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IPOs em 2026: o Que Esperar após a Onda Global de Incerteza

O conflito no Oriente Médio e a geopolítica global minaram o potencial da queda da Selic na reestreia de IPOs na bolsa brasileira? Analistas apontam que a redução da taxa de juros sozinha não deve ter forças o suficiente

5 min

A queda da taxa básica de juros, a Selic, e os recordes do Ibovespa, impulsionado pela entrada de capital estrangeiro na bolsa, abririam a janela de oportunidade que o mercado desejava para quebrar a seca de IPOs (Initial Public Offering – IPO) na B3 em 2026.

No entanto, o conflito no Oriente Médio, entre Estados Unidos, Israel e Irã, e o consequente abalo geopolítico adicionaram instabilidade ao cenário exigindo mais cautela nas decisões de longo prazo das empresas. Para Rafael Santos, sócio e especialista em IPO da EY Brasil, o mercado brasileiro não está desconectado do que acontece ao redor do mundo. “Essa incerteza geopolítica impacta o mercado de IPOs global e, consequentemente, o nosso mercado. Acho que o principal ponto dessa questão é a incerteza. O mercado de IPO não gosta muito de incerteza. Ele prefere previsibilidade.”

Há falta de clareza também no cenário doméstico. No segundo semestre de 2026 os brasileiros irão eleger um novo presidente do país e dados da B3 mostram que a última vez que a bolsa brasileira registrou um IPO em ano eleitoral foi em 2006, vinte anos atrás. Depois dessa data, o brasileiro já votou para presidente outras cinco vezes, e em nenhum desses anos a bolsa registrou abertura de capital.

Análises do setor mostram que esse cenário torna a abertura de capital mais indicada apenas para empresas que já possuem uma estrutura robusta. De acordo com Leandro Martins, analista técnico em renda variável no Banco Inter, as primeiras operações devem ser de maior porte, concentradas em setores como infraestrutura e energia ou em empresas com escala relevante. “São setores que naturalmente atraem o investidor estrangeiro”, diz, Em regiões emergentes, como o Brasil, investidores estrangeiros buscam alta liquidez.

No entanto, esse movimento, ligado ao setores de infraestrutura e energia, cotados como favoritos para dar a largada das empresas rumo à B3, ainda não se concretizou. A Compass, empresa de gás e energia do Grupo Cosan, ensaiou abrir seu capital em março e registrou oferta junto à CVM, mas faltou precificar as ações e tocar a campainha.

O primeiro trimestre do ano de 2026 chegou ao fim sem ofertas públicas de ações.

Os Estados Unidos como opção

Enquanto as aberturas de capital seguem travadas no Brasil, os Estados Unidos já receberam duas empresas brasileiras. O PicPay abriu seu capital na Nasdaq, em janeiro deste ano. O Agibank não ficou pra trás, a fintech começou a negociar seus papéis em fevereiro, poucos dias após a estreia do PicPay. O mercado projeta uma nova onda de IPOs no setor de tecnologia

A maturidade do mercado americano explica o movimento de partida para a bolsa americana. “Com mais liquidez, há uma propensão maior de absorver a volatilidade e os riscos do que o mercado brasileiro.”

No entanto, o cenário econômico dos Estados Unidos neste primeiro trimestre de 2026 tornou-se um campo minado para empresas brasileiras devido à combinação explosiva de tensões geopolíticas e persistência inflacionária. A guerra contra o Irã provocou um choque imediato nos preços do petróleo, elevando o barril para o patamar dos US$ 100 e forçando o Federal Reserve (Fed) a pausar qualquer plano de corte de juros, mantendo as taxas em níveis restritivos (3,50% a 3,75%) para conter o repique inflacionário.

Para uma empresa brasileira, esse ambiente significa que o custo de capital nos EUA fica crítico e o apetite por risco do investidor diminui; por isso mercado de IPOs entrou em um estado de alerta.

Com base nas percepções de Glenn Mallett, head de Equity Capital Markets da XP, o perigo para as empresas brasileiras que tentaram ou vão tentar o mercado americano no primeiro semestre de 2026 reside na falta de sustentabilidade pós-oferta.

“No momento que existe uma volatilidade maior e eventualmente um fechamento do mercado local para determinado tipo de risco, essa discussão aquece”, afirma Mallett.

A vantagem teórica dos EUA, embora clara para setores como tecnologia e fintechs, esbarra em uma mudança radical no perfil de juros e em uma sensibilidade ao risco muito mais aguçada do investidor estrangeiro.

Essa realidade é ilustrada pelos casos emblemáticos de PicPay e Agibank, que, apesar de terem conseguido realizar suas ofertas em um momento de mercado mexido, viram suas ações despencarem mais de 40% abaixo do preço de emissão.

Para Mallett, o cenário de 2026 impõe uma análise rigorosa do “filme” e não apenas da “foto” de uma oferta inicial de ações; a volatilidade geopolítica e o custo de capital elevado transformam o que deveria ser uma captação estratégica em uma armadilha de liquidez.

Quais os próximos capítulos?

Diante desse xadrez macroeconômico, a tão esperada janela para IPOs em 2026 parece ter se transformado em uma fresta estreita e de alto risco, tanto no Brasil quanto no exterior.

Enquanto a B3 lida com o fantasma histórico da paralisia em anos eleitorais e uma cautela institucional, a alternativa americana revelou-se um terreno árduo, onde a liquidez abundante não foi suficiente para blindar as empresas brasileiras contra o choque dos juros e a instabilidade geopolítica.

O cenário atual sugere que, para o restante do ano, o sucesso de uma abertura de capital dependerá menos do timing de mercado e mais da resiliência absoluta dos fundamentos das companhias, restando ao investidor e às empresas a paciência necessária para aguardar a poeira abaixar.

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