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Músicas Geradas por IA Podem Estar Reduzindo Ganhos de Artistas e Investidores

Durante a maior parte da história da música, uma canção era apenas uma canção. Na última década, ela passou a ser tratada como um título financeiro

10 min

Em março, um homem de 54 anos de Cornelius, na Carolina do Norte, se declarou culpado em um tribunal federal de Manhattan por um esquema que drenou recursos de um dos ativos de renda mais recentes do mercado financeiro.

Segundo os promotores, Michael Smith usou inteligência artificial para produzir milhares de músicas e, em seguida, empregou um exército de bots para reproduzi-las bilhões de vezes, desviando mais de US$ 8 milhões (R$ 41,28 milhões) em royalties ao longo de sete anos.

Ele concordou em devolver US$ 8.091.843,64 (R$ 41.753.912,38) e será sentenciado em 29 de julho. O caso é o primeiro desse tipo nos Estados Unidos e, para quem investiu no crescente mercado de royalties musicais, pode servir como um sinal de alerta.

Como música se tornou fonte de renda

Durante a maior parte da história da música, uma canção era apenas uma canção. Na última década, ela passou a ser tratada como um título financeiro.

Empresas de investimento perceberam que os royalties gerados por um sucesso musical — sempre que ele é reproduzido em plataformas de streaming, sincronizado em anúncios ou tocado no rádio — se comportam de maneira semelhante aos cupons pagos por títulos de renda fixa: rendimentos pequenos, constantes e pouco correlacionados com o mercado acionário.

A partir dessa lógica, esses direitos passaram a ser empacotados como ativos financeiros. A Hipgnosis, apoiada pela Blackstone, vendeu em 2024 um título de dívida de US$ 1,47 bilhão (R$ 7,59 bilhões) garantido por um catálogo de músicas. Em abril, a Primary Wave concluiu a captação de um fundo musical de US$ 2,225 bilhões (R$ 11,48 bilhões). Desde 2020, mais de US$ 8 bilhões (R$ 41,28 bilhões) em títulos lastreados em música foram emitidos, enquanto os fundos que compram catálogos movimentam muitos bilhões de dólares adicionais.

A corrida pelas aquisições não foi discreta. O catálogo da Hipgnosis, que atualmente serve de garantia para o título, reúne direitos de músicas de bandas e artistas como Red Hot Chili Peppers, Neil Young, Journey, Shakira e Bon Jovi, entre cerca de 45 mil títulos.

A Blackstone retirou o fundo Hipgnosis Songs Fund da bolsa em 2024 por aproximadamente US$ 1,6 bilhão (R$ 8,26 bilhões), e posteriormente uma agência de classificação avaliou o catálogo em US$ 2,36 bilhões (R$ 12,18 bilhões). Sony, Universal e diversas empresas de private equity seguiram a mesma estratégia: um sucesso consolidado gera fluxo de caixa por décadas, e esse fluxo pode ser transformado em um ativo financeiro negociável. Todo esse modelo depende de uma premissa fundamental, que o dinheiro continue entrando de forma previsível.

O argumento é atraente em tempos de incerteza. Trata-se de uma fonte de renda que continua pagando independentemente da alta ou da queda das ações, porque as pessoas ouvemFleetwood Mactanto em períodos de prosperidade quanto em momentos de crise. O que antes era restrito a fundos de pensão e gestores especializados agora está ao alcance de investidores comuns por meio de fundos e veículos listados em bolsa.

Mas tudo se apoia em uma única suposição, colocada em dúvida nos últimos meses: a de que os royalties que sustentam esses investimentos continuarão chegando nos níveis esperados.

Poucas pessoas compram conscientemente uma participação em catálogos musicais, por isso vale explicar como um aplicador acaba exposto a esse mercado. Fundos de pensão e seguradoras, em busca de rendimentos menos voláteis que as ações, investem há anos em estratégias baseadas em royalties.

Alguns títulos lastreados em catálogos musicais possuem classificação de grau de investimento, permitindo que instituições conservadoras os mantenham em carteira. O título Lyra, apoiado pela Hipgnosis, recebeu nota A-, confortavelmente dentro dessa categoria.

Além disso, um número crescente de fundos oferece exposição direta a royalties para investidores de varejo. O investidor típico talvez nunca tenha decidido apostar em um catálogo da Shakira. Muitas vezes, essa exposição está escondida dentro de um plano de aposentadoria ou de um fundo de renda escolhido justamente por sua suposta estabilidade.

O único número que sustenta todo o sistema

Para entender o problema, é preciso compreender como o streaming remunera artistas — e o funcionamento não é o que a maioria das pessoas imagina.

Spotify, Apple Music e outras plataformas não pagam um valor fixo cada vez que uma música é reproduzida. Em vez disso, elas reúnem toda a receita do mês proveniente de assinaturas e publicidade em um único fundo e distribuem esse montante proporcionalmente entre todas as reproduções realizadas no período.

A parcela recebida por cada artista depende de sua participação no total de execuções. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos explicou isso claramente no caso Smith: os royalties são distribuídos proporcionalmente a músicos e compositores a partir de um fundo comum.

Esse fundo permanece relativamente fixo em determinado mês, e é justamente aí que reside a base de todo o argumento de investimento. Se o número de reproduções disputando esse montante aumenta, cada execução passa a valer um pouco menos.

Um catálogo pode apresentar exatamente o mesmo desempenho do ano anterior, atrair o mesmo número de ouvintes e ainda assim gerar menos receita, simplesmente porque mais músicas passaram a dividir o mesmo dinheiro. No fim das contas, o que esses fundos possuem é uma fatia de uma torta, e essa torta está sendo dividida em um número cada vez maior de pedaços.

A enxurrada de músicas geradas por IA

Atualmente, grande parte desses novos pedaços vem de máquinas. A Deezer, plataforma de streaming que tem sido particularmente transparente sobre o problema, informou em abril que faixas geradas por inteligência artificial já representam 44% de todas as músicas enviadas diariamente ao serviço.

Isso equivale a aproximadamente 75 mil músicas sintéticas por dia, ante cerca de 10 mil por dia um ano antes — um aumento de sete vezes em apenas doze meses, sem sinais de desaceleração. A versão mais realista dessa história é mais interessante do que a alarmista. Essas 75 mil músicas diárias ainda não são ouvidas em escala semelhante à da música criada por humanos.

Segundo a Deezer, o consumo efetivo de músicas geradas por IA representa entre 1% e 3% do total de reproduções. A empresa também afirma que 85% das execuções dessas faixas são identificadas como fraudulentas e excluídas dos cálculos de royalties. Portanto, o fundo de royalties não está entrando em colapso neste momento.

O que está crescendo é a pressão de oferta sobre um montante fixo, acompanhada da própria admissão da plataforma de que boa parte desse conteúdo existe não para ser apreciada, mas para capturar receitas indevidas.

Em 11 de junho, a Deezer lançou uma ferramenta gratuita que permite aos usuários analisar playlists em 20 serviços, incluindo o Spotify, para identificar faixas geradas por inteligência artificial.

Quando a manipulação se torna crime

O caso de Smith mostra como essa estratégia funciona em sua forma deliberada. Ele não tentou criar um único sucesso viral, pois sabia que isso acionaria os sistemas antifraude das plataformas. Em vez disso, distribuiu reproduções falsas por um catálogo gigantesco de músicas geradas por IA.

Em determinado momento, operava até 10 mil contas automatizadas e gerava, segundo sua própria estimativa, 661.440 reproduções por dia. Um bilhão de reproduções falsas em uma única faixa é um sinal evidente de fraude. Já um bilhão de reproduções espalhadas por dezenas de milhares de músicas esquecíveis se parece muito mais com comportamento normal para os sistemas de detecção.

A Mechanical Licensing Collective, entidade responsável pela distribuição de royalties de streaming para compositores nos Estados Unidos, identificou a anomalia logo no início e questionou os representantes de Smith. Segundo a organização, essa atuação impediu que aqueles royalties específicos fossem desviados. O sistema funcionou.

Ainda assim, a entidade adotou um tom cauteloso em vez de comemorativo. Após o caso, comprometeu-se a continuar investindo em mecanismos de detecção de fraudes, reconhecendo que a ameaça não desaparecerá.

Cada dólar retirado do fundo por um bot é um dólar que deixa de chegar a catálogos legítimos — incluindo aqueles presentes nos fundos dos investidores.

Por que isso afeta os investidores?

O valor de um fundo musical corresponde ao valor presente dos royalties que seu catálogo deverá gerar nos próximos anos, e esses royalties representam uma participação em um fundo coletivo. Se a inteligência artificial inundar esse sistema com novas músicas, sejam elas legítimas ou fraudulentas, a participação associada a cada catálogo humano tende a diminuir.

A principal característica usada para vender esses ativos — fluxo de caixa previsível e estável — é justamente a característica mais ameaçada por um choque de oferta dentro do sistema de royalties. O risco não vem de fora. Ele está incorporado ao próprio funcionamento do ativo.

Isso também faz com que o desempenho dos fundos dependa de uma disputa invisível para a maioria dos investidores: se os mecanismos antifraude das plataformas conseguirão eliminar reproduções falsas mais rapidamente do que as máquinas conseguem criá-las.

Outra questão paira sobre todo o setor, e os reguladores ainda não apresentaram uma resposta definitiva. Nos Estados Unidos, as taxas de royalties são definidas por meio de um processo governamental conduzido pelo Copyright Royalty Board. Ainda não existe consenso sobre se músicas geradas por IA têm direito à licença compulsória utilizada por obras criadas por seres humanos.

Se essas músicas artificiais, que hoje diluem o fundo de royalties, tiverem seu direito contestado ou alterado, as regras que determinam quem recebe pagamentos e em que proporção poderão mudar para os fundos que já investiram nesse mercado.

O que um investidor deve observar

Royalties musicais não são necessariamente um investimento ruim por causa disso. A renda gerada é real, e sua baixa correlação com o mercado acionário continua sendo uma vantagem legítima. No entanto, o rendimento divulgado é apenas o ponto de partida da análise, não sua conclusão.

Investidores devem verificar se o catálogo de um fundo é composto por músicas humanas e verificáveis ou se foi inflado com conteúdo sintético. Também devem questionar como os gestores projetam royalties futuros e se esses cálculos consideram a diluição do fundo de royalties ou apenas assumem que os valores por reprodução permanecerão os mesmos.

Também vale observar se as defesas das plataformas — como os detectores da Deezer e as medidas antifraude do Spotify — estão conseguindo acompanhar a enxurrada de conteúdo gerado por IA.

Afinal, o valor desses investimentos depende de máquinas vencendo uma corrida que a maioria dos investidores sequer sabia que existia. Esses royalties representam uma participação em um fundo no qual qualquer pessoa agora pode despejar conteúdo a um custo praticamente nulo.

Wall Street transformou músicas em títulos financeiros acreditando que a fatia de um grande catálogo estaria protegida. O problema é que essa fatia nunca foi fixa e o fundo nunca esteve completamente resguardado. Antes de investir nessa fonte de renda, vale a pena observar quantas outras mãos estão tentando alcançar o mesmo dinheiro.

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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