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“Estamos Vivendo uma Sequência Contínua de Choques”: Janet Yellen Aponta as Três Forças Que Estão Remodelando a Economia Global

Ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos afirma que o avanço do protecionismo, os riscos para o mercado de petróleo e a corrida pela inteligência artificial inauguram uma nova fase da economia mundial, marcada por pressões persistentes sobre inflação e crescimento

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A pandemia deixou de ser o principal fator de instabilidade da economia mundial. Na avaliação da ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos Janet Yellen, um novo cenário se consolidou: em vez de uma grande crise isolada, governos, empresas e bancos centrais passaram a enfrentar uma sucessão de choques que se sobrepõem e alteram continuamente as perspectivas para inflação, crescimento e investimentos. “Estamos vivendo uma sequência contínua de choques”, afirmou Yellen em entrevista à Forbes Brasil, no XP Expert.

A observação resume uma mudança de diagnóstico sobre a economia global. Durante boa parte das últimas décadas, episódios de turbulência eram tratados como eventos extraordinários, seguidos por períodos de relativa estabilidade. Hoje, segundo Yellen, a dinâmica é diferente. Tensões comerciais, riscos geopolíticos e transformações tecnológicas passaram a interagir simultaneamente, tornando mais difícil prever o comportamento da inflação e mais complexa a atuação dos bancos centrais.

Na entrevista, ela identifica três forças que ajudam a explicar essa nova configuração da economia mundial.

1. O retorno do protecionismo e a fragmentação do comércio

O primeiro choque vem da política comercial. Para Yellen, a retomada das tarifas de importação pelos Estados Unidos representa mais do que uma disputa bilateral com parceiros comerciais. Ela vê um movimento capaz de elevar custos ao longo das cadeias globais de produção e criar novas pressões inflacionárias.

Ao comentar as tarifas impostas pelo governo Donald Trump sobre produtos brasileiros, a economista foi direta. “Não acredito que essa política traga benefícios para os Estados Unidos. Acho que ela prejudica o Brasil.”

Segundo ela, a justificativa de que tarifas reduziriam o déficit comercial americano encontra pouco respaldo entre economistas. “Poucos economistas acreditam que tarifas sejam uma forma de lidar com o déficit comercial de um país.” Na prática, afirma, barreiras comerciais tendem a encarecer bens importados, elevar custos para empresas e consumidores e aumentar a dificuldade de controlar a inflação.

O efeito vai além da relação entre Estados Unidos e Brasil. Segundo ela, trata-se de uma mudança no funcionamento do comércio internacional, justamente em um momento em que empresas ainda reorganizam cadeias de suprimentos após a pandemia.

2. O petróleo continua sendo um risco para a inflação

O segundo choque continua vindo da energia. Embora a inflação tenha desacelerado desde os picos registrados em 2022, Yellen considera que uma nova alta expressiva do petróleo permanece entre os principais riscos para a economia mundial.
Questionada sobre a possibilidade de o barril voltar à faixa de US$ 100, ela afirmou que um movimento dessa magnitude teria impacto relevante sobre os preços. “Certamente o aumento do preço do petróleo é um fator muito importante para elevar a inflação.”

A preocupação vai além dos combustíveis. O petróleo influencia custos de transporte, logística, produção industrial e alimentos, tornando-se um canal de transmissão para praticamente toda a economia. Para bancos centrais, isso representa um desafio adicional. Diferentemente de uma inflação causada pelo excesso de demanda, choques de energia reduzem a capacidade da política monetária de conter rapidamente a alta dos preços apenas por meio dos juros.

3. A inteligência artificial ainda pressiona os preços

O terceiro fator é, paradoxalmente, uma das tecnologias mais associadas ao aumento da produtividade. Embora reconheça o potencial transformador da inteligência artificial no longo prazo, Yellen afirma que seus efeitos imediatos caminham na direção oposta. A construção de data centers, a expansão da infraestrutura elétrica e a demanda crescente por semicondutores exigem investimentos bilionários e ampliam o consumo de energia e equipamentos, pressionando preços em diversos segmentos da economia.

Os ganhos de eficiência prometidos pela tecnologia, segundo ela, ainda não aparecem de forma suficientemente ampla para compensar esse movimento.
Em outras palavras, antes de reduzir custos, a inteligência artificial está exigindo uma enorme mobilização de capital físico e energético. É uma leitura que contrasta com a narrativa predominante de que a IA seria imediatamente desinflacionária.

Uma economia mais difícil de interpretar

Os três fatores apontados por Yellen têm origens distintas. Um decorre de decisões políticas; outro, das tensões no mercado global de energia; o terceiro, da aceleração tecnológica. Em comum, todos atuam sobre a oferta da economia, elevando custos e tornando a inflação mais resistente.

Essa combinação ajuda a explicar por que, mesmo após um ciclo agressivo de alta de juros, os principais bancos centrais ainda encontram dificuldades para conduzir a inflação de volta às suas metas. Em um ambiente marcado por choques sucessivos, instrumentos tradicionais de política monetária tornam-se menos eficazes para responder a pressões que nascem fora da demanda doméstica.

A avaliação de Yellen sugere que a economia global entrou em uma nova fase. Se, durante décadas, o desafio dos formuladores de política econômica era administrar ciclos relativamente previsíveis de expansão e desaceleração, agora o cenário é moldado por fatores que se retroalimentam: disputas comerciais, riscos geopolíticos, energia e transformação tecnológica. Mais do que eventos passageiros, esses choques passam a definir o ambiente econômico em que governos, empresas e investidores terão de tomar decisões nos próximos anos.

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