1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. Por Que o Avanço do Financiamento em Fintechs em 2026 Vai Além da Inteligência Artificial
Forbes Money

Por Que o Avanço do Financiamento em Fintechs em 2026 Vai Além da Inteligência Artificial

A onda de investimentos em fintechs ganha força em 2026, impulsionada por rodadas robustas, expansão global e a busca por rentabilidade

7 min

Se você perguntar aos chatbots por que o financiamento em fintechs está acelerando em 2026, eles geralmente mencionam o boom da inteligência artificial (IA). Curioso como isso acontece.

Não há dúvida de que a febre por IA entre investidores ainda não arrefeceu, apesar de anos de especulação sobre uma possível bolha. Startups ligadas à IA responderam por cerca de 90% do capital de venture capital global em fevereiro, com empresas dos Estados Unidos dominando o cenário e levantando US$ 174 bilhões (R$ 896,1 bilhões) apenas naquele mês. Fintechs que antes eram conhecidas por suas soluções em pagamentos, bancos digitais ou infraestrutura financeira passaram a se posicionar como empresas de IA.

Mas a inteligência artificial é apenas uma parte da explicação para a força do financiamento em fintechs no primeiro trimestre do ano.

Rodadas Bilionárias em Destaque

O início de 2026 tem sido marcado por diversas rodadas de financiamento de nove dígitos no setor. Startups em estágio avançado levantam aportes acima de US$ 100 milhões (R$ 515 milhões) principalmente para acelerar a expansão, sustentar a liderança de mercado e se preparar para eventos de liquidez, como IPOs ou aquisições. Diferentemente das empresas em estágio inicial, que buscam validar seus modelos, companhias mais maduras já comprovaram sua viabilidade e focam em escala, aquisição de concorrentes e crescimento internacional.

Até agora, já foram registradas mais de dez rodadas acima de US$ 100 milhões (R$ 515 milhões) neste ano. A maior delas foi a Série D de US$ 385 milhões (R$ 1,98 bilhão) da plataforma de poupança digital Vestwell, seguida de perto pela rodada Série B de US$ 375 milhões (R$ 1,93 bilhão) da empresa de segurança financeira Cloak. Também se destacam a Série C de US$ 250 milhões (R$ 1,29 bilhão) da Rain, focada em infraestrutura de pagamentos com stablecoins, a Série D de US$ 220 milhões (R$ 1,13 bilhão) do banco digital WeLab, de Hong Kong, e o aporte seed de US$ 230 milhões (R$ 1,18 bilhão) do banco islâmico Mal, sediado em Dubai.

Entre essas empresas, a Mal parece ser a que mais aposta na IA. A companhia se define como o “primeiro banco digital islâmico nativo em IA” dos Emirados Árabes Unidos. Ainda assim, os detalhes sobre o uso da tecnologia são básicos, e a descrição dos serviços segue genérica. “No lançamento, a Mal apresentará uma série de funcionalidades financeiras com IA voltadas a simplificar a forma como os usuários administram, movimentam e fazem crescer seu dinheiro, oferecendo os recursos esperados de uma plataforma financeira digital moderna”, afirmou a BlueFive Capital, de Abu Dhabi, líder da rodada, em comunicado.

Em uma publicação no LinkedIn, a Cloaked apresentou uma justificativa mais direta para o interesse dos investidores: “A internet foi construída para coletar, expor e lucrar com seus dados pessoais. Acreditamos que isso está errado — e estamos criando ferramentas para corrigir isso”. Ainda assim, a empresa também recorreu ao apelo da IA no anúncio da rodada, intitulado: “Cloaked levanta US$ 375 milhões (R$ 1,93 bilhão) para lutar pela privacidade na era da IA”.

Europa Ganha Espaço

Embora os Estados Unidos liderem em volume total de rodadas acima de US$ 100 milhões (R$ 515 milhões), a Europa aparece logo atrás. Segundo estimativas do fundo Finch Capital, Londres se tornou o principal polo global de fintechs, superando San Francisco e Nova York. Dados divulgados em março mostram que o financiamento em fintechs na Europa cresceu 37% entre 2022 e 2025, enquanto os investimentos nos principais centros dos EUA caíram 13%, atingindo cerca de 40 bilhões de euros (R$ 239,2 bilhões) em cada região.

Uma das maiores captações europeias no ano envolve o banco britânico Allica, voltado para pequenas e médias empresas. A instituição alcançou o status de unicórnio em fevereiro ao levantar US$ 155 milhões (R$ 798,25 milhões) em uma rodada Série D, que avaliou a empresa em quase US$ 1,2 bilhão (R$ 6,18 bilhões). Os recursos serão destinados à ampliação da oferta de crédito, ao avanço tecnológico e ao ganho de participação de mercado.

O Allica atua em um nicho relevante: o de PMEs britânicas, historicamente subatendidas desde a crise financeira de 2008-2009. Exigências regulatórias mais rígidas após a crise levaram bancos tradicionais a reduzir sua exposição a esse segmento, considerado de maior risco. Para o Allica, isso representa uma oportunidade. Segundo relatório do British Business Bank, o crédito bancário bruto para PMEs cresceu 9% em 2025, chegando a £ 68 bilhões (R$ 461,04 bilhões).

Outras rodadas importantes ocorreram no continente europeu. A alemã Upvest, que fornece APIs de investimento, captou € 77,5 milhões (R$ 463,45 milhões) em equity, liderados por Sapphire Ventures e Tencent, além de € 30,2 milhões (R$ 180,60 milhões) em dívida para expandir sua infraestrutura.

Como esperado, algumas startups europeias também recorreram ao posicionamento em IA para atrair capital. Empresas como Profluo, focada em automação contábil, e AntiDote Legal, que levantou € 4,1 milhões (R$ 24,52 milhões) em rodada seed, ganham tração ao aplicar IA em operações financeiras e tecnologia jurídica.

Ásia em Ritmo Mais Lento

Em contraste com Estados Unidos e Europa, o financiamento em fintechs na Ásia segue mais contido. A região enfrenta um “inverno” prolongado no setor, com investidores mais seletivos, priorizando empresas maduras com caminhos claros para a rentabilidade, em vez de crescimento acelerado.

Os principais mercados — China, Índia e Indonésia — já exploraram grande parte das oportunidades mais evidentes e apresentam níveis distintos de concorrência intensa. Embora China e Índia ofereçam rotas viáveis de saída para startups, o Sudeste Asiático é mais desafiador. A região tem ambientes regulatórios fragmentados e múltiplas moedas, o que dificulta a construção de narrativas de crescimento capazes de sustentar grandes aberturas de capital.

Não por acaso, duas das startups mais bem-sucedidas da região com atuação em fintech — Grab e Sea — optaram por abrir capital nos Estados Unidos.

A maior rodada asiática do ano até agora é a Série D de US$ 220 milhões (R$ 1,13 bilhão) da WeLab. O banco digital, um dos mais bem-sucedidos de Hong Kong, alcançou a rentabilidade no ano passado e vem expandindo sua presença na China continental e no Sudeste Asiático. Para investidores, não é uma aposta sem risco, mas está próxima disso. A empresa atua como banco digital desde 2020 e como fintech desde 2013.

Planos de Saída

Diante do elevado número de fintechs em estágio avançado buscando acesso a investidores globais, os mercados de capitais dos Estados Unidos e do Reino Unido tendem a se beneficiar de uma nova onda de IPOs. Empresas como Revolut e Stripe ainda não formalizaram pedidos de abertura de capital nem divulgaram cronogramas, mas dificilmente deixarão de considerar listagens em Nova York, Londres ou ambas.

O banco digital britânico Monzo também avalia suas opções, podendo abrir capital tanto na Bolsa de Londres quanto nos Estados Unidos.

É provável que mais fintechs asiáticas sigam o caminho de listagem nos EUA, dada a maior visibilidade e base de investidores. A bolsa de Cingapura, por exemplo, não oferece o mesmo alcance global, enquanto Hong Kong é mais atrativa para empresas focadas no mercado chinês.

Para inflar suas avaliações, algumas empresas inevitavelmente enfatizarão suas capacidades em IA. Outras devem buscar aquisições estratégicas para ganhar vantagem tecnológica.

No fim, porém, as fintechs mais bem posicionadas para IPOs de grande porte serão aquelas que comprovarem um caminho consistente para a rentabilidade — com ou sem inteligência artificial.

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.