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A Nova Fronteira Brasileira: Por Que Cada Vez Mais Pessoas Estão Trocando o Brasil Pelo Paraguai

Com carga tributária de 10% e custo de vida reduzido, o Paraguai supera destinos tradicionais e se torna o segundo país com mais pedidos de residência por brasileiros

9 min

Durante décadas, o Paraguai ocupou um papel secundário no imaginário dos brasileiros que desejavam viver no exterior. Estados Unidos, Portugal e Canadá concentravam os fluxos migratórios mais expressivos. Mas uma mudança vem reposicionando o país vizinho no mapa das oportunidades para pessoas físicas. Impulsionado por uma combinação de menor carga tributária, custo de vida reduzido, crescimento econômico e ensino superior acessível, o Paraguai passou a atrair desde profissionais remotos e aposentados até estudantes e trabalhadores em busca de uma nova chance.

Os números refletem esse movimento. Dados do Ministério das Relações Exteriores mostram que a população brasileira no exterior alcançou 5,18 milhões de pessoas em 2024, um crescimento de 3,7% em relação ao ano anterior. Nesse contexto, o Paraguai despontou como um dos destinos que mais ganharam relevância. O país ocupou a segunda posição mundial em solicitações de atestados de residência por brasileiros, com 602 pedidos em 2024 – atrás apenas dos Estados Unidos, com 2.553 solicitações, e à frente de destinos tradicionais da diáspora brasileira, como Portugal, Canadá e Reino Unido.

O avanço também aparece na estrutura consular brasileira. O Consulado-Geral em Ciudad del Este passou a integrar o grupo dos dez postos com maior presença de brasileiros no mundo, substituindo unidades localizadas em cidades norte-americanas como Houston e Los Angeles.

Por trás desses números está uma lógica econômica relativamente simples. Enquanto o imposto de renda da pessoa física no Brasil pode alcançar 27,5%, no Paraguai a tributação gira em torno de 10%. Somado a isso, o custo de moradia, alimentação, serviços e energia permanece significativamente inferior ao observado nas principais cidades brasileiras.

“Há profissionais que mantêm renda no Brasil ou trabalham remotamente para empresas internacionais e enxergam no Paraguai uma oportunidade de reduzir custos sem perder poder aquisitivo”, afirma o economista Alexandre da Costa, pesquisador na Unila (Universidade da integração latino americana) e na UFPR (Universidade Federal do Paraná. “Para esse grupo, existe uma racionalidade econômica bastante clara na mudança”.

A tendência ganhou força após a consolidação do trabalho remoto. Profissionais que recebem salários em reais, dólares ou euros descobriram que podem preservar sua fonte de renda enquanto reduzem drasticamente as despesas mensais ao atravessar a fronteira.

A energia barata também desempenha um papel importante nessa equação. Beneficiado por sua participação na produção da hidrelétrica de Itaipu, o Paraguai mantém uma das estruturas energéticas mais competitivas da região. Segundo Costa, há cerca de uma década o país consumia apenas cerca de 10% da parcela de energia a que tinha direito em Itaipu. Atualmente, esse percentual já alcança aproximadamente 60%, reflexo da expansão econômica, industrial e urbana.

“Em termos econômicos, os principais fatores que atraem brasileiros para o Paraguai são a menor carga tributária e o menor custo da energia, que acabam se refletindo diretamente no custo de vida”, diz o pesquisador.

O efeito Medicina

Nem todos os brasileiros que cruzam a fronteira pretendem permanecer no país de forma definitiva. Uma parcela importante dessa migração é temporária e está ligada à educação, especialmente aos cursos de Medicina.

Nos últimos anos, universidades paraguaias passaram a receber milhares de estudantes brasileiros atraídos por mensalidades significativamente inferiores às cobradas por instituições privadas no Brasil. Enquanto um curso de Medicina em universidades particulares brasileiras pode custar entre R$ 8 mil e R$ 15 mil por mês, dependendo da instituição, no Paraguai é possível encontrar graduações com mensalidades equivalentes a R$ 1,5 mil a R$ 3 mil.

A diferença altera completamente a matemática financeira para famílias de classe média que não conseguem acesso às concorridas vagas públicas brasileiras.

Os dados migratórios confirmam esse perfil transitório. Segundo informações do Departamento de Migração do Paraguai, em 2015 cerca de 75% dos pedidos realizados por brasileiros eram para residência permanente. Hoje, esse percentual caiu para aproximadamente 19%.

“A redução mostra que uma parcela crescente dos brasileiros está utilizando o Paraguai como destino temporário para estudo, trabalho ou negócios, e não necessariamente como residência definitiva”, explica Costa.

O outro lado da migração

Embora a narrativa do profissional remoto e do estudante de Medicina domine as estatísticas recentes, há também brasileiros que chegam ao Paraguai em busca de emprego e melhores condições de vida. Nesse caso, porém, a realidade pode ser mais complexa.

O mercado de trabalho paraguaio ainda apresenta elevado grau de informalidade. Segundo Costa, aproximadamente 60% das ocupações no país estão fora da formalidade, o que limita oportunidades e reduz a previsibilidade da renda para trabalhadores estrangeiros.

“Muitas vezes, a expectativa de encontrar emprego e melhores condições de vida não se concretiza da forma imaginada”, afirma.

Essa dualidade ajuda a explicar o perfil heterogêneo da migração brasileira para o país vizinho. Para profissionais qualificados, empreendedores e pessoas com renda já estabelecida, o Paraguai surge como uma alternativa para aumentar o poder de compra e reduzir custos. Para quem chega sem uma fonte de renda definida, entretanto, os riscos permanecem consideráveis.

Ainda assim, o saldo da equação parece estar favorecendo o país vizinho. Com crescimento econômico consistente, ambiente tributário simplificado, energia abundante e educação mais acessível, o Paraguai deixou de ser apenas um destino de compras de fronteira para se tornar uma opção concreta de mobilidade internacional para milhares de brasileiros. O movimento ainda está longe da escala observada em Estados Unidos ou Portugal, mas os números mostram que a rota sul-americana está ganhando espaço, e rapidamente.

Como emigrar para o Paraguai?

O processo de migração para o Paraguai, embora menos burocrático que o de países europeus ou da América do Norte, exige atenção aos detalhes jurídicos para não se tornar uma armadilha fiscal. Para quem busca a residência, o primeiro passo é a organização dos documentos. Segundo Filipe Altamir, sócio-proprietário da Imigra Paraguai, os documentos fundamentais incluem:

  • RG original;
  • Certidão de nascimento ou casamento (conforme o estado civil);
  • Certificado de antecedentes criminais emitido pela Polícia Federal;
  • Certificado de vacinação contra a febre amarela (exigência frequente para brasileiros, especialmente de estados como São Paulo e região Norte).

Diferente de outros países que exigem permanência física rigorosa, como os 183 dias anuais em certas nações europeias, o Paraguai oferece maior flexibilidade. Atualmente, o caminho mais comum é a obtenção da cédula de residência temporária, válida por dois anos.

O processo leva de quatro a seis meses para ser concluído, mas o protocolo inicial pode ser feito em apenas um dia. Com essa cédula em mãos, o brasileiro passa a ter os mesmos direitos civis de um paraguaio: pode abrir contas bancárias, tirar carteira de habilitação, abrir empresas e realizar investimentos imobiliários.

A facilidade oferecida pelo Acordo de Residência do Mercosul atrai muitos, mas a advogada internacionalista, Dra. Paula Civolani, alerta que esse acordo não resolve questões tributárias. “O Mercosul facilita o visto e a residência, mas não evita a bitributação. Brasil e Paraguai não possuem um acordo de bitributação sancionado, o que exige um planejamento cuidadoso”, pontua.

Um dos erros mais comuns ocorre quando o brasileiro comunica a saída definitiva à Receita Federal, mas mantém vínculos fortes no Brasil, como imóveis, empresas ativas ou dependentes. “Se a Receita Federal entender que a saída foi apenas aparente, ela pode anular a condição de não residente e tributar a renda mundial do indivíduo com multas e juros pesados”, adverte a Dra. Paula.

Diferenças fiscais: o magnetismo do “10-10-10”

A disparidade tributária entre o Brasil e o Paraguai é, sem dúvida, o principal combustível para o recente êxodo de brasileiros. Enquanto o sistema brasileiro é conhecido por sua complexidade e altas alíquotas progressivas, o país vizinho aposta em uma estrutura simplificada que os especialistas resumem na métrica “10-10-10”.

De acordo com a Dra Civolani, a vantagem do Paraguai reside em três pilares: baixa carga nominal, simplicidade de arrecadação e a territorialidade da tributação. “A carga tributária no Paraguai é infinitamente menor e menos complexa que a do Brasil”, afirma.

As principais diferenças nas alíquotas são impressionantes e evidenciam o abismo tributário entre os dois países. No Imposto de Renda Pessoa Física (IRP), enquanto no Brasil a tabela progressiva alcança 27,5%, no Paraguai a alíquota é de apenas 10%. Essa mesma lógica simplificada se aplica ao Imposto de Renda Empresarial (IRE), fixado em 10% sobre a renda líquida das empresas. Além disso, o IVA (Imposto sobre Valor Agregado) paraguaio possui uma alíquota única de 10%, substituindo com extrema clareza a complexa colcha de retalhos brasileira composta por tributos como ICMS, ISS, IPI, PIS e Cofins.

A Dra Rocha detalha como essa lógica funciona na prática para o profissional que decide se estabelecer no país. Diferente do Brasil, onde as deduções são limitadas e rígidas, o sistema paraguaio permite um abatimento muito mais agressivo para quem atua como prestador de serviços.

“Se eu emito uma nota de R$ 10.000 e apresento notas de despesas com combustível, papel para o escritório e energia que somam os mesmos R$ 10.000, eu não pago nada de imposto. O imposto incide sobre o que sobra”, explica a advogada.

Essa característica transforma o Paraguai em um paraíso para profissionais liberais e autônomos que, no Brasil, veriam uma fatia considerável de seu faturamento ser retida na fonte ou no ajuste anual.

Para os empresários, o cenário é ainda mais lúdico sob a Lei de Maquila. Como explicou a Dra. Heliza, indústrias que importam matéria-prima para processamento no Paraguai e posterior exportação pagam um imposto único de apenas 1%. É essa “mágica tributária” que tem atraído gigantes do setor têxtil e de plásticos, criando um ecossistema onde o lucro é reinvestido em expansão, e não consumido pela burocracia estatal.

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