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Super Quarta: Guerra e Incerteza Reescrevem as Apostas para Copom e FED

Alta dos preços do petróleo para US$ 100 afeta projeções de inflação e deve desacelerar cortes de juros no Brasil e nos EUA

8 min

Sede do FED em Washington: economia americana em desaceleração e inflação acima da meta

A quarta-feira (18) terá a divulgação dos resultados das reuniões de março do Comitê de Política Monetária (Copom) e de seu equivalente americano, o Federal Open Market Committee (Fomc). Até poucos dias atrás, a chamada Super Quarta não prometia surpresas. No Brasil, esperava-se o início do tão aguardado ciclo de cortes da Selic, com uma redução de 0,50 ponto percentual, baixando os juros dos atuais 15% ao ano para 14,50%. Nos Estados Unidos, a manutenção dos FED Funds na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, mas com a sinalização de que o Federal Reserve (FED), o banco central americano, estaria pronto para cortar os juros em junho. Isso mudou. O ataque americano ao Irã em 28 de fevereiro elevou a incerteza e forçou analistas a reescreverem seus cenários.

O conflito no Oriente Médio elevou abruptamente os preços do petróleo. Em resposta ao ataque, o Irã passou a dificultar o tráfego de navios petroleiros pelo Golfo Pérsico, com o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da oferta mundial de petróleo. O preço do barril do tipo Brent superou US$ 100, alta de 25% em duas semanas. Com isso, os bancos centrais ao redor do mundo tiveram de colocar um aumento potencial da inflação em seus cenários.

Mudança nas expectativas

Alguns dados revelam a extensão da mudança de expectativas. Na sexta-feira (13) a probabilidade de manutenção dos juros americanos no nível atual na reunião de junho era de 77,1%, mais que o dobro dos 31,4% registrados um mês antes. Ao mesmo tempo, a probabilidade de um corte de 0,25 ponto percentual despencou para 22,1%, ante os 51,2% de um mês antes. O consenso do mercado, que no início do ano apontava para dois cortes de 0,25 ponto percentual ao longo de 2026, está agora se deslocando em direção à expectativa de apenas um corte, e mesmo assim no segundo semestre. Mesmo antes do conflito, a expectativa quase unânime no mercado americano era de manuteção dos juros inalterados nas reuniões do Fomc de março e de abril.

No Brasil, o movimento foi igual. No dia 26 de fevereiro — dois dias antes do ataque americano ao Irã —, as opções de Copom negociadas na B3 precificavam uma probabilidade robusta de 83% de corte de 0,50 ponto percentual na Selic. A probabilidade de manutenção das taxas era praticamente inexistente, em apenas 2%, e a chance de um corte mais modesto, de 0,25 ponto percentual, era a aposta de apenas 14% dos contratos.

Na sexta-feira (13) esse quadro havia se invertido. A probabilidade de um corte de 0,25 ponto percentual quase quadruplicou, saltando para 53%. A previsão de um corte de 0,50 ponto percentual, que era majoritária, despencou para 23% — menos de um quarto da estimativa registrada antes do conflito. E, para além da magnitude do corte, surgiu uma possibilidade que poucos cogitavam: a de que o Banco Central (BC) decida não cortar os juros nesta reunião, com a probabilidade de manutenção da Selic atingindo 25%.

Conjuntura internacional

Segundo Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, o cenário de fundo ainda permite ao Copom reduzir os juros nesta quarta-feira, mas a conjuntura internacional pesará na decisão. Em seu cenário-base, Sung avalia que há espaço para uma redução de 0,50 ponto percentual na Selic. “Essa avaliação se apoia, principalmente, no nível ainda bastante restritivo da taxa de juros após o forte aperto monetário implementado nos últimos anos”, afirma o economista. Esse patamar elevado teria criado uma margem de segurança suficiente para que o Banco Central inicie a flexibilização sem comprometer o processo de convergência da inflação à meta.

Do ponto de vista da atividade econômica, os dados mais recentes apontam para uma moderação gradual, com estimativas indicando um hiato do produto próximo de zero ao final de 2025 — sinal de que a economia está caminhando para um ritmo mais equilibrado de crescimento. No campo da inflação, Sung reconhece avanços, mas pondera as limitações: o processo de desinflação continua, embora de forma heterogênea entre os diferentes componentes do índice de preços. Segmentos como serviços ainda registram inflação acima da meta, e as expectativas de inflação, embora tenham apresentado melhora recente, permanecem acima do objetivo do BC.

Sung avalia que o impacto do conflito no Oriente Médio será “um choque de curtíssimo prazo, cujo impacto tende a se dissipar ao longo do tempo”. Um argumento importante para essa visão está no comportamento da curva longa do petróleo: ao observar os contratos futuros do Brent com vencimento em 2027 — horizonte relevante para a política monetária brasileira —, o barril aparece próximo de US$ 70, patamar considerado confortável para o cenário inflacionário do Brasil. Além disso, a taxa de câmbio em torno de R$ 5,25 contribui para conter pressões inflacionárias no curto prazo.

Ainda assim, Sung reconhece que o Copom pode optar pela cautela e reduzir os juros em 0,25 ponto percentual. Nesse sentido, uma declaração recente do diretor de Política Monetária do BC, Nilton David, reforça a percepção de que o início do ciclo de cortes está no radar: David sinalizou que a perspectiva de iniciar uma “calibragem” da taxa Selic em março segue válida.

FED não tem pressa, diz o Goldman Sachs

A equipe de economistas do Goldman Sachs liderada por Joseph Briggs também trabalha com um cenário de estabilidade dos juros americanos na reunião de março. O banco prevê que o FED mantenha a taxa na faixa entre 3,50% e 3,75% e também revisou o calendário esperado para os próximos cortes. A equipe de Briggs continua projetando dois cortes de 0,25 ponto percentual ao longo de 2026, mas deslocou a expectativa de datas, que passou de junho e setembro para setembro e dezembro.

Os números da economia americana mostram um cenário complexo. O crescimento anualizado do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no quarto trimestre de 2025 foi revisado para baixo em 0,7 ponto percentual, chegando a apenas 0,7% em termos anualizados. O resultado ficou abaixo das expectativas de 1,4% e muito abaixo dos 4,4% observados no trimestre anterior.

A revisão refletiu principalmente quedas nos dados de exportações e nos gastos do consumidor. Os gastos federais do governo também subtraíram 1,2 ponto percentual do crescimento do PIB no quarto trimestre, reflexo do shutdown governamental. Com isso, o PIB real americano cresceu 2,0% anualizados em 2025 na comparação do quarto trimestre com o mesmo período de 2024, abaixo dos 2,2% estimados anteriormente.

Apesar da desaceleração da economia, a inflação americana não trouxe boas notícias. O índice de preços Personal Consumption Expenditure (PCE), referência de inflação do FED, avançou 0,36% em janeiro na comparação com dezembro. A variação em 12 meses subiu pra 3,1% ante os 3,0% dos 12 meses até dezembro. O resultado continua bem acima da meta de 2%. A estimativa da Goldman Sachs para fevereiro é uma alta de 0,34%, o que corresponderia a uma taxa anualizada de 2,96%. Apesar da leve moderação, a inflação americana segue pressionada, especialmente nos componentes de serviços.

Incertezas gerais

O conflito no Oriente Médio, ao elevar abruptamente os preços do petróleo, inseriu uma variável imprevista numa equação que já era complexa. O BC sinalizou o início do ciclo de cortes nos juros, mas ainda precisa ponderar o impacto inflacionário externo. Já o Federal Reserve luta para ancorar a inflação americana enquanto observa, com desconforto, a deterioração do cenário geopolítico.

Para o Copom, a dúvida central dos investidores não se os juros vão cair, mas a intensidade do início do corte, se 0,50 ponto percentual ou uma redução mais cautelosa de 0,25 ponto percentual. A hipótese de manutenção da Selic em 15% por mais uma reunião era considerada impossível, mas agora passou a ser apenas improvável. Para o FED, a questão é semelhante: até quando manter a política de juros restritiva num ambiente em que a inflação ainda não convergiu para a meta, mas em que o crescimento já dá sinais de moderação.

O que une as duas decisões é a incerteza. Os dados do passado recente apontam em direções nem sempre convergentes; os eventos do presente imediato adicionam ruído onde o mercado buscava sinal; e as projeções para o futuro — câmbio, petróleo, inflação, atividade — carregam hoje um grau de dispersão maior do que o habitual. Nesse cenário, qualquer desvio em relação ao que for precificado pelo mercado nas horas anteriores às decisões pode provocar reações bruscas nos ativos. A Super Quarta de 18 de março promete ser, mais do que uma data de confirmação de cenários, um momento de redefinição de expectativas.

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