Donald Trump, que décadas atrás se definiu como “uma espécie de P.T. Barnum” – referindo-se ao empresário americano conhecido por transformar espetáculo, autopromoção e publicidade em dinheiro no século 19 – finalmente encontrou seu número mais lucrativo: ser presidente.
Ele faturou US$ 2,4 bilhões (R$ 12,17 bilhões) no ano passado, segundo uma análise da Forbes que cruzou seu relatório de divulgação financeira com registros de títulos de dívida, documentos do mercado de capitais e processos judiciais. O objetivo foi chegar a um número mais preciso do que os “pelo menos US$ 2,2 bilhões” (R$ 11,15 bilhões) amplamente divulgados nas últimas semanas.
O montante de US$ 2,4 bilhões, que combina receita operacional e recursos obtidos com a venda de ativos, supera em muito os estimados US$ 760 milhões (R$ 3,85 bilhões) recebidos por Trump em 2024. A quantia também equivale a 6 mil vezes o salário atual do presidente dos Estados Unidos, de US$ 400 mil (R$ 2,03 milhões).
Trump parece perceber que lucrar com a política pega mal. Questionado sobre o ganho extraordinário recente, desconversou: “Eu já ganhava muito dinheiro antes de me tornar presidente.” Em seguida, acrescentou: “Sabe por que estou lucrando? Porque o mercado de ações está subindo.”
Não exatamente.
O total de US$ 2,4 bilhões não inclui os recursos provenientes de suas vendas de ações, que aparentemente foram, em grande parte, reinvestidos no mercado. A maior parcela do crescimento em relação ao ano anterior, de US$ 1,4 bilhão (R$ 7,10 bilhões), veio das criptomoedas — um setor que Trump já descreveu como “baseado em nada”, mas que, desde então, passou a vender com entusiasmo a apoiadores desavisados. Muitos deles sofreram perdas devastadoras em seus investimentos.
Além disso, o presidente embolsou quantias extraordinárias com Mar-a-Lago e com seu negócio internacional de licenciamento de marca.
Trump, cujos representantes não responderam aos pedidos de comentários, nem sempre foi tão evasivo ao falar sobre ganhar dinheiro com a política. “É muito possível”, disse ele à revista Fortune há 26 anos, “que eu seja o primeiro candidato à Presidência a concorrer e ganhar dinheiro com isso”.
Em 2016, um ano antes de assumir o cargo pela primeira vez, os negócios de Trump geraram estimados US$ 610 milhões (R$ 3,09 bilhões). Depois de chegar ao poder, ele tentou — inicialmente com sucesso limitado — lucrar com a nova posição.
Algumas áreas de seu império foram beneficiadas, como Mar-a-Lago, enquanto outras enfrentaram dificuldades, entre elas o negócio de licenciamento de produtos que vendia roupas masculinas e colchões. Os efeitos se compensaram parcialmente, e a receita permaneceu praticamente estagnada em torno de US$ 650 milhões (R$ 3,30 bilhões) entre 2017 e 2019. A Covid mudou esse cenário. O faturamento caiu para aproximadamente US$ 450 milhões (R$ 2,28 bilhões), e Trump acabou perdendo a Presidência.
Isso se revelou positivo para seus negócios. Durante os anos afastado do poder, ele reformulou o portfólio de uma maneira que o deixou perfeitamente posicionado para lucrar com um retorno político. É verdade que sua marca havia se tornado polarizada demais para vender de forma consistente camisas, gravatas e quartos de hotel ao grande público. Seus apoiadores mais fiéis, porém, formavam uma base de clientes mais confiável, disposta a desembolsar dinheiro por qualquer coisa que ele colocasse à venda.
Eles compraram Bíblias por US$ 100 (R$ 507), relógios por US$ 500 (R$ 2.535) e, mais importante, investimentos em empreendimentos criados às pressas, que alcançaram avaliações de vários bilhões de dólares sustentadas por pouco além da crença.
Isso não aconteceu de uma só vez. Em 2021, a Trump Organization gerou estimados US$ 560 milhões (R$ 2,84 bilhões) ao sair da pandemia. Em 2022, Trump se desfez de seu muito famoso e pouco lucrativo hotel em Washington, D.C. A operação respondeu por aproximadamente US$ 260 milhões (R$ 1,32 bilhão) dos US$ 910 milhões (R$ 4,61 bilhões) obtidos naquele ano. Em 2023, ele gerou estimados US$ 755 milhões (R$ 3,83 bilhões).
No ano eleitoral mais recente, 2024, Trump recebeu aproximadamente US$ 760 milhões (R$ 3,85 bilhões). Desse total, em torno de US$ 60 milhões (R$ 304,20 milhões) vieram da venda de tokens de criptomoedas ligados a um novo empreendimento, a World Liberty Financial, que só ganhou força de verdade depois que ele venceu a eleição para a Casa Branca.
Outros US$ 60 milhões (R$ 304,20 milhões) vieram do negócio internacional de licenciamento, enquanto quase US$ 80 milhões (R$ 405,60 milhões) foram gerados por Mar-a-Lago. As duas áreas foram impulsionadas pela perspectiva de um segundo mandato de Trump. Sem esses ganhos extraordinários motivados pela política, a arrecadação de 2024 teria ficado mais próxima de US$ 650 milhões (R$ 3,30 bilhões), praticamente o mesmo valor gerado durante seu primeiro mandato.
Quando Trump retornou à Casa Branca, em 2025, os preços das criptomoedas dispararam, em grande parte graças à promessa do presidente de tratar o setor de maneira favorável. Três dias antes de tomar posse, o então presidente eleito lançou uma memecoin. As letras miúdas informavam aos compradores que a oferta não deveria ser considerada um investimento.
Muitos investiram mesmo assim, não apenas na memecoin, mas também no token da World Liberty. A memecoin acabou rendendo aproximadamente US$ 635 milhões (R$ 3,22 bilhões) a Trump em 2025. A World Liberty acrescentou quase US$ 800 milhões (R$ 4,06 bilhões).
Desde então, as criptomoedas oferecidas por Trump despencaram em relação às máximas. A memecoin acumula queda de 98%, um lembrete útil de que seu ganho pessoal extraordinário não veio de políticas sensatas, de uma genialidade presidencial ou de um mercado em alta que beneficiou a todos.
O dinheiro resultou, na verdade, de uma campanha de construção de marca iluminada pelo Salão Oval, que agora chega à sua conclusão natural. No fim das contas, produtos ruins continuam sendo produtos ruins — mesmo quando são vendidos pelo presidente dos Estados Unidos.
- Matéria originalmente publicada por Forbes.com