O dólar voltou a subir ante o real nesta quarta-feira (24) e passou novamente de R$ 5,20, em um dia de agenda econômica fraca, mas de continuidade da pressão externa sobre moedas emergentes.
A alta não vem de um único fator. O câmbio é pressionado pela combinação de um banco central americano mais duro, tensão geopolítica, saída de capital estrangeiro da bolsa brasileira e redução da Selic no Brasil. No pano de fundo, o ano eleitoral adiciona volatilidade, embora ainda haja divergência sobre o quanto esse fator já pesa no preço da moeda.
No exterior, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de moedas fortes, avançava 0,24%, a 101,62 pontos, perto das 13h nesta quarta-feira. A alta mostra o fortalecimento global da moeda americana depois da decisão do Federal Reserve, que manteve os juros entre 3,5% e 3,75% ao ano e sinalizou que ainda pode voltar a subir a taxa em 2026.
Juros mais altos nos Estados Unidos aumentam a atratividade dos títulos americanos e reduzem o apetite por ativos de maior risco, como moedas e ações de países emergentes.
“O Fed tirou da mesa aquela promessa de corte e passou a indicar que os juros podem subir. Juro americano alto firma o dólar forte no mundo inteiro. O investidor prefere a segurança dos Estados Unidos a arriscar em emergentes”, afirma Gustavo Trotta, especialista e sócio da Valor Investimentos.
Geopolítica voltou a pesar no câmbio
A especialista em câmbio, Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, afirma que a pressão recente sobre o câmbio tem relação direta com a piora do cenário geopolítico.
“Essa alta que a gente tem visto mais recentemente tem muito a ver com a questão geopolítica. Desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, os bancos centrais revisaram o curso das políticas monetárias”, diz.
As políticas monetárias ficaram mais restritas desde que a tensão no Oriente Médio elevou o risco sobre o petróleo, especialmente por causa do Estreito de Hormuz, rota estratégica para o transporte global da commodity. Quando o petróleo sobe, aumenta o risco de inflação no mundo. Isso deixa bancos centrais mais cautelosos e reduz o espaço para cortes de juros.
Esse ambiente favorece o dólar por duas vias: pela expectativa de juros americanos mais altos e pela busca de investidores por ativos considerados mais seguros. “A gente tem um movimento de aversão ao risco e cautela, que causa busca por ativos mais seguros. O fluxo vai para o dólar, e por isso o dólar acaba se fortalecendo”, afirma Cristiane.
Saída de estrangeiros da B3 ajudou a virar o jogo
Outro fator relevante é o fluxo estrangeiro na bolsa brasileira. O ano começou com forte entrada de recursos externos, o que ajudou a valorizar o real e segurou o dólar em patamar mais baixo.
Apenas em janeiro entraram R$ 26 bilhões de capital estrangeiro na B3, mais do que em todo o ano de 2025. O estrangeiro chegou a representar 61% do giro da bolsa brasileira.
Esse quadro mudou em maio, quando houve a primeira saída líquida de recursos estrangeiros da B3 no ano. Os investidores estrangeiros retiraram R$ 14,91 bilhões da bolsa de valores. Foi a maior saída mensal de recursos desde janeiro de 2022.
“O Brasil virou queridinho no começo do ano. Só que em maio a chave virou. O estrangeiro tirou dinheiro daqui. E, quando ele vende ativo brasileiro e troca real por dólar, a moeda sobe”, afirma Trotta.
Selic menor reduz parte do atrativo do real
No Brasil, o Copom cortou a Selic de 14,50% para 14,25% ao ano na semana passada. Foi o terceiro corte consecutivo da taxa básica de juros.
A Selic continua alta, mas o contraste com os Estados Unidos ficou menos favorável ao real. Enquanto o Brasil corta juros, o Fed mantém a taxa americana elevada e pode voltar a subir. Isso reduz, na margem, o diferencial de juros entre os dois países.
Esse diferencial é importante porque sustenta operações de carry trade, em que investidores buscam ganhos aplicando em países que pagam juros mais altos. Quando a diferença de juros diminui ou fica mais incerta, parte desse fluxo perde força.
“O Brasil está cortando juros enquanto os Estados Unidos seguram ou podem até subir. Isso estreita a diferença de juros e atrai dinheiro para os Estados Unidos”, diz Trotta.
Cristiane, porém, avalia que esse diferencial ainda segue favorável ao Brasil. Para ela, mesmo com novos cortes da Selic, os juros brasileiros devem continuar elevados até o fim do ano.
“Embora a gente espere queda dos juros aqui no Brasil ao longo do ano, esse cenário tende a ser lento e gradual. A gente ainda vai ter uma taxa de juros alta até o fim do ano”, afirma.
Eleição ainda divide os analistas
O cenário eleitoral aparece como outro ponto de atenção para o câmbio, mas não há consenso sobre o peso desse fator neste momento.
Para Trotta, a eleição presidencial já começa a adicionar prêmio de risco ao dólar. A indefinição sobre o resultado da disputa e as dúvidas sobre a condução fiscal do próximo governo aumentam a cautela dos investidores.
“Ano de eleição é ano de incerteza fiscal e volatilidade. Enquanto o cenário não está definido, o mercado coloca um prêmio de risco no dólar. Quanto mais ruído político e fiscal, mais pressão na moeda”, afirma.
Cristiane vê esse risco, mas acredita que ele ainda não explica a alta recente. Para ela, a eleição deve pesar mais perto do início efetivo das campanhas.
“O cenário eleitoral ainda não tem tido impacto nessa pressão cambial. Em ano de eleição, o Brasil vê volatilidade no câmbio, sim, mas isso costuma acontecer mais perto das eleições, quando as campanhas ficam mais intensas”, diz.
Dólar pode voltar a R$ 6?
Apesar da alta recente, a volta do dólar para R$ 6 não é o cenário-base do Ouribank. Cristiane afirma que trabalha com a moeda em um intervalo mais próximo de R$ 5 a R$ 5,20, em linha com a projeção do Boletim Focus para o fim de 2026.
A economista diz que o dólar poderia até perder força se houver alívio geopolítico e se o diferencial de juros brasileiro continuar atraente.
“Não acreditamos que o dólar possa voltar para a casa dos R$ 6. A tendência é permanecer nesse patamar entre R$ 5 e R$ 5,20”, afirma.
Para a moeda americana chegar a R$ 6, seria necessária uma piora simultânea em várias frentes.
“Para bater R$ 6, precisaria acontecer uma tempestade perfeita: Fed subindo muito os juros, acordo com o Irã desandando, petróleo voltando a subir, eleição esquentando junto de dúvida fiscal aqui dentro. Basicamente, os três fatores ao mesmo tempo”, diz Cristiane.