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O Movimento do BCE Que Pode Ditar o Comportamento dos Próximos Bancos Centrais – e da Selic

Primeira grande autoridade monetária a reagir ao choque energético provocado pela guerra, o BCE sinaliza que a inflação voltou ao centro das preocupações globais

12 min

Durante boa parte dos últimos dois anos, a Europa parecia ter alcançado algo que poucos economistas julgavam possível em meio a uma sequência de choques históricos. Depois da pandemia e da crise energética provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia, a zona do euro conseguiu reduzir a inflação sem mergulhar em uma recessão profunda, enquanto iniciava um gradual processo de redução dos juros.

Mas a decisão do Banco Central Europeu (BCE) de elevar sua taxa de juros pela primeira vez desde 2023 mostra que o cenário pode estar mudando novamente, e que os efeitos econômicos da guerra entre Israel, Estados Unidos e Irã podem se tornar o próximo grande desafio para os formuladores de política monetária ao redor do mundo.

Ao elevar a taxa de depósito de 2% para 2,25%, o BCE tornou-se o primeiro grande banco central a reagir ao novo choque geopolítico que ameaça os mercados globais de energia. Embora o aumento tenha sido modesto, a mensagem enviada por Frankfurt foi significativa: as autoridades monetárias estão dispostas a agir antes que a alta do petróleo e dos combustíveis se transforme em inflação disseminada por toda a economia.

A decisão tem implicações que vão muito além das fronteiras europeias. Em um momento em que o Federal Reserve, o Banco da Inglaterra, o Banco do Japão e diversos bancos centrais de economias emergentes se aproximam de novas reuniões de política monetária, o movimento do BCE pode servir como um sinal antecipado do que está por vir.

A lógica é simples. Choques de energia funcionam como um imposto invisível sobre a economia global. Quando petróleo, gás natural e combustíveis ficam mais caros, os custos de transporte, produção e logística sobem. O impacto inicial aparece nos preços da energia, mas, com o tempo, tende a contaminar cadeias produtivas inteiras, elevando preços de alimentos, bens industriais e serviços.

Foi exatamente esse mecanismo que impulsionou a inflação global após a invasão da Ucrânia em 2022. Naquele momento, a Europa foi o epicentro da crise. Dependente do gás russo, o continente enfrentou uma disparada sem precedentes nos preços de energia, levando a inflação da zona do euro a níveis recordes.

Desde então, porém, o bloco havia conseguido reconstruir parte de sua resiliência. A diversificação das fontes energéticas, a desaceleração econômica e o aperto monetário implementado entre 2022 e 2023 permitiram que a inflação retornasse gradualmente para perto da meta de 2%. Ao mesmo tempo, os juros começaram a cair sem provocar uma deterioração severa da atividade econômica.

Era um dos poucos casos entre as grandes economias em que o processo de desinflação parecia relativamente bem encaminhado. A nova escalada no Oriente Médio ameaça alterar esse equilíbrio. A inflação anual da zona do euro subiu para 3% em abril de 2026, o mais alto desde setembro de 2023, acima de 2,6% em março.

O petróleo Brent já é negociado acima de US$ 90 por barril e acumula valorização superior a 50% neste ano. Para os bancos centrais, porém, a preocupação vai além do nível atual dos preços. O maior risco está na duração do choque. Um conflito prolongado envolvendo o Irã – um dos principais produtores globais de petróleo – pode comprometer a oferta mundial de energia e manter combustíveis e derivados em patamares elevados por tempo suficiente para desancorar expectativas de inflação. Nesse cenário, um aumento inicialmente concentrado no setor energético tende a se espalhar pela economia, pressionando custos de transporte, produção e logística e dificultando o trabalho das autoridades monetárias.

A presidente do BCE Christine Lagarde afirmou que a instituição está reagindo a riscos concretos e monitorará atentamente a evolução do choque energético. O banco está sinalizando que a luta contra a inflação ainda não terminou.

A decisão do BCE também reflete preocupações com a proximidade do verão no Hemisfério Norte, período em que o consumo de energia tradicionalmente aumenta. Para Helena Veronese, economista da B.Side Investimentos, a combinação entre demanda sazonal elevada e restrições na oferta global de petróleo aumenta o risco de novas pressões inflacionárias.

“O BCE está se antecipando a um cenário em que a demanda por energia tende a crescer justamente quando o mercado de petróleo enfrenta mais incertezas. O verão no Hemisfério Norte é um período de maior consumo de combustíveis, seja por turismo, transporte aéreo, construção civil ou pelo uso mais intenso de energia elétrica”, afirma Veronese.

Segundo ela, o receio é que a inflação energética ganhe força justamente em um momento em que os bancos centrais acreditavam ter controlado boa parte dos efeitos inflacionários herdados dos choques dos últimos anos.

Para Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria, a decisão anunciada nesta quinta-feira era amplamente esperada pelo mercado e foi reforçada pela deterioração recente do cenário inflacionário global. “O BCE já vinha sinalizando esse movimento desde a reunião anterior. Nas últimas semanas, a piora do quadro inflacionário global, em um contexto de continuidade da guerra e de aumento das incertezas sobre energia, apenas reforçou essa expectativa”, afirma.

Segundo o economista, embora ainda não esteja claro se o banco central europeu dará continuidade ao ciclo de aperto monetário, a decisão representa uma antecipação aos riscos de disseminação da inflação para além dos preços de energia. “Já existem preocupações concretas com o repasse desses custos para outros setores da economia. Foi justamente esse temor que a própria Christine Lagarde destacou após a reunião. O risco é que essas pressões deixem de ser um fenômeno restrito à energia e passem a contaminar preços de forma mais ampla”, diz Campos Neto.

Mais importante, na avaliação de Campos Neto, o movimento europeu pode servir como referência para outras autoridades monetárias que se reúnem nos próximos dias. “Não significa necessariamente que veremos outros bancos centrais elevando juros imediatamente, mas a tendência é de uma postura mais conservadora. O BCE acaba funcionando como um sinal de alerta para um ambiente inflacionário que voltou a se deteriorar.”

Expectativa de novas altas

Para Livio Ribeiro, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV Ibre), a alta anunciada pelo BCE dificilmente será um episódio isolado. “O aumento desta quinta-feira não deve ser um evento único. Nossa expectativa é de que o BCE promova um pequeno ciclo de aperto monetário, levando a taxa de juros para algo próximo de 2,75% ao longo das próximas reuniões”, afirma.

Segundo o economista, a decisão reflete a necessidade de responder a um choque de oferta provocado pela alta dos preços de energia, mesmo que isso implique custos para a atividade econômica. “É uma medida desagradável porque tende a desacelerar o crescimento, mas essa é a resposta tradicional de um banco central com meta de inflação diante de um choque negativo de oferta. O objetivo é ajustar a demanda à nova capacidade da economia, e isso normalmente exige condições financeiras mais restritivas”, diz.

Ribeiro pondera, contudo, que o movimento europeu não deve ser interpretado como um roteiro automático para outras autoridades monetárias. “Não devemos tomar a decisão do BCE como um sinal direto do que o Federal Reserve ou o Banco Central do Brasil farão nas próximas reuniões. Cada economia enfrenta circunstâncias próprias.” Ainda assim, ele vê a medida como um alerta sobre a deterioração do ambiente macroeconômico global. “O que a decisão deixa claro é que o cenário inflacionário internacional está piorando. Independentemente das respostas específicas de cada banco central, a tendência é de condições financeiras globais mais apertadas para lidar com o choque energético em curso.”

O que o Fed fará?

A decisão do BCE ganha relevância porque ocorre às vésperas de uma sequência de reuniões dos principais bancos centrais do mundo, incluindo o Federal Reserve.

Nos Estados Unidos, o consenso do mercado continua sendo de manutenção dos juros na faixa entre 3,5% e 3,75%. Segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, 98% dos investidores apostam que a autoridade monetária manterá as taxas inalteradas na próxima reunião.

Ainda assim, o cenário inflacionário se tornou mais desafiador. O índice de preços ao consumidor (CPI) avançou 0,5% em maio e acumula alta de 4,2% em 12 meses, mais que o dobro da meta de longo prazo perseguida pelo Fed.

Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho segue demonstrando resiliência. A economia americana criou 172 mil vagas em maio, resultado muito acima das projeções dos analistas e que reforça a percepção de uma demanda ainda aquecida.

Esse quadro reduz o espaço para uma flexibilização monetária e aumenta a atenção dos investidores sobre a comunicação do banco central americano.

“Não esperamos uma alta de juros agora, mas provavelmente uma mudança de tom. O Fed pode passar a equilibrar mais os riscos e deixar explícito que uma eventual elevação volta ao radar caso o conflito se prolongue e os efeitos sobre o petróleo persistam”, afirma Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendências Consultoria.

Para Helena Veronese, economista da B.Side Investimentos, o movimento do BCE não determina os próximos passos de outras autoridades monetárias, mas reforça uma mudança de postura diante de um ambiente inflacionário mais adverso.

“Não significa que outros bancos centrais vão necessariamente elevar juros porque o BCE fez isso. Mas certamente torna o ambiente global mais propenso a uma postura de cautela e a juros elevados por mais tempo”, diz.

Na avaliação da economista, o Federal Reserve continua sendo uma exceção relativa entre os grandes bancos centrais. Apesar da persistência da inflação, a autoridade monetária americana ainda observa sinais de moderação da atividade econômica, o que reduz a probabilidade de uma reação imediata.

“O Fed tem uma economia que começa a mostrar alguma desaceleração, apesar da força do mercado de trabalho. Se houver novas altas de juros nos Estados Unidos, provavelmente será um dos últimos grandes bancos centrais a se mover”, afirma.

Mais do que antecipar uma nova rodada de aperto monetário global, a decisão do BCE sugere uma mudança de foco dos bancos centrais. Até poucas semanas atrás, o debate girava em torno de quando os juros começariam a cair. Agora, a discussão passou a ser por quanto tempo eles precisarão permanecer elevados caso o choque energético provocado pela guerra continue pressionando a inflação.

O desafio brasileiro

No Brasil, os sinais também caminham na direção oposta àquela esperada por parte do mercado há alguns meses.

As projeções do Boletim Focus continuam se deteriorando. A expectativa para o IPCA deste ano subiu para 5,11%, acima do teto da meta de inflação. Ao mesmo tempo, as apostas para a Selic voltaram a avançar, com o mercado projetando taxa básica de 13,50%.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, também tem destacado a presença de pressões de demanda na economia, impulsionadas pelo aumento da renda e pelo consumo das famílias.

Para Campos Neto, o ambiente inflacionário brasileiro tornou-se mais complexo justamente porque combina fatores domésticos e externos. “As expectativas de inflação seguem piorando, as projeções continuam distantes da meta e a atividade econômica permanece resiliente. Além disso, há estímulos à demanda e fatores externos que aumentam as incertezas. Tudo isso compõe um quadro mais adverso para a inflação brasileira.”

Historicamente, choques de petróleo representam um dos cenários mais difíceis para os bancos centrais. Diferentemente de uma inflação provocada apenas pelo excesso de demanda, eles combinam preços mais altos com crescimento econômico mais fraco, uma mistura frequentemente associada ao risco de estagflação. Elevar juros demais pode aprofundar a desaceleração econômica. Fazer pouco pode permitir que a inflação se torne persistente.

Por isso, o movimento do BCE ganha importância global. Ao agir primeiro, o banco central europeu oferece uma prévia de como as autoridades monetárias podem reagir caso o choque energético se intensifique.

No caso brasileiro, a consequência mais imediata pode ser a interrupção precoce do ciclo de flexibilização monetária. “O Banco Central pode até promover mais uma redução de 25 pontos-base, mas a tendência é que deixe aberta a possibilidade de pausa. O risco hoje é que esse ciclo termine antes do que se imaginava. Nós mesmos revisamos nossa projeção para a Selic de fim de ano de 13,5% para 14%, justamente porque o ambiente ficou mais desafiador”, afirma o economista.

Se os preços da energia continuarem avançando e as tensões geopolíticas persistirem, a alta de juros anunciada em Frankfurt poderá ser lembrada não apenas como uma resposta europeia a um novo choque inflacionário, mas como o primeiro passo de uma mudança mais ampla na política monetária global.

Para investidores, empresas e consumidores, a mensagem é clara: o mundo pode estar entrando em uma nova fase de juros elevados por mais tempo. E, nesse cenário, a expectativa de cortes mais agressivos da Selic, assim como em outras economias, pode ter de esperar.

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