A corrida da inteligência artificial ganhou mais um capítulo com a Anthropic, empresa por trás do chatbot Claude, protocolou seu pedido de IPO nos Estados Unidos poucos dias depois de a SpaceX anunciar planos para levantar US$ 75 bilhões na maior oferta pública inicial da história. O movimento também deve ser seguido pela OpenAI.
O apetite dos investidores por empresas ligadas à nova onda tecnológica segue forte. No entanto, uma pesquisa da gestora global Janus Henderson com 1.000 investidores americanos com mais de US$ 250 mil em ativos para investir mostra que 67% estão preocupados com uma possível bolha de IA ou uma correção de mercado impulsionada pela tecnologia nos próximos 12 meses. A principal preocupação dos entrevistados é que a inteligência artificial não corresponda às expectativas. Ainda assim, 61% acreditam que ela terá impacto positivo sobre os mercados no longo prazo.
O que preocupa os investidores sobre IA
67% temem uma bolha ou correção de mercado ligada à IA nos próximos 12 meses
61% acreditam que a IA terá impacto positivo de longo prazo
28% temem que a tecnologia não corresponda às expectativas
24% citam riscos de vieses, uso indevido ou salvaguardas insuficientes
19% acreditam que os investimentos em IA podem estar supervalorizados
Para Eduardo Felipe Matias, professor convidado da Fundação Dom Cabral, sócio da Elias, Matias Advogados e autor do livro A humanidade e o poder digital: impactos da IA sobre nosso futuro (Senac), os dois movimentos podem coexistir.
“Um investidor pode acreditar que a IA será uma das forças definidoras das próximas décadas e, ao mesmo tempo, desconfiar de que alguns ativos estejam caros demais ou de que parte da infraestrutura esteja sendo construída antes de haver demanda suficiente para remunerá-la”, afirma.
O ponto principal de sua análise está justamente nessa infraestrutura. “A distinção importante é entre o valor da tecnologia e o preço que o mercado está disposto a pagar por ela hoje. A internet também era revolucionária no fim dos anos 1990, mas isso não impediu a bolha pontocom. No caso da IA, a preocupação adicional é que o risco não está apenas nas ações de empresas de tecnologia, mas também na infraestrutura financiada para sustentar essa corrida”, diz.
Mais do que uma nova bolha pontocom
A comparação entre a inteligência artificial e a bolha da internet se tornou frequente nos últimos anos. Para Matias, porém, ela explica apenas parte do fenômeno.
“As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Estamos diante de uma transformação econômica real, porque a IA altera a forma como conhecimento é produzido, decisões são tomadas e tarefas são executadas. Ela deve afetar setores inteiros da economia e reorganizar o trabalho intelectual. Mas uma tecnologia transformadora não impede a formação de bolhas. Pelo contrário, grandes ondas tecnológicas muitas vezes produzem narrativas fortes o suficiente para sustentar excessos de investimento”, afirma.
O contexto atual também é diferente daquele observado na virada do século.
Em seu livro, Matias destaca que o setor de tecnologia representa atualmente cerca de 26% do S&P 500, índice que reúne as 500 maiores empresas listadas dos Estados Unidos. Em 2008, apenas uma empresa de tecnologia, a Microsoft, figurava entre as dez mais valiosas do mundo. Hoje, a lista é dominada por gigantes como Microsoft, Nvidia, Apple, Amazon, Alphabet e Meta.
“A dimensão econômica dessas empresas chama cada dia mais atenção”, escreve o autor. O peso crescente dessas companhias ajuda a explicar por que uma eventual correção relacionada à inteligência artificial preocupa investidores muito além do Vale do Silício.
A comparação com o subprime
É por isso que Matias considera que a crise financeira de 2008 oferece um paralelo que merece atenção.” Já escrevi sobre isso, comparando o atual boom da IA não apenas com a bolha pontocom, mas também com a crise do subprime, que me parece um paralelo mais adequado”, afirma.
Segundo ele, na bolha pontocom o problema estava concentrado na supervalorização de ações de empresas ligadas à internet. Já na crise financeira de 2008, o risco estava na estrutura montada sobre expectativas que acabaram não se confirmando.
“Na crise subprime de 2007 e 2008, por sua vez, o problema não estava apenas no preço dos imóveis, mas em uma arquitetura financeira construída sobre dívidas arriscadas, empacotadas e vendidas como se fossem seguras”, afirma.
Na avaliação do especialista, algo semelhante pode estar ocorrendo na expansão da infraestrutura necessária para a inteligência artificial.
“Data centers, chips e energia vêm exigindo investimentos bilionários, muitas vezes apoiados em dívida, contratos de longo prazo e estruturas pouco transparentes”, diz.
Os números provam o tamanho da necessidade. Dados da Agência Internacional de Energia (IEA) mostram que os data centers consumiram cerca de 415 terawatt-hora (TWh) de eletricidade em 2024, o equivalente a aproximadamente 1,5% de toda a eletricidade consumida no mundo. Até 2030, a projeção é que esse volume alcance 945 TWh.
O crescimento é impulsionado principalmente pelos servidores acelerados usados em aplicações de inteligência artificial. Segundo a IEA, o consumo de energia desses equipamentos deve avançar cerca de 30% ao ano até o final da década.
No conjunto, a demanda elétrica dos data centers cresce aproximadamente 15% ao ano, mais de quatro vezes o ritmo observado nos demais setores da economia. Estados Unidos e China devem responder por quase 80% da expansão global do consumo de energia dos data centers até 2030.
A dúvida é o ritmo
Matias não questiona o potencial transformador da inteligência artificial. “O que existe é uma tensão compreensível entre a confiança no potencial de longo prazo da IA e a dúvida sobre a velocidade e a forma como esse potencial será monetizado”, afirma.
Para ele, parte do mercado pode estar superestimando a velocidade com que a tecnologia será capaz de gerar produtividade e retorno financeiro. “Existe exagero quando a IA é apresentada como uma solução imediata para quase todos os problemas da sociedade e da economia. A tecnologia é poderosa, mas ainda enfrenta limitações importantes, como custos elevados, erros, vieses e dúvidas regulatórias”, afirma.
O mesmo vale para as expectativas sobre ganhos de eficiência. “A produtividade não aparece automaticamente assim que uma empresa adota IA. As empresas precisam reorganizar processos, treinar equipes, adaptar sistemas, lidar com riscos jurídicos e convencer clientes e reguladores de que o uso da tecnologia é confiável. Isso leva tempo”, afirma.
Na avaliação do especialista, a questão é se os investimentos feitos hoje em IA serão remunerados na velocidade que o mercado espera. “Se a IA frustrar expectativas, pode haver uma correção parecida com a da pontocom, concentrada em ações supervalorizadas. Mas, se a capacidade construída ficar muito acima da demanda real e as receitas não forem suficientes para pagar os financiamentos, o problema pode se aproximar mais do roteiro do subprime”, afirma.
“Nesse caso, o estouro de uma eventual bolha deixaria de ser apenas um ajuste em empresas de tecnologia e passaria a testar a resiliência do sistema financeiro.”