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Fed Abandona Viés de Cortes nos Juros na Despedida de Powell

Ata do banco mostra dirigentes preocupados com inflação; cresce a defesa por juros altos por mais tempo, e até novas altas, se necessário

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A última ata do Federal Reserve sob a presidência de Jerome Powell marca o fim de uma era monetária que começou combatendo uma pandemia e termina enfrentando algo mais desconfortável para banqueiros centrais: uma inflação que se recusa a desaparecer completamente, mesmo após anos de aperto monetário.

O documento da reunião de 28 e 29 de abril mostra um Fed dividido entre duas ameaças. De um lado, o risco de desaceleração do mercado de trabalho; de outro, um novo choque inflacionário impulsionado pela escalada no Oriente Médio, pelos preços da energia e pelo efeito prolongado das tarifas comerciais. O mercado já havia entendido o recado antes mesmo da divulgação da ata. Segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, investidores atribuem cerca de 96% de probabilidade de manutenção dos juros na próxima reunião. A ata ajuda a explicar por quê.

O tom do documento é menos o de um banco central prestes a iniciar cortes e mais o de uma instituição resignada a permanecer restritiva por mais tempo, e talvez até voltar a apertar a política monetária. A reunião de abril, última comandada por Powell, foi a segunda consecutiva em que um número maior de dirigentes passou a considerar explicitamente que uma nova alta de juros poderia ser apropriada caso a inflação permanecesse acima da meta.

Embora parte dos dirigentes ainda veja espaço para reduções de juros caso a inflação recue e o mercado de trabalho enfraqueça, a maioria passou a enxergar o cenário inflacionário como mais persistente do que o previsto meses atrás. A ata deixa isso claro ao afirmar que “algum aperto adicional” poderá ser necessário caso a inflação continue resistente.

A inflação cheia do PCE, medida preferida do Fed, foi estimada em 3,5% em março, enquanto o núcleo ficou em 3,2% – ambos significativamente acima da meta de 2%. O que mais preocupa não é apenas o nível, mas a natureza da pressão inflacionária. Os dirigentes identificaram uma disseminação dos aumentos de preços para além da energia: fretes, passagens aéreas, software, fertilizantes e bens industriais passaram a refletir custos maiores associados tanto às tarifas quanto às disrupções geopolíticas.

Ao longo da era Powell, o Fed repetiu inúmeras vezes que choques temporários poderiam ser ignorados desde que as expectativas de inflação permanecessem ancoradas. A ata sugere que essa confiança já não é absoluta. Diversos participantes demonstraram preocupação de que, após cinco anos consecutivos de inflação acima da meta, consumidores e empresas possam começar a incorporar níveis mais altos de inflação em negociações salariais e decisões de preços.

O mais revelador talvez seja o debate sobre a própria comunicação do Fed. Muitos dirigentes afirmaram que prefeririam retirar do comunicado oficial qualquer linguagem que ainda insinuasse um viés de afrouxamento monetário. Em outras palavras: o banco central quer evitar que o mercado continue apostando automaticamente em cortes. Na última reunião, O Comitê manteve os juros na faixa entre 3,50% e 3,75%.

A ironia é que a economia americana continua surpreendentemente resiliente. O consumo das famílias segue robusto, sustentado por patrimônio elevado e estímulos fiscais. O investimento corporativo permanece forte, sobretudo em tecnologia e inteligência artificial. O crescimento do PIB real deve permanecer acima do potencial nos próximos anos, segundo a equipe técnica do Fed.

A inteligência artificial aparece repetidamente na ata não apenas como motor de produtividade, mas também como possível fonte de inflação e instabilidade financeira. Os dirigentes citaram aumento de custos em tecnologia, expansão acelerada do crédito privado voltado ao setor e até riscos cibernéticos associados ao avanço da IA.

O mercado financeiro, por enquanto, parece ignorar parte desses riscos. As bolsas americanas recuperaram perdas recentes, impulsionadas principalmente pelas gigantes de tecnologia. Os spreads de crédito permaneceram comprimidos. A volatilidade caiu. Mesmo a guerra no Oriente Médio produziu menos turbulência duradoura do que muitos analistas esperavam.

Dentro do Fed, porém, há sinais claros de desconforto. Diversos participantes demonstraram preocupação com a elevada alavancagem de hedge funds no mercado de Treasuries e com fragilidades crescentes no setor de crédito privado. Embora o sistema bancário seja descrito como capitalizado, o documento aponta vulnerabilidades “notáveis” em ativos financeiros e imobiliários.

A ata também mostra que o conflito envolvendo o Irã passou a ocupar posição central nas preocupações do banco central. Quase todos os participantes afirmaram ver risco de que a guerra prolongue os choques sobre petróleo, energia e cadeias globais de suprimento, criando um ambiente em que inflação elevada e crescimento mais lento coexistam simultaneamente, exatamente o tipo de cenário que dificulta a atuação de bancos centrais.

Powell encerra sua presidência sem declarar vitória sobre a inflação – algo que, há um ano, parecia próximo. Em vez disso, deixa para seu sucessor um banco central preso entre duas forças difíceis de reconciliar: uma economia americana ainda forte demais para justificar cortes rápidos e uma inflação alta demais para permitir complacência.

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