A taxa de desemprego subiu para 5,8% no trimestre encerrado em abril, mas o mercado financeiro saiu da divulgação olhando muito mais para a renda do que para a ocupação. O rendimento médio do trabalhador bateu recorde de R$ 3.722, enquanto a massa salarial permaneceu nas máximas da série histórica. Na avaliação de economistas e gestores, a combinação mantém consumo e atividade aquecidos e sustenta a percepção de juros altos por mais tempo.
A leitura exige olhar além do número, diz André Matos, CEO da MA7 Negócios. “É um patamar (5,8%) ainda historicamente baixo, com rendimento médio real em recorde de R$ 3.722 e massa salarial nas máximas da série, ou seja, o mercado de trabalho segue aquecido, mas começa a dar os primeiros sinais de acomodação”, afirma.
A avaliação predominante entre analistas é que a economia brasileira começa a desacelerar de forma gradual, sem uma perda abrupta de renda ou consumo. Isso mantém a pressão sobre serviços e salários, justamente dois dos pontos mais observados pelo Banco Central no combate à inflação.
“Os dados sugerem que o mercado de trabalho segue aquecido e sem sinais de arrefecimento. Esse cenário continua sendo um calcanhar de Aquiles da política monetária, que busca desaquecer a economia para conter a inflação”, afirma Vitor Kayo, economista sênior da Nomad.
“O dado de desemprego veio em linha com o esperado, com a alta no trimestre explicada por fatores sazonais, sem indicar deterioração estrutural. Na comparação anual, o mercado de trabalho segue sólido, com desemprego em queda, informalidade recuando e massa de renda ainda resiliente. Esse cenário reforça a leitura de juros elevados por mais tempo, já que a atividade segue sustentada”, diz Peterson Rizzo, head de Relações com Investidores da Multiplike.
Nas empresas, a discussão já migrou para custo operacional. Com desemprego em patamares historicamente baixos, contratar e reter profissionais continua caro em vários setores. O tema ganhou peso sobretudo em companhias intensivas em mão de obra.
“Quando o desemprego está em mínimas e os salários sobem acima da produtividade, o custo de mão de obra vira a principal pressão sobre a margem”, afirma Matos, da MA7 Negócios.
A consequência aparece no crédito. Em um ambiente de Selic a 14,50%, investidores passaram a separar de forma mais rígida empresas com geração de caixa previsível daquelas mais dependentes de financiamento.
“O diferencial passa a ser a capacidade de estruturar bem o financiamento e manter solidez financeira”, afirma Rizzo.
Para Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, o emprego aquecido ajuda a manter consumo e atividade, mas aumenta a pressão sobre as despesas corporativas.
“O mercado de trabalho mais forte tem um efeito duplo sobre a economia. De um lado, sustenta renda, consumo e atividade. De outro, aumenta a pressão sobre custos empresariais”, diz.
No mercado de capitais, gestores afirmam que o ambiente favorece empresas com balanços mais sólidos e capacidade de repassar custos. Negócios mais alavancados ou dependentes de crédito barato continuam sob maior pressão.
“Empresas com poder de repasse, boa eficiência operacional e balanço menos alavancado tendem a se adaptar melhor. Já companhias com margem apertada, dívida elevada ou dependência de crédito barato podem sofrer mais”, afirma Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.