O recente IPO da SpaceX, a gigante de tecnologia de Elon Musk, movimentou o mercado financeiro ao redor do globo e o potencial de ganho com a valorização das ações trouxe mais um estímulo para quem quer investir fora do país.
Mas, de acordo com o Banco Central, uma minoria de brasileiros aposta no mercado internacional. Em 2023, a autarquia estimou que apenas 2% do patrimônio total dos brasileiros estava alocado no exterior. A estatística comprova que historicamente o investidor brasileiro manteve um perfil conservador e fortemente atrelado ao mercado doméstico.
No entanto, a internacionalização tem papel estrutural de reduzir a dependência de uma única geografia ou moeda, de um cenário político-fiscal local e concentração setorial.
“Durante muito tempo, investir internacionalmente era visto como algo sofisticado ou restrito a poucos investidores, mas hoje a discussão evoluiu. A pergunta já não é se faz sentido investir fora do Brasil, mas como construir uma alocação global de qualidade”, diz Diego Correia, líder de investimentos da XP Internacional.
A avaliação é compartilhada por Marcela Rocha, CIO da Avenue, que enxerga o movimento recente como um catalisador de longo prazo. “A SpaceX vem lembrar os investidores que ter uma conta offshore te possibilita conseguir surfar em outras oportunidades”, avalia a instituição.
Juros altos e o fator “home bias”
O baixo percentual de capital local remetido ao exterior não é uma exclusividade do Brasil, mas reflete um comportamento psicológico e estrutural profundo do mercado financeiro conhecido como home bias – conceito usado para explicar a tendência natural do investidor de alocar recursos em ativos que fazem parte do seu cotidiano.
“O investidor tem uma tendência de investir próximo a ativos perto da sua casa, que ele se sente mais confortável. Então isso é uma coisa que existe, é a natureza de finanças comportamentais”, explica Giuliano diretor da Anbima.
No cenário nacional, esse comportamento ganha um combustível extra: os rendimentos na renda fixa local. “Nós temos uma taxa de juros real muito alta, e isso faz com que o brasileiro tenha uma superconcentração no ativo que se sente mais confortável: o ativo livre de risco, o famoso CDI, que paga muito juros. Então para tomar risco lá fora, ele sente que tem que ganhar muito mais que isso”.
Embora as oportunidades do mercado brasileiro ofereçam excelentes retornos baseados no juros, ela falha em capturar as grandes teses de transformação estrutural do século 21. “Se a gente está falando de um mundo de transformação de inteligência artificial, de geração de chips, de produção de semicondutores, o Brasil, infelizmente, não captura essa tendência. Diversificar é você conseguir acesso a setores, a teses de crescimento, a ciclos diferentes da onde a gente está inserido. É o único almoço de graça mesmo”, diz Rocha.
Quanto alocar e como estruturar o portfólio?
Se o consenso de mercado aponta para a necessidade de cruzar as fronteiras, a dúvida que permanece então gira em torno do tamanho ideal dessa exposição. As recomendações variam de acordo com o perfil e o patrimônio de cada cliente, mas partem de pisos bem definidos.
Para XP Internacional, a diretriz padrão assume uma exposição mínima de dois dígitos. “Utilizamos como referência uma alocação mínima de 15% no exterior, sempre respeitando as variáveis individuais de cada cliente. O papel da assessoria é justamente ajudar o investidor a construir essa visão integrada”, esclareceu Correia.
Paula Zogbi, estrategista chefe da Nomad, propõe outra teoria a partir de estudos internos e ferramentas proprietárias que apontam para uma fatia maior quando o foco recai sobre o portfólio de risco, excluindo a reserva de liquidez de curtíssimo prazo. “Temos o Indi, que é o nosso índice de diversificação internacional, que mostra mais ou menos 40% a 50% de dolarização para trazer uma melhor relação entre risco e retorno da carteira, independentemente do perfil, para quando seu objetivo não é de curto prazo. Ele usa Markowitz, que é uma teoria de balanço entre risco e retorno”. A teoria leva o nome de Harry Markowitz, economista americano vencedor do Prêmio Nobel, que mostrou que a diversificação entre ativos com comportamentos diferentes pode melhorar a relação entre risco e retorno de uma carteira.
Para quem está começando, o segredo reside na diluição de riscos através de veículos consolidados e acessíveis. “Os ETFs, por exemplo, são uma porta de entrada muito boa porque você não precisa escolher um ativo específico. Você escolhe a tese de investimento que você quer se expor e coloca ali que vai ter os principais ativos dessa tese já representados”, orienta Zogbi. ETF é a sigla para Exchange Traded Fund, ou fundo de índice.
Além dos EUA
Outro erro comum de percepção é confundir a internacionalização com a dependência exclusiva da economia norte-americana. Embora Wall Street concentre o maior volumes de liquidez global, os Estados Unidos funcionam como uma plataforma de acesso ao restante do mundo.
“Existem companhias listadas na bolsa americana de praticamente todos os países do mundo, existem dívidas emitidas em dólar também de governos do mundo inteiro, de empresas do mundo inteiro – você encontra dívida da Petrobras em dólar, se você tiver esse interesse”, diz Zogbi.
Para a Nomad, um dos exemplos é a TSMC, uma empresa de Taiwan, de tecnologia, de semicondutores, que é muito buscada por ser uma tese tech fora dos EUA.
O avanço regulatório recente, consolidado pela Resolução 175 da CVM em outubro de 2023, também pavimentou o caminho para que gestores locais montassem estruturas robustas sem as amarras do passado. A nova regra reduziu a burocracia e ampliou os limites para que fundos locais invistam diretamente em ativos estrangeiros e agora, o investidor consegue acessar portfólios com maior exposição internacional a partir de gestoras brasileiras.
Apesar de abertura de capital da SpaceX ser um chamariz para internacionalização, a estratégia indicada não é uma aposta única em grandes IPOs ou em nomes globais de tecnologia. Ela passa a ser uma decisão de construção patrimonial: proteger parte da carteira em moeda forte, acessar setores que não estão representados na bolsa brasileira e reduzir a dependência dos ciclos econômicos locais. Em um mercado em que o CDI ainda oferece conforto, o desafio para o investidor brasileiro, segundo os especialistas, é entender que investir fora não substitui o Brasil, mas amplia o cardápio de oportunidades e proteção para o longo prazo.