O universo literário não é o mesmo já faz tempo — e isso é uma coisa boa. Nos últimos anos, a bibliodiversidade tomou conta das conversas e também dos eventos em torno dos livros. Além, claro, do aumento de publicações de mulheres, pessoas negras e LGBTQIAPN+, reafirmando o poder da palavra na percepção do leitor. Quem acompanhou tudo isso de perto foi Rita Palmeira, editora e crítica literária, doutora em literatura brasileira pela USP, que, agora, sai do lugar de mediadora querida pelo público para o posto de curadora da Festa Literária Internacional de Paraty. “Desde 2003, só perdi duas edições”, brinca ela em entrevista. “É um lugar que marcou a minha trajetória profissional e os laços afetivos. Me senti muito honrada com esse convite.”
Com experiências que vão desde a apresentação do podcast Livros no Centro, da Livraria Megafauna, em São Paulo, da qual também participou da criação, até a curadoria de outros festivais do meio, Rita afirma sentir a responsabilidade do cargo. “A Flip conduziu à sua maneira as transformações do mercado editorial brasileiro. Antes, o cenário era muito diferente, não existia preocupação com a diversidade de gênero, raça, região do país ou mesmo de casas editoriais distintas — agora isso são pilares. A demanda dos visitantes junto com a do contexto sociopolítico foi trazendo cada vez mais aprendizados para a instituição”, avalia. “As curadorias sensíveis dos últimos anos, junto com a direção artística do Mauro Munhoz, assim como as editoras e os veículos de imprensa, acompanharam tudo isso.”
Consolidada a cada edição, a Flip se tornou parada obrigatória na agenda de leitores ávidos, jornalistas, escritores independentes e outros artistas que se inspiram pelas histórias. A edição de 2025, por exemplo, recebeu cerca de 34 mil pessoas, com 98% de ocupação das pousadas locais, ao longo dos cinco dias de festa. Para este ano, a expectativa segue alta, seguindo a retomada do calendário em julho, logo após o final da Copa do Mundo. “É incrível que tenhamos a transmissão online das mesas da programação principal, mas estar em Paraty muda a percepção da experiência. É um lugar onde as pessoas estão dispostas a ouvir e conversar, mesmo em discordância, características raras hoje em dia.”
“Sempre que é possível aproximar um autor nacional de outro internacional, me interessa.”
— Rita Palmeira, editora e crítica literária
O efeito Flip se reflete na escolha de Rita Palmeira para o autor homenageado da edição que acontecerá entre 22 e 26 de julho deste ano: a poeta brasileira Orides Fontela. A obra marcada pelo rigor estético foi apenas celebrada entre os críticos especializados, mas pouco conhecida do grande público. “Ela era brilhante, mas teve uma vida muito difícil, marcada por precariedade material e instabilidade emocional. O amplo anedotário sobre ela acabou ofuscando a sua produção singular e sofisticada”, explica a curadora. A ideia é poder usar esse farol como uma possibilidade de conectá-la com novos leitores, inclusive em uma programação anterior à mesa de abertura da festa, com ciclos de conversa e outras ações ao longo do primeiro semestre, em parceria com a editora Hedra, responsável pelas novas edições da escritora paulista. “A opinião pública é implacável com as mulheres. Orides queria ser lida, valorizada. A ideia é ampliar a homenagem, na medida dos recursos, para fazer algo grande.”
Em um período especialmente prolífico para o reconhecimento internacional da arte, do cinema e da literatura brasileiros, Rita conta que percebe o interesse externo pelo país. “O posicionamento do Brasil no cenário global faz parte desse contexto. Um dos conselheiros até comentou: ‘Está todo mundo de olho aqui’.” O quebra-cabeça da programação principal leva em conta o jogo entre autores de diferentes origens para criar diálogos com perspectivas singulares. “Sempre que é possível aproximar um autor nacional de outro internacional, seja pelo tema, pela forma ou pela trajetória, me interessa. Porém, nem tudo o que ressoa aqui terá o mesmo efeito lá fora”, diz, enfatizando o equilíbrio necessário na hora de montar as mesas de debate.
Nomes importantes, como o do autor franco-argelino Kamel Daoud, já estão confirmados, e a curadora mostra o desejo para a Flip de 2026. “Orides Fontela nos dá uma lição: ler com atenção, respiro, pausa, desaceleração e escuta. A poesia é o lugar da dúvida, da ambiguidade, da ambivalência da palavra. A festa literária é uma contribuição para que se criem esses espaços de troca de pontos de vista, porque é isso que interessa na literatura.”