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David Beckham: o Novo Bilionário Fala sobre Família, Negócios, Time e Legado Global

Como o astro britânico construiu um império, após se aposentar do futebol

16 min

São 10h da manhã em Chiswick, Londres, no fim de abril, e SirDavid Beckhamjá está no set há duas horas. Isso não chega a ser surpresa, já que o ex-astro do futebol, hoje com 51 anos, é conhecido por sempre chegar antes do horário.

Guindastes, tendas e trailers ocupam a entrada de uma casa de tijolos de dois andares, dando ao local a aparência de um estúdio de cinema. Lá dentro, dezenas de profissionais circulam pelos cômodos com eficiência ensaiada, administrando câmeras e equipamentos de iluminação.

A Studio 99, produtora de Beckham, organizou a gravação do dia para a fabricante britânica de caixas de som Bowers & Wilkins. Ontem, as filmagens foram para a SharkNinja, empresa de eletrodomésticos. Há várias outras produções agendadas para os próximos dias, todas alimentando a engrenagem que se tornou a “David Beckham Inc.”.

Enquanto as câmeras gravam, Beckham está sentado em um sofá usando um suéter branco da Hugo Boss, jeans desgastados, um Rolex de ouro e tênis brancos. Ao lado dele, um cocker spaniel alugado para o dia descansa enrolado. No meio da cena, o cachorro salta.

Do cômodo ao lado, a diretora criativa de longa data de Beckham acompanha tudo pelo monitor e reage imediatamente. “Jumper! Jumper!” Ela não está preocupada com o cachorro pulando — o problema é o suéter de Beckham (“jumper”, como os britânicos chamam a peça). Uma equipe corre para ajeitá-lo.

“Entendi cedo que estar com as marcas certas e compartilhar os mesmos valores dessas marcas é o que faz você trabalhar com elas por dez, 15, 20 anos”, explica Beckham. “Eu me dedico muito a esses relacionamentos porque isso é importante… Nós sempre entregamos mais do que o esperado.”

Beckham se aposentou do futebol profissional em 2013, aos 38 anos, depois de ganhar mais de US$ 500 milhões (R$ 2,53 bilhões) dentro e fora dos gramados. Durante a carreira, foi uma celebridade global — provavelmente o primeiro jogador desdePeléreconhecido pelo americano médio. Inacreditavelmente, tornou-se ainda mais famoso após a aposentadoria — e muito mais rico.

No ano passado, Beckham faturou US$ 100 milhões (R$ 505 milhões), associando sua imagem impecavelmente construída a produtos que vão de chuteiras da Adidas a máquinas de café da Nespresso. Mas já não se trata apenas de publicidade. Há documentários da Netflix, negócios imobiliários na Flórida e investimentos em diversas startups.

Em 2024, ele lançou a IM8, marca de suplementos focada em saúde e antienvelhecimento. Também criou a Beeup, linha infantil de snacks de frutas feitos com mel. E, claro, há sua participação de 26% noInter Miami CF, um dos clubes mais populares da Major League Soccer.

Somando tudo, Beckham se tornou bilionário, com patrimônio estimado em US$ 1 bilhão (R$ 5,05 bilhões) — um feito alcançado por apenas seis atletas profissionais vivos:Michael Jordan,Magic Johnson,Tiger Woods,LeBron James,Roger Federere o ex-tenista romenoIon Țiriac.

De chuteiras a dono de clube

A maior fatia de sua fortuna vem justamente do Inter Miami. Beckham chocou o mundo do futebol em 2007 ao anunciar que deixaria oReal Madrid CFpara atuar na Major League Soccer dos Estados Unidos, então uma liga em crise e considerada de segunda linha. “Meu instinto dizia que aquilo era o certo”, afirma. “E eu sempre sigo meu instinto.”

Ele negociou um contrato de cinco anos com oLA Galaxypor US$ 6,5 milhões anuais (R$ 32,8 milhões), mais do que o triplo do teto salarial da liga — que abriu uma exceção para ele — além de participação em receitas de patrocínio e merchandising do clube. Mais importante ainda: exigiu uma cláusula que lhe permitia comprar uma franquia de expansão da MLS por US$ 25 milhões (R$ 126,3 milhões) após a aposentadoria.

Ele escolheu Miami entre as cidades aprovadas pela MLS para expansão, atraído pela forte população latina apaixonada por futebol e pelo apelo da cidade para atletas. “Sempre acreditei que Miami poderia atrair grandes jogadores por sua diversidade e energia”, diz.

Hoje, o Inter Miami é um dos melhores times da MLS, dentro e fora de campo. A equipe venceu a MLS Cup de 2025 liderada pelo astroLionel Messi. A Forbes estima que o clube valha US$ 1,4 bilhão (R$ 7,07 bilhões) antes das dívidas, um recorde na liga. Isso coloca os 26% de Beckham acima de US$ 300 milhões (R$ 1,51 bilhão), retorno mais de 12 vezes superior ao investimento inicial em pouco mais de uma década.

Em abril, o clube inaugurou o novo Nu Stadium, com capacidade para 27 mil pessoas, próximo ao Aeroporto Internacional de Miami. A arena foi financiada de forma privada por Beckham e seus sócios, o bilionário do setor imobiliário Jorge Mas e seu irmão José, ao custo estimado de US$ 350 milhões (R$ 1,77 bilhão).

Ao lado do estádio, operários constroem 92,9 mil metros quadrados de escritórios e lojas, um hotel de 750 quartos e um parque de 58 acres, em um projeto adicional de US$ 1 bilhão (R$ 5,05 bilhões), financiado por dívida e capital dos parceiros.

“Existe uma narrativa de atletas entrando no esporte profissional como executivos — eles tiram o uniforme e vestem um terno”, diz o comissário da MLS,Don Garber. “Isso não é apenas patrocínio ou publicidade. David é dono de um clube.”

O jogo mais difícil de Beckham

Mas não foi fácil. Para lançar o Inter Miami, Beckham precisou lidar com parcerias fracassadas e três projetos de estádio que não saíram do papel. Em 2016, três anos após a aposentadoria, ele já acumulava perdas de US$ 39 milhões (R$ 197 milhões) no projeto, entre taxa de expansão, licenças frustradas e custos operacionais. A MLS chegou a oferecer US$ 50 milhões (R$ 252,5 milhões) para recomprar sua opção de franquia, mas ele recusou imediatamente. “Nunca houve um momento em que pensei: ‘Isso não vai acontecer’”, afirma.

Agora, enquanto os Estados Unidos sediam a Copa do Mundo neste verão pela primeira vez em 32 anos, todos os planos desenhados por Beckham parecem convergir. Miami será sede oficial de sete partidas; Beckham se tornou rosto da campanha promocional da MLS; e toda essa atenção vem sendo convertida em novas campanhas publicitárias para Adidas, Lay’s, Stella Artois, Lenovo, McDonald’s, Verizon e Home Depot. Prepare-se para o “verão Beckham”.

“Ver todos os obstáculos que ele superou é impressionante”, diz Victoria Beckham, ex-Spice Girl e esposa de Beckham há 26 anos. “David é muito bom em tornar o impossível possível.”

Beckham aprendeu o valor do trabalho duro ainda criança, crescendo no East End de Londres. Filho de Ted Beckham, que consertava fogões a gás, e Sandra Beckham, cabeleireira, ele viu os pais trabalharem sem descanso. O pai saía de casa às 6h e muitas vezes só voltava às 21h. A mãe cortava cabelo em casa até 23h, enquanto cuidava dos filhos, preparava o jantar e acompanhava os estudos de David e das duas irmãs.

“Eu ajudava nisso tudo”, lembra Beckham. “Fazia chá e bolos. Esse foi o maior presente que eles poderiam me dar. Tudo gira em torno da ética de trabalho.”

David, que amadureceu fisicamente mais tarde e sempre foi menor que os colegas, passava noites e fins de semana treinando dribles e fintas. Aos 11 anos venceu uma competição de habilidades e, aos 13, assinou com as categorias de base doManchester United FC, recebendo cerca de £30 por semana.

Em 1996, aos 21 anos, chamou a atenção da Adidas e fechou seu primeiro contrato com a marca, avaliado em cerca de US$ 75 mil (R$ 378,7 mil) — equivalente hoje a US$ 160 mil (R$ 808 mil). Aos 22, já era figura nacional no Reino Unido. A transformação acelerou quando começou a namorar Victoria Adams, integrante das Spice Girls e, na época, mais famosa do que ele. A imprensa britânica rapidamente apelidou o casal de “Posh and Becks”.

No mesmo período, assinou seu primeiro grande contrato publicitário: um acordo de quatro anos com a Brylcreem, marca de pomada capilar, avaliado em US$ 7 milhões (R$ 35,3 milhões).

Império bilionário

Então veio a queda. O famoso cartão vermelho na Copa do Mundo de 1998, que muitos ingleses acreditam ter custado a eliminação da seleção, levou Beckham a anos de hostilidade por parte da torcida. Ele manteve a cabeça baixa e, três anos depois, marcou contra a Grécia a cobrança de falta que garantiu a classificação da Inglaterra para a Copa de 2002.

Em 2003, Beckham já era capitão da seleção inglesa, hexacampeão da Premier League, vencedor da Champions League e estava a caminho do Real Madrid.

Enquanto defendia o clube espanhol, faturou US$ 75 milhões (R$ 378,7 milhões) fora de campo. Em 2003, assinou um contrato histórico com a Adidas, recebendo US$ 80 milhões antecipadamente (R$ 404 milhões), além de participação em vendas de produtos e ações promocionais — um dos maiores acordos de patrocínio esportivo da época.

Buscando transformar seus negócios em algo além de contratos publicitários, Beckham passou a trabalhar com o empresário britânico Simon Fuller, que já gerenciava a carreira de Victoria.

Ao longo da década seguinte, Beckham maximizou sua fama atuando por grandes clubes em quatro países: Real Madrid até 2007, LA Galaxy entre 2007 e 2012,AC Milanpor empréstimo em 2009 e 2010, eParis Saint-Germain FCem sua última meia temporada, em 2013. Também capitaneou a Inglaterra na Copa de 2006 e conquistou dois títulos da MLS com o Galaxy, em 2011 e 2012.

No período, Fuller ajudou Beckham a fechar contratos milionários com empresas como Vodafone, Gillette, Coty e Armani. Com o tempo, Beckham percebeu que já não precisava mais de Fuller e recomprou, em 2019, a participação de um terço que o empresário detinha em seus negócios de marca por cerca de US$ 50 milhões (R$ 252,5 milhões). “Eu queria controlar meu próprio mundo”, afirma. “Queria controlar meu negócio e meu futuro.”

Crescendo ainda mais

No início de 2022, a operação de marca de Beckham já contava com 30 funcionários administrando internamente parcerias, marketing, redes sociais, relações públicas e criação — além de gerar aproximadamente US$ 66 milhões (R$ 333,3 milhões) em receita anual.

Foi então que Jamie Salter, fundador e CEO daAuthentic Brands Group, procurou Beckham. Salter já controlava os direitos de imagem deElvis Presley,Marilyn MonroeeShaquille O’Neal. “David é extremamente cuidadoso com sua marca. Ele não aceita erros. Quando você trabalha no segmento premium, precisa ser meticuloso em tudo”, afirma Salter.

“Ele é muito detalhista e estratégico nas decisões”, acrescentaTom Brady, amigo de Beckham há quase 20 anos. Os dois fecharam um acordo em fevereiro de 2019 pelo qual Beckham vendeu 55% de seus negócios de marca por US$ 250 milhões (R$ 1,26 bilhão), em dinheiro e ações da Authentic, então avaliada em US$ 13 bilhões (R$ 65,6 bilhões). Beckham manteve controle criativo e participação de 45%. “Em última instância, não vamos fazer nada que David não queira fazer”, diz Salter.

Desde então, o negócio explodiu. A receita saltou para US$ 100 milhões (R$ 505 milhões) em 2025. A própria Authentic, que também controla varejistas como Brooks Brothers e Forever 21, hoje vale cerca de US$ 20 bilhões (R$ 101 bilhões).

Beckham também se esforçou para manter sua imagem em evidência. Em 2023, para marcar os dez anos de sua aposentadoria, a Studio 99 lançou uma série documental da Netflix sobre sua carreira. A produção atraiu mais de 30 milhões de espectadores, venceu o Emmy de Melhor Série Documental, rendeu US$ 21 milhões (R$ 106 milhões) a Beckham e apresentou sua história a uma nova geração de fãs — e consumidores.

“Beckham foi um enorme sucesso para nós”, afirma Bela Bajaria, diretora de conteúdo da Netflix. Frustrado com sua rotina complexa de bem-estar, cheia de suplementos diferentes, Beckham cofundou em 2024 a empresa IM8 ao lado da Prenetics, companhia de ciências da saúde listada na Nasdaq e sediada em Hong Kong.

O negócio vende suplementos diários e pós nutricionais e registrou receita de US$ 60 milhões (R$ 303 milhões) no ano passado, com meta de alcançar US$ 200 milhões (R$ 1,01 bilhão) em 2026.

“Ele é extremamente talentoso, mas precisou trabalhar duro”, diz Victoria. “Alguns jogadores simplesmente acordam e conseguem jogar. David teve que se dedicar ao futebol. E também precisou se dedicar aos negócios.”

Erguendo o Inter Miami

Pouco depois do pôr do sol de uma noite úmida no início de abril, sob quase 30 mil torcedores, David Beckham entra no círculo central do Nu Stadium, casa do Inter Miami. Vestindo um terno azul-marinho com o escudo do clube — assim como seus sócios Jorge e José Mas — Sir David, título recebido do reiCharles IIIem novembro, pega o microfone.

“Vim para os Estados Unidos e para a MLS há 20 anos. Meu sonho era conquistar títulos, ajudar o futebol a crescer e construir meu próprio clube”, diz ao público, lendo o discurso no iPhone. “Treze anos atrás, anunciei que Miami seria minha escolha. Não tínhamos nome. Não tínhamos escudo. Não tínhamos estádio.”

“Foi um desafio de 12 anos”, contou Beckham à Forbes em Manhattan pouco depois. “O maior desafio da minha carreira empresarial.”

Levou quatro anos desde que ele ativou sua opção de expansão na MLS, em 2014, até a aprovação oficial dos outros donos da liga — e mais dois anos para montar o time. O Inter Miami jogou por seis temporadas em um estádio temporário em Fort Lauderdale enquanto Beckham e seus sócios buscavam uma sede definitiva.

Projetos anteriores fracassaram por disputas políticas, oposição comunitária e entraves jurídicos. “Ele desembarcava de voos sem dormir, corria para reuniões municipais e depois seguia direto para outra”, lembra Don Garber. “Nada o fazia desistir.”

Em 2018, Garber o apresentou a Jorge Mas, bilionário que transformou a MasTec em uma gigante de engenharia e construção listada em Bolsa.

“Dizer que nos demos bem é pouco”, afirma Mas. “Nós dois acreditávamos em Miami e no potencial dos Estados Unidos como país do futebol.”

Eles encontraram o antigo Melreese Country Club, um terreno público contaminado com arsênio que exigiu US$ 100 milhões (R$ 505 milhões) em descontaminação antes do início das obras. O projeto foi levado a referendo público e aprovado em novembro de 2018 por 60% dos eleitores, com duas condições: financiamento totalmente privado e desenvolvimento urbano amplo, não apenas o estádio.

Os irmãos Mas administram o clube no dia a dia e possuem cerca de 75% da equipe, mas Beckham fez questão de deixar sua marca em cada detalhe. Ao desenhar o escudo do clube, exigiu que o estúdio responsável apresentasse centenas de modelos históricos antes de escolher a garça, o formato e o tom exato de rosa. “Eu queria que tivéssemos uma cor própria”, afirma.

Efeito Messi

Beckham também ficou obcecado pelo elenco. Há anos tinhaLionel Messicomo alvo principal. Em uma apresentação interna de 2018, chegou a incluir uma montagem do argentino vestindo a camisa do Inter Miami, mesmo antes de qualquer sinal de interesse do jogador.

Após quase quatro anos de conversas — incluindo uma reunião secreta com o pai de Messi em Barcelona — o craque assinou com o Inter Miami em julho de 2023, recusando uma proposta de US$ 400 milhões (R$ 2,02 bilhões) da Arábia Saudita. Messi acertou ganhos anuais garantidos entre US$ 50 milhões e US$ 60 milhões (R$ 252,5 milhões e R$ 303 milhões), além de participação em receitas da Apple e Adidas.

O chamado “efeito Messi” levou o clube a outro patamar. A receita anual saltou de menos de US$ 70 milhões (R$ 353,5 milhões) para mais de US$ 250 milhões (R$ 1,26 bilhão), impulsionada por venda de ingressos, novos patrocinadores e turnês globais.

“Se o Inter Miami abrisse espaço para novos investidores, eu teria muito interesse”, afirma o bilionário gestor de hedge fundsKen Griffin.

Hoje, o clube vale quase US$ 1,4 bilhão (R$ 7,07 bilhões), praticamente o dobro da média das franquias da MLS — sem incluir o valor do Nu Stadium ou do complexo Miami Freedom Park.

A grande dúvida é como o time se sustentará quando Messi, hoje com 38 anos, se aposentar. Mas esse temor foi adiado em outubro, quando o craque renovou contrato até 2028. E ele pode continuar próximo do clube: ao pendurar as chuteiras, Messi poderá até se tornar sócio do Inter Miami graças a uma cláusula que lhe dá direito a uma pequena participação acionária.

Legado parece ser a palavra que mais ocupa a mente de Beckham atualmente. Ele e Victoria têm quatro filhos: Brooklyn, 27 anos; Romeo, 23; Cruz, 21; e Harper, 14. Brooklyn se afastou publicamente da família após seu casamento com Nicola Peltz, filha do bilionário Nelson Peltz, em 2022. O conflito alimenta constantemente os tabloides britânicos, embora os Beckhams evitem comentar o assunto.

“Quero que minha família entre naquele estádio e saiba que o papai construiu aquilo”, afirma Beckham em determinado momento. Em outros, define legado de forma ainda mais ampla.

“Quando coloquei a cláusula de comprar um clube no meu contrato, era totalmente sobre legado. Era sobre ter um compromisso com os Estados Unidos, com a MLS e com o futebol”, diz. “Quero deixar algo para trás quando eu não estiver mais aqui.”

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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