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“Temos Grandes Ambições”: Figma Abre Primeiro Escritório da América Latina em São Paulo

Empresa de design colaborativo formaliza operação no país que já é um de seus cinco maiores mercados

6 min

O Figma vai abrir seu primeiro escritório da América Latina em São Paulo e passará a oferecer hospedagem local de dados para clientes brasileiros. Anunciado nesta quarta-feira (22), o movimento formaliza a operação da companhia em um mercado que já figura entre os cinco maiores do mundo em usuários ativos semanais e é parte da aposta da empresa em ampliar a base corporativa fora dos Estados Unidos.

Fundado em 2012, o Figma é uma plataforma de design colaborativo na nuvem usada por equipes de design, produto e engenharia para criar e prototipar as interfaces de aplicativos e sites. Vários profissionais editam o mesmo arquivo ao mesmo tempo, característica que ajudou a ferramenta a se espalhar entre empresas de tecnologia. Segundo a companhia, ela é usada por 95% das 500 maiores empresas dos Estados Unidos. Foi esse alcance que levou a Adobe a tentar comprá-la por US$ 20 bilhões, negócio anunciado em 2022 e abandonado no fim de 2023 diante da resistência de reguladores na Europa e no Reino Unido.

O anúncio da abertura do escritório em São Paulo acontece pouco menos de um ano depois de o Figma abrir capital. A companhia estreou na Bolsa de Nova York em julho do ano passado e vem crescendo em ritmo acelerado: no primeiro trimestre deste ano a receita subiu 46% na comparação anual, para US$ 333,4 milhões, com o negócio internacional avançando 48%. A empresa elevou a projeção de receita para 2026 para até US$ 1,428 bilhão. As ações, porém, recuaram com força desde a euforia da estreia, saindo de uma máxima de US$ 142,92, em agosto de 2025, para a casa dos US$ 20 na primeira metade de 2026.

“O Brasil tem uma das comunidades de design e tecnologia mais dinâmicas do mundo. Isso é algo que sentimos sempre que estamos em uma sala com profissionais brasileiros que desenvolvem produtos, desde as equipes por trás das maiores instituições financeiras do país até empresas líderes de diferentes setores”, afirmou Débora Mioranzza, Head da América Latina no Figma. “Ampliar nosso escritório em São Paulo e trazer a hospedagem de dados para mais perto é mais um passo em nosso compromisso com o Brasil.”

Uma base corporativa que já existia

Antes de montar estrutura local, o Figma já tinha no país uma base relevante de clientes pagantes. No primeiro trimestre de 2026, metade das companhias listadas no Ibovespa desenvolvia produtos com a plataforma, ante 35% no segundo trimestre de 2025. Entre os clientes estão iFood, Itaú Unibanco, Mercado Livre, Nubank, Sicredi e BTG Pactual. No mesmo período, cerca de 14 milhões de arquivos haviam sido criados no Brasil nos 12 meses anteriores.

Em entrevista à Forbes, Mioranzza afirmou que o escritório de São Paulo é o primeiro hub da companhia na América Latina. O Figma mantém cerca de 11 unidades desse tipo no mundo e aproximadamente 1.800 funcionários. “Ter o Brasil como o primeiro da América Latina é um sinal enorme de que nossos investimentos não vão parar por aqui. Temos grandes ambições de continuar crescendo”, disse a executiva.

Dados locais para destravar contratos

A hospedagem local é, sobretudo, estratégia comercial para conquistar clientes de setores regulados, caso de bancos e instituições financeiras, que enfrentam requisitos mais rígidos de segurança e proteção de dados. Com a opção, empresas podem armazenar no Brasil os dados de seus arquivos, sem abrir mão da escala da plataforma. A alternativa se soma às que a companhia já oferecia na União Europeia, na Austrália e na Índia.

“Ter a hospedagem local de dados significa muito para os clientes brasileiros, especialmente quando se pensa nos clientes altamente regulados e nas grandes empresas que temos aqui, porque eles seguem regras e requisitos de segurança mais rígidos”, disse Mioranzza. Segundo a executiva, o recurso ajuda essas empresas a cumprir parte das exigências da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e também melhora a velocidade de resposta da plataforma, fator relevante à medida que cresce o uso de ferramentas de IA entre os clientes.

O Figma não divulga o valor investido no país. Mioranzza afirmou que a empresa tem vagas abertas no Brasil, entre elas posições para design advocates e funções técnicas, e classificou a chegada do primeiro hub latino-americano como sinal do compromisso da companhia com a região.

Ambições na América Latina

A executiva afirmou que o Figma pretende ampliar a presença no continente. “Um dos nossos maiores parceiros aqui, que está sempre nos empurrando a inovar mais, é o Mercado Livre, sediado na Argentina”, disse. “Temos muita ambição de crescer para fora.” Além do Brasil, a companhia mantém comunidades ativas de usuários na Colômbia, no Chile, na Argentina e no México, este último um dos maiores e mais ativos, ainda sem hub próprio.

Para Mioranzza, o país reúne talento técnico e apetite por inovação, atributos que ajudam a explicar por que a base local cresceu antes mesmo da estrutura física. “A comunidade brasileira está sempre muito faminta por inovação, não apenas seguidores de tendências, mas criadores de tendências”, afirmou.

Um mercado que adota rápido

A aposta se apoia na leitura de que o Brasil está entre os mercados que mais rápido incorporam IA ao desenvolvimento de produtos. Incluído pela primeira vez no relatório anual de IA do Figma, ao lado de outros nove países, o país lidera vários indicadores do estudo, que reuniu 8.403 respostas globais, sendo 636 locais. Entre os respondentes brasileiros, 70% dizem que o design se tornou mais importante com a IA, atrás apenas da Índia, e 49% relatam impacto significativo ou transformador na colaboração, a maior taxa entre os dez mercados pesquisados.

Onde o design se encaixa na era da IA

Para o Figma, o avanço da inteligência artificial amplia o público que usa suas ferramentas, e não o contrário. Paige Costello, vice-presidente de produto da companhia, associa o movimento ao que a empresa chama de “role blending”, a diluição das fronteiras entre design, produto e engenharia. “Vemos a IA como um vento a favor do Figma, porque ela permite que mais pessoas participem do processo de criação”, disse à Forbes.

Segundo a executiva, o desafio é acompanhar essa abertura sem perder qualidade. “A IA eleva o piso de quem pode participar do processo de design, e também estamos tentando garantir que ela eleve o teto do que as pessoas podem fazer com o seu trabalho”, afirmou. É essa combinação, na leitura da empresa, que sustenta a demanda por uma plataforma capaz de reunir times inteiros em torno da construção de um produto.

A ampliação dá sequência a outros movimentos recentes da empresa no país, como a localização completa do produto em português do Brasil, lançada em maio de 2025. O Figma divulga o balanço do segundo trimestre de 2026 em 5 de agosto.

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