O varejo brasileiro continua crescendo, mas cada vez mais como uma economia de duas velocidades. Enquanto supermercados e postos de combustíveis seguem embalados por um mercado de trabalho resiliente e pela renda ainda elevada das famílias, setores dependentes de crédito, como móveis e eletrodomésticos, começam a sentir com mais força o peso de juros persistentemente altos e do endividamento recorde dos consumidores.
Os sinais dessa desaceleração seletiva apareceram no Índice do Varejo Stone (IVS) de abril. As vendas do comércio recuaram 0,2% na comparação mensal, interrompendo parte da recuperação observada no mês anterior. Ainda assim, no acumulado de 12 meses, o varejo avançou 5,4%, um desempenho robusto para uma economia que convive com uma das maiores taxas reais de juros do mundo.
O retrato capturado pelo levantamento ajuda a explicar uma das principais contradições da economia brasileira em 2026: o consumo não colapsa, mas tampouco consegue acelerar de forma homogênea.
“O resultado de abril mostra uma acomodação após a recuperação observada no mês anterior, mas o consumo segue sustentado”, afirma Guilherme Freitas, economista e pesquisador da Stone. Segundo ele, a diferença entre os segmentos revela uma divisão clara dentro do próprio varejo. “Os setores mais ligados à renda das famílias continuam avançando, refletindo um mercado de trabalho ainda aquecido, enquanto os mais dependentes de crédito enfrentam maior dificuldade, diante de condições financeiras mais restritivas.”
Na prática, isso significa que o brasileiro continua comprando o essencial, mas adia gastos maiores, financiados ou parcelados. Não por acaso, combustíveis e supermercados lideraram novamente o crescimento em abril, com altas mensais de 2,2% e 1,9%, respectivamente.
Já os setores ligados a bens duráveis caminham na direção oposta. Móveis e eletrodomésticos registraram a maior retração do mês, de 1,8%, seguidos por tecidos, vestuário e calçados, com queda de 0,8%. Também recuaram outros artigos de uso pessoal e doméstico (-0,7%), livros, jornais, revistas e papelaria (-0,5%), artigos farmacêuticos (-0,2%) e material de construção (-0,1%).
O crédito ajuda a explicar parte dessa mudança. Embora a inflação tenha perdido intensidade em relação aos anos anteriores, o custo financeiro continua elevado. Famílias altamente endividadas convivem com parcelas mais caras, spreads bancários altos e menor disposição para assumir novos financiamentos. O efeito é particularmente severo em setores tradicionalmente impulsionados pelo parcelamento.
Ainda assim, o cenário está longe de uma deterioração abrupta. O mercado de trabalho segue funcionando como principal colchão de proteção da economia. A massa salarial permanece elevada, sustentando o consumo básico e impedindo uma desaceleração mais profunda do varejo. É uma dinâmica que vem surpreendendo economistas desde o ano passado: mesmo em um ambiente monetário restritivo, o consumo resiste mais do que o esperado.
Essa resiliência, porém, parece ter limites cada vez mais claros.
“Mesmo com a renda sustentada, o alto nível de endividamento das famílias e o custo do crédito ainda limitam uma recuperação mais consistente”, diz Freitas. “O varejo mantém um quadro de crescimento, porém com resultados mistos e sem mudanças relevantes no cenário macroeconômico mais amplo.”
Os números anuais reforçam essa leitura fragmentada. Seis dos oito segmentos monitorados pela Stone cresceram na comparação com abril de 2025. Mais uma vez, combustíveis e lubrificantes lideraram o avanço, com alta expressiva de 14,4%, seguidos por material de construção (7,4%), artigos farmacêuticos (6,4%) e supermercados (6,1%).
Na outra ponta, livros, jornais, revistas e papelaria continuaram em queda – um setor que há anos enfrenta mudanças estruturais no padrão de consumo – enquanto móveis e eletrodomésticos praticamente estagnaram, com leve retração de 0,1%.