A Copa do Mundo de 2026 deve funcionar como um raro ponto de estímulo ao consumo em uma economia marcada por juros elevados e incerteza global. Mais do que um evento esportivo, o torneio se consolidou como um mecanismo previsível de ativação do varejo brasileiro. A avaliação consta em relatório do BTG Pactual com base em dados da Scanntech. Segundo o estudo, o futebol mobiliza 95% dos brasileiros, ainda que parte deles acompanhe o esporte apenas durante o Mundial.
A edição de 2026 acontecerá em um ambiente macroeconômico diferente daquele observado no Catar, em 2022. A inflação projetada é menor – cerca de 4,1%, ante 5,8% no último Mundial – mas o cenário é compensado por uma Selic em torno de 14,5% e por um ambiente internacional mais volátil. Ainda assim, o relatório sugere que a melhora da renda real e o fortalecimento do consumo doméstico devem sustentar parte da atividade varejista.
Há também um componente estrutural favorável. O novo formato ampliado da Copa, com 48 seleções, 104 partidas e duração de 39 dias, aumenta a frequência dos momentos de consumo. O torneio deixa de ser apenas uma sequência concentrada de jogos para se tornar um ciclo prolongado de estímulos comerciais distribuídos ao longo de semanas. A mudança no horário das partidas reforça essa dinâmica. Cerca de 43% dos jogos ocorrerão entre 19h e 23h, favorecendo encontros em casa e impulsionando categorias ligadas ao consumo social.
Efeito partida
Segundo o levantamento, 65% dos brasileiros pretendem assistir aos jogos em casa, o que tende a beneficiar itens tradicionalmente associados a reuniões familiares e encontros entre amigos. O estudo chama esse fenômeno de “efeito partida”.
Em média, eventos ligados ao futebol geram um aumento de aproximadamente 4,7% no consumo do varejo em relação a períodos normais. Mas o aspecto mais revelador talvez esteja no timing desse consumo: o pico acontece antes do jogo, não durante. O fluxo nas lojas sobe 6,7% no dia anterior às partidas, no momento em que consumidores se antecipam para evitar compras durante o evento. A concentração é ainda mais intensa nas horas que antecedem o apito inicial: as transações avançam 19,1% nas duas horas anteriores aos jogos e recuam 15,4% durante as partidas. Em grandes torneios, como a Copa do Mundo, essa oscilação se torna mais aguda, com alta de 69,2% no pré-jogo e queda de 61,3% durante o confronto.
Não se trata apenas de maior fluxo. O valor médio das compras também sobe. Nas categorias mais ligadas aos jogos, o tíquete médio aumenta cerca de 24% no dia anterior às partidas, acompanhado por maior diversificação de produtos dentro da cesta.
O calendário da Copa também interfere diretamente na dinâmica do consumo. Jogos disputados aos fins de semana, especialmente aos sábados, produzem os efeitos mais fortes sobre o varejo, com aumento de até 18,8% no fluxo de consumidores no dia anterior. A explicação é prática: as compras associadas aos jogos coincidem com o ciclo natural de reposição doméstica do fim de semana.
Partidas em dias úteis tendem a gerar impacto mais moderado, já que a rotina de trabalho limita o tempo disponível para encontros e compras. Nesse sentido, a edição de 2026 é considerada particularmente favorável ao varejo, inclusive porque partidas importantes, como a abertura do torneio, ocorrerão em datas mais propícias ao aumento de circulação nas lojas.
O efeito, porém, vai além do volume vendido.
Mudança no perfil de consumo
A Copa altera profundamente o perfil do consumo. O relatório mostra uma migração das compras cotidianas para produtos ligados à indulgência, conveniência e socialização. Carnes, snacks e bebidas concentram os maiores avanços. Alguns itens exibem saltos expressivos: churrasqueiras crescem 227%, pipoca de micro-ondas avança 120% e amendoins salgados sobem 86%. As cestas de bebidas também se expandem, especialmente em categorias premium e destilados, enquanto produtos considerados básicos tendem a perder relevância relativa durante os dias de jogo.
Mesmo dentro das categorias há mudanças importantes. Cortes de carne voltados ao compartilhamento superam cortes associados ao consumo individual e rotineiro, reforçando o caráter coletivo da experiência. O levantamento aponta ainda tendências emergentes para 2026, como maior demanda por versões premium, bebidas sem açúcar ou de baixa caloria e integração crescente entre consumo físico e hábitos digitais.