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“Para Investidores, Quanto Pior o Cenário Lá Fora, Mais Atraente a América Latina Fica”, Afirma Oliver Stuenkel, Professor da FGV

Ainda que a área não esteja completamente imune à disputa entre grandes potências, o nível de risco permanece inferior ao de outras partes do mundo

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Atualmente, o mundo registra em torno de 60 guerras com participação estatal — o maior número em três décadas. Esse avanço de conflitos geopolíticos reforça a percepção de um cenário internacional cada vez mais incerto e volátil.

No entanto, mesmo com um ambiente global pessimista, uma região tende a ganhar mais espaço entre os investidores: a América Latina.

Segundo Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), o movimento não é casual. Ainda que a área não esteja completamente imune à disputa entre grandes potências, o nível de risco permanece inferior ao de outras partes do mundo. “Para investidores, quanto pior o cenário global, mais atraente a América Latina se torna”, afirmou no evento MKBR 2026, organizado pela Anbima e B3.

O professor explica que o diferencial está na natureza dos riscos. Problemas estruturais da região — como crime organizado ou crescimento econômico limitado — são relevantes, mas não se comparam às tensões militares observadas em outras geografias.

O sócio e diretor de Renda Fixa do Itaú BBA, Guilherme Maranhão, aponta que a escalada de conflitos globais eleva a incerteza, pressionando inflação, juros e preços de ativos. “Isso leva investidores a revisar estratégias e buscar maior retorno para compensar o risco.” 

Em outras palavras, em meio à essa instabilidade internacional, “o Brasil tem registrado forte entrada de recursos estrangeiros, impulsionada por juros mais altos e valuations mais baixos no mercado de ações”, diz Bruno Funchal, do Bradesco Asset Management.

“Quando você compara os desafios regionais da América Latina com guerras, disputas entre potências ou riscos de interrupção de cadeias globais, a região acaba se destacando como uma opção relativamente mais segura para diversificação de portfólio”, comenta Stuenkel.

Arma geopolítica?

O especialista da FGV destaca que esse fator ganha ainda mais relevância em momentos de choque global, como a escalada no Oriente Médio e as incertezas em torno do Estreito de Ormuz. “Mesmo nesse cenário, a região é bem menos impactada do que a Ásia, por exemplo”, diz o professor.

Oliver Stuenkel comenta que, embora seja difícil prever os desdobramentos do conflito envolvendo o país persa, um aspecto já começa a ganhar clareza, o uso estratégico de Ormuz como instrumento de pressão geopolítica.

O local é a única rota marítima de saída do Golfo Pérsico para a maioria dos exportadores de petróleo da região. Para grandes produtores como Iraque, Kuwait e Catar, todas as suas exportações marítimas de petróleo e gás devem passar por Ormuz.

Apenas a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos possuem oleodutos que podem contornar parcialmente o estreito, mas, mesmo assim, esses condutores conseguem escoar apenas uma fração do total exportado. Por Ormuz passam, diariamente, 21 milhões de barris de petróleo e derivados – cerca de 30% do consumo mundial. Além disso, um terço do gás natural liquefeito ((GNL) do planeta também passa pela hidrovia.

De acordo com a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA), a região é considerada “o ponto de estrangulamento de petróleo mais importante do mundo”.

O canal tem 34 km de largura em seu ponto mais estreito e, na prática, essa passagem marítima conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico. Ao norte, está a costa do Irã; ao sul, ficam os Emirados Árabes Unidos (EAU) e um enclave pertencente ao Omã.

“O Irã vem sinalizando que pode exercer controle sobre o estreito. Na prática, cobrando um pedágio ou restringindo o fluxo”, explica o especialista. Esse movimento coloca potências, como Estados Unidos e Israel, sob pressão indireta.

Mesmo em um cenário de eventual retirada americana do conflito, a normalização dos preços de energia não seria imediata. “A instabilidade tende a persistir. O risco já está precificado e dificilmente desaparece no curto prazo”, afirma Stuenkel.

Diplomacia Brasileira

Na avaliação de Stuenkel, a América Latina — ao lado da Oceania — segue como a região de menor risco geopolítico do mundo, com probabilidade extremamente baixa de conflitos interestatais.

Esse cenário é resultado, em grande parte, de uma tradição diplomática construída ao longo de décadas, especialmente pelo Brasil. “Esse é um dos grandes benefícios da política externa brasileira, que historicamente investiu em relações construtivas com seus vizinhos”, explica.

Mesmo sendo a maior economia da região e um país de grandes dimensões, o Brasil não é percebido como uma ameaça pelos países vizinhos — um fator raro no sistema internacional. Isso ajuda a explicar por que países como Bolívia, Paraguai e Uruguai mantêm baixos níveis de investimento em defesa.

“Essa dinâmica cria um ambiente regional mais estável, traduzindo em uma vantagem competitiva em um mundo cada vez mais marcado por disputas geopolíticas”, destaca o especialista da FGV.

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