Este Mundial superou todos os anteriores em escala. Mais seleções, mais partidas, mais público, mais dinheiro girando fora de campo. A Fifa arrecadou US$ 7,6 bilhões (R$ 38 bilhões) com o Catar 2022 e projeta superar essa marca com a edição de 2026, disputada por 48 seleções nos Estados Unidos, no Canadá e no México.
Em entrevista à BBC, Marion Laboure, estrategista do Deutsche Bank Research, calcula a receita da entidade em torno de US$ 13 bilhões (R$ 66 bilhões) com os direitos de transmissão, licenciamento, hospitalidade, patrocínio e bilheteria. A Fifa já avalia uma expansão futura para 64 seleções, o que abriria caminho para mercados como China e Índia e para os bilhões de espectadores adicionais que os dois países representam.
Nem toda essa receita nasce dos mecanismos tradicionais. A pausa de 90 segundos para hidratação, introduzida nesta edição, foi descrita por Gianni Infantino como uma decisão “puramente esportiva”. Para as emissoras, tornou-se inventário publicitário. A Fox Sports, que pagou US$ 485 milhões (R$ 2,4 bilhões) pelos direitos nos Estados Unidos, vendeu os intervalos como espaço “patrocinado por” marcas específicas. Um bloco de 30 segundos na emissora custa entre US$ 200 mil e US$ 300 mil (R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão); nas fases finais dos jogos dos Estados Unidos, o valor chegou a US$ 750 mil (R$ 3,8 milhões). Somadas, as pausas de hidratação podem render US$ 250 milhões (R$ 1,2 bilhão) só no mercado americano. “As pausas para hidratação são puro espaço publicitário. Eu ficaria extremamente surpresa se elas desaparecessem. O formato expandido permanecerá porque a escala agora é o modelo de negócios da Fifa”, diz Laboure.
Os patrocinadores oficiais pagam para estampar suas marcas ao lado da competição e colhem retorno proporcional. A Adidas investiu cerca de US$ 67 milhões (R$ 342 milhões) em uma campanha estrelada por Lamine Yamal, Jude Bellingham e Lionel Messi, na disputa direta com a Nike. Coca-Cola manteve a presença de sempre.
O ponto onde a conta para de fechar é o das cidades-sede. A Fifa estimou US$ 41 bilhões (R$ 209 bilhões) em impacto global, dos quais US$ 17 bilhões (R$ 86 bilhões) na economia americana e 185 mil empregos, concentrados em hotelaria. Alexander Budzier, pesquisador da Universidade de Oxford e diretor-executivo da Oxford Global Projects, contesta a projeção: cidades-sede costumam perder visitantes regulares, que evitam o período por causa do caos logístico, e os empregos gerados são majoritariamente de baixo salário no setor de serviços. “Isso gera empregos, mas não gera riqueza”, resume. Dados oficiais mostram contratação em bares e restaurantes americanos subindo antes do torneio, em maio, e recuando logo em seguida.
A hotelaria é o setor onde a distância entre expectativa e resultado ficou mais evidente. A demanda projetada por quartos não se confirmou nas cidades-sede. A Associação Hoteleira da British Columbia, no Canadá, relatou junho e julho “bem abaixo do ritmo dos anos anteriores”, mesmo com Vancouver sediando sete partidas.
Efeito nulo no Brasil
Esse padrão já havia se manifestado no Brasil, sede da Copa de 2014, e os números por setor ajudam a entender por que a promessa de transformação econômica ampla raramente se cumpre.
Para Emerson Marçal, coordenador do centro de macroeconomia aplicada da FGV-SP, o efeito líquido da Copa de 2014 sobre o ano tendeu a zero. “O país parou por vários dias. A produção caiu, as vendas no varejo caíram, mas as pessoas também se planejaram para fazer antes ou depois o que fariam durante a Copa. […] Mas ao fim do ano o efeito foi zero”, avalia.
A indústria foi o setor mais penalizado. A produção industrial já vinha em queda antes do torneio, e os feriados aprofundaram o recuo: a produção do setor automotivo caiu 33,3% em junho na comparação anual, enquanto as vendas de veículos recuaram 17,27%. As vendas de papelão ondulado, indicador tradicional da atividade industrial por sua presença em praticamente toda a cadeia produtiva, caíram 3,38% no mês. No acumulado até maio, a indústria brasileira registrava queda de 1,6% na produção e de 2,2% no emprego, segundo o IBGE. A confiança empresarial caiu pelo sexto mês seguido, ao menor nível desde 2009.
O turismo colheu o resultado oposto. O Brasil recebeu 700 mil estrangeiros só em junho, 132% acima do mesmo mês do ano anterior. O gasto desses visitantes foi 169% maior que o registrado no mesmo período de 2013, segundo a Mastercard. A taxa de ocupação hoteleira nas cidades-sede cresceu 24% na comparação com 2013, segundo o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil. Em São Paulo, porém, a ocupação ficou entre 58% e 62% durante o torneio – abaixo da média de 75% do ano anterior -, reflexo da retração do turismo de negócios, segundo a Associação Brasileira Indústria Hotéis São Paulo (ABIH-SP).
Bares venderam 25% a mais, em média, segundo a Abrasel. Restaurantes tiveram o movimento inverso, com queda de 10% no faturamento, atribuída à redução de eventos corporativos e ao perfil do turista de Copa, que viaja sem família e frequenta menos esse tipo de estabelecimento. Ainda assim, o setor de bares e restaurantes somado faturou R$ 11 bilhões em junho, alta superior a 20% ante o ano anterior. A produção nacional de cerveja cresceu 6,3% em junho e acumulou alta de 11,6% no primeiro semestre.
No varejo, a venda de televisores mais que dobrou no início de junho, segundo a GfK, e acumulava alta de 41% entre janeiro e maio na comparação anual. O setor de semiduráveis – vestuário, calçados e artigos esportivos – cresceu 9,3% em junho, segundo o Instituto para Desenvolvimento do Varejo. O comércio como um todo, porém, desacelerou: o crescimento das vendas caiu de 5,4% em maio para 3,9% em junho. No Rio de Janeiro, o Centro de Estudos do Clube dos Diretores Lojistas estimou que o comércio deixou de faturar R$ 1,2 bilhão durante o período da Copa, apesar do grande volume de turistas na cidade.
Construção civil e mercado imobiliário não sentiram o torneio: a Caixa Econômica Federal não registrou alteração na concessão de crédito imobiliário atribuível à Copa. No campo macroeconômico, o IPCA desacelerou para 0,4% em junho, mas acumulava alta de 6,52% em 12 meses, acima do teto da meta de 6,5%. A balança comercial teve o melhor resultado do ano em junho, com superávit de US$ 2,36 bilhões, puxado por uma alta de 9,5% nas exportações de produtos básicos; no acumulado do ano, porém, o país ainda registrava déficit de US$ 2,49 bilhões. Na Bovespa, o volume financeiro médio diário negociado em junho foi de R$ 6,33 bilhões, praticamente estável ante maio (-0,5%), enquanto o Ibovespa avançou 3,76% no mês.
Do lado dos investimentos declarados, o Ministério do Turismo estimou em R$ 30 bilhões a injeção de recursos na economia, cerca de 0,7% de tudo o que o país produziu em 2013. Antes do início das obras, um levantamento da Ernst & Young em parceria com a FGV projetava R$ 142,3 bilhões injetados na economia entre 2010 e 2014, dos quais R$ 30 bilhões em estádios e mobilidade urbana, com potencial para gerar 3,6 milhões de empregos ao longo do ciclo. Marcos Nicolas, diretor de Mercados Estratégicos da EY, considerou que os números finais ficariam próximos da projeção original, mesmo sem revisão formal do estudo, que havia trabalhado com uma estimativa de 600 mil turistas estrangeiros, abaixo dos 700 mil efetivamente registrados.
Doze anos depois, com a Copa em outro continente e outra escala, a estrutura do resultado se repete: a receita cresce para quem já está posicionado – federação, emissoras, patrocinadores, bares e o turismo de curta duração, enquanto a promessa de transformação econômica ampla, sustentada por obras e empregos permanentes, segue sem se confirmar nos números.