em 2022 que doaria a maior parte de sua fortuna para a caridade e já destinou mais de US$ 450 milhões (R$ 2.565.000.000). Ele aderiu ao Giving Pledge em dezembro.
Em e-mail enviado à Forbes na segunda-feira, ele detalhou os motivos para defender publicamente a iniciativa. Com seu humor característico, afirmou ter três razões: “1. É meio engraçado. 2. Estou agindo para apoiar princípios fundamentais que aprendi na escola dominical […] e para defender nosso país. Não peço desculpas por isso. Talvez eu consiga inspirar alguns figurões a abrirem a carteira.” E concluiu: “3. Engraçado.”
Em entrevista à Forbes em julho do ano passado, Newmark afirmou que o “erro” que filantropos de alto patrimônio costumam cometer é “reter seus recursos por tempo demais, quando o país precisa de ajuda imediatamente”.
Questionado na ocasião sobre por que ainda não havia assinado o compromisso — algo que até então não demonstrava intenção de fazer –, Newmark disse não ter certeza se seria apropriado. Ele ressaltou que nunca se considerou bilionário (embora não seja necessário ter esse nível de riqueza para aderir ao Giving Pledge, a iniciativa afirma que esse é seu foco). Ele parecia definir essa condição com base em dinheiro em caixa e ativos líquidos; a Forbes estimou seu patrimônio em US$ 1,3 bilhão (R$ 7.410.000.000) em 2020, com base em sua participação de 42% no Craigslist. Newmark também afirmou que não sabia se sua adesão teria grande impacto, já que havia se comprometido a doar quase toda a sua fortuna e já havia destinado boa parte dela.
“Se eu assinasse de forma simbólica, isso ajudaria a incentivar outras pessoas com dinheiro em excesso a doar uma parte significativa dele?”, questionou. “Sério, essa é a minha dúvida.”
Ao final da entrevista, ele demonstrou mais entusiasmo com a ideia. “Que tal isso — o ‘Desafio Craig da Forbes’? Ficarei muito feliz em assinar o Giving Pledge, mas o Warren precisa entrar em contato comigo”, brincou. “Gestos simbólicos importam, e isso é meio engraçado. Warren, me liga!”
Cinco meses depois, Newmark anunciou que havia assinado o compromisso. Seu nome foi um dos 14 adicionados à lista em 2025. Para comparação, 57 pessoas aderiram no primeiro ano.
Ainda é cedo para decretar o fim do Giving Pledge. Embora venha sendo criticado em alguns círculos de elite — e embora pelo menos alguns participantes tenham recuado –, 260 signatários permanecem.
Newmark afirma que não percebe um descontentamento generalizado entre os envolvidos. “Não vi nenhuma evidência de arrependimento entre os signatários”, diz. “A política parece estar motivando os poucos críticos. Faço o possível para ignorar isso.”
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com