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Marilyn Monroe Começou uma Revolução. E Não É do Tipo Que Você Está Pensando

Estrela que completaria 100 anos nesta segunda-feira ajudou a enfraquecer o sistema de estúdios de cinema que dominou Hollywood por décadas

8 min

Norma Jean Mortenson nasceu em Los Angeles há exatos cem anos. Seu começo não foi fácil. Em 1º de junho de 1926, aos 24 anos, sua mãe, Gladys Pearl Baker (sobrenome de solteira Monroe), já tinha dois filhos do primeiro casamento. Adolescente, havia casado com um homem nove anos mais velho, um marido abusivo, que mais tarde levaria as crianças para longe. Norma Jean só conheceu os meio irmãos quando tinha 12 anos.

Apesar de na certidão constar o sobrenome Mortenson, escrito errado, a menina não era filha de Martin Edward Mortensen, com quem Gladys esteve casada por alguns meses. O pai biológico era um executivo casado que trabalhava no estúdio de cinema RKO. Era chefe de Gladys, que trabalhava cortando negativos de filmes.

A vida difícil levou a mãe de Marilyn a ter vários surtos e a passar muitos anos internada, até morrer em 1984. Norma Jean foi criada em orfanatos e por pais temporários. Lutou contra vários dragões. Além dos traumas de infância e do sistema de estúdios, ela teve de ser uma das primeiras personalidades midiáticas do século passado: Marilyn Monroe.

Marilyn pode receber diversos rótulos. Símbolo sexual. Ícone pop. Figura trágica. Atormentada por doenças, depressão, alcoolismo e dependência química, ela tirou a própria vida aos 36 anos. Porém, há um aspecto menos comentado. A atriz ajudou a desmontar o “sistema de estúdios”, que dominou a produção de conteúdo em Hollywood até o início dos anos 1950.

Pioneira empresarial

Para entender o quanto Marilyn foi revolucionária, é preciso saber o que ela enfrentou. Pense nos estúdios como as big techs e seus algoritmos. Corporações bilionárias decidindo o que as pessoas vão ver: a televisão só ganharia tração na década de 1960.

O sistema tinha oito empresas. Cinco grandes estúdios, os “Big Five”: Metro-Goldwyn-Mayer, Paramount Pictures, Warner Bros. (recentemente comprada pela Paramount), 20th Century Fox (na época apenas Fox Films) e RKO Radio Pictures, um pouco menor. Eram conglomerados verticalizados. Tinham estúdios de produção de filmes, divisões de distribuição e redes com milhares de cinemas.

Operando de forma semelhante, mas menores, havia Columbia Pictures e Universal Pictures. E a United Artists funcionava como financiadora e distribuidora de produções independentes, porém, sem bater de frente com as concorrentes. Isso durou até 1948, quando uma decisão da Suprema Corte americana obrigou os estúdios a separarem as atividades de produção e distribuição da propriedade de redes de cinemas.

Sem serem obrigados a manter a exclusividade, os exibidores puderam abrir espaço para produções independentes, e criaram uma oportunidade de negócios para produtores além dos gigantes de Hollywood. No entanto, ainda demoraria alguns anos para que houvesse mudanças concretas.

Nesse sistema, os atores eram propriedade do estúdio. Seus contratos definiam os papéis que interpretariam, a imagem que projetariam e quanto receberiam por isso. Marilyn viveu isso na pele. Os papéis que lhe ofereciam eram variações do estereótipo de “loira burra”. Ela os aceitou, por um tempo. Recusar um papel significava suspensão. Negociar era um ato de rebeldia, que poderia encerrar uma carreira. E carreira era tudo para ela.

Capas de revista

No fim de 1944, 18 anos recém-completados, ela começou a trabalhar como modelo. Os primeiros trabalhos foram para revistas masculinas, e ela produziu bastante. Em 18 meses, apareceria em 33 capas de revista. A agência de modelos que intermediava seus trabalhos conseguiu uma entrevista no estúdio Fox. Marilyn fechou um contrato padrão de seis meses em agosto de 1946, com pouco mais de 20 anos.

O contrato previa que ela estudaria atuação, canto, dança e produção cinematográfica durante seis meses. Benjamin Lyon, o executivo que a contratou, disse que Norma Jean era um nome “muito comum”, e escolheu Marilyn. Na hora do sobrenome, a atriz resgatou o Monroe da mãe. O contrato foi renovado em fevereiro de 1947, mas não foi renovado em agosto.

Marilyn voltou às fotografias, mas não desistiu das telas. Se aproximou (bastante) de executivos dos estúdios e de colunistas de fofoca, os influenciadores analógicos dos anos 1950. Foi contratada por pouco tempo pela Columbia em 1948 mas voltaria à Fox em 1949.

No ano seguinte, teria participações pequenas em filmes grandes. Um foi A Malvada (All About Eve) de Joseph Mankiewicz, que receberia 14 indicações ao Oscar e levaria seis prêmios, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor. O outro foi O Segredo das Joias (The Asphalt Jungle), do diretor John Huston. Mesmo aparecendo em poucas cenas, ela chamou a atenção dos críticos e do público. Com isso, garantiu um contrato de sete anos com a Fox.

Marilyn fez diversos filmes em 1951, nenhum deles memorável. Mas não descuidou de se manter nos holofotes. No fim do ano já era uma das artistas da Fox que mais recebia correspondência de fãs. Teve relacionamentos breves com vários atores. E em 1952 começou um romance com Joe DiMaggio, um jogador de baseball aposentado com fama equivalente à de Cristiano Ronaldo.

Em 1953 viria seu maior sucesso até então, o musical Gentlemen Prefer Blondes (Os Homens Preferem as Loiras). Nele, Marilyn canta Diamonds are a Girl’s Best Friend. O filme é considerado o 12º melhor musical da história pelo American Film Institute. O sucesso levou a atriz a figurar entre os de\ artistas mais lucrativos do cinema nas edições de 1953 e de 1954.

Carreira independente

Marilyn já era a maior estrela da Fox e recebia os mesmos US$ 1.500 por semana do início do contrato, muito abaixo da maioria de seus colegas. Os papéis que lhe ofereciam eram diversas variações da loira burra. Ela os aceitou e, na medida do possível, tentou melhorá-los, ainda que tivesse de questionar diretores e roteiristas e que vivesse fazendo as cenas de maneira diferente. Não por acaso, morreu com a fama de “difícil de trabalhar”.

Em janeiro de 1954 ela se recusou a participar de um filme e foi suspensa. Para conter a publicidade negativa, ela rapidamente casou-se com DiMaggio, com quem namorava há dois anos. Em março, a Fox desistiu. Ofereceu-lhe um novo contrato, um bônus equivalente a US$ 1,2 milhão e o papel principal em uma comédia, The Seven Year Itch (O Pecado Mora ao Lado), de Billy Wilder. Nele outra cena icônica: o vestido branco de Marilyn é levantado pelo vento que sai de um respiradouro do metrô. A cena atraiu tanta publicidade que levou DiMaggio a se divorciar de Marilyn.

No fim do ano, ela mudou-se para Nova York com um amigo, o fotógrafo Milton Greene. A ideia era estudar teatro e criar uma produtora independente para ter, pela primeira vez, algum controle real sobre o próprio trabalho. Em 7 de janeiro de 1955 foi anunciada a criação Marilyn Monroe Productions (MMP). A atriz era presidente da empresa, com 51% das ações, e Greene era vice-presidente com 49%.

Claro que a Fox não gostou: começaria ali uma longa batalha jurídica que teria até a produção de uma peça ridicularizando Marilyn. Porém, o sucesso de O Pecado Mora ao Lado dobrou a Fox, que chamou a atriz para conversar. As propostas eram bem mais generosas.

Marilyn passaria a receber US$ 100 mil por filme (US$ 1,2 milhão atualmente) e teria direito de aprovar roteiros, diretores e diretores de fotografia. Comprometia-se com apenas quatro produções para o estúdio em sete anos. E, como bônus significativo, a Fox concordou que ela fizesse um filme pela sua produtora para cada filme realizado para o estúdio. A imprensa americana reconheceu o feito. A revista Time a chamou de “mulher de negócios esperta”.

Trajetória conturbada

A MMP produziu um único filme, a comédia romântica The Prince and the Showgirl (O Príncipe Encantado) de 1957, ao lado de Laurence Olivier. As filmagens foram turbulentas. Olivier e Marilyn tiveram uma relação conflituosa e, após a estreia, a bilheteria ficou aquém das expectativas. Mesmo assim, Marilyn foi indicada ao prêmio BAFTA, equivalente ao Oscar inglês, e ganhou o prêmio David di Donatello por sua atuação.

Greene deixou a empresa. A MMP continuou existindo, mas passou a ser usada principalmente para fins fiscais e para os investimentos de Marilyn e participou em The Misfits (Os Desajustados), de 1961), o último filme completo de Monroe, lançado pouco depois de sua morte.

Mesmo tendo vida curta e produzindo apenas um filme, a MMP permitiu que Marilyn demonstrasse ser possível enfrentar o sistema de estúdios. A atriz arriscou a carreira em um momento em que contratos de estúdio eram leoninos. As condições que arrancou da Fox em 1955 eram inéditas. Iniciativas como essa mostraram que era possível mudar o jogo.

A imagem mais lembrada de Marilyn é a de um vestido branco esvoaçante. A mais revolucionária, porém, é muito menos glamurosa. Sentar-se à mesa de negociações, recusar repetir indefinidamente o papel de loira burra e buscar ser roteirista da própria história.

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